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Rui Manuel Amaral. Traçar um cosmos a partir de ninharias

Rui Manuel Amaral. Traçar um cosmos a partir de ninharias

Diogo Vaz Pinto 03/01/2020 13:12

Se fôssemos vasculhar entre os escombros de 2019, Cadernos de Bernfried Järvi justificaria por si só o empenho nas operações de resgate. Desde logo pelo esforço de livrar a escrita das mais comuns pretensões literárias


Em Portugal, lê-se como quem conta carneiros. Os leitores do que vai por aí de narrativa de ficção parecem tantas vezes trautear de si para si mesmos um rosário, como quem se pesasse numas estórias mansas que não levam nem trazem nada de profundo nem de agitador, um enredo ou um modo de contar as coisas, “a realidade fraturada, mutável, peneirada pelo tempo” de um tal modo que a noite mande levantar o acampamento e empenhar os seus homens nalgum desafio prodigioso. Nisto, o curioso é que a queixa, depois, invariavelmente dá no mesmo: lamentam-se “da míngua de escritores neste país de moscas”. Onde estão? Que é feito dessa gente tumultuosa que ficou de vir baralhar-nos as noções e esquemas? Quem quer que leia, sofrendo mais ou menos de insónias, depois de se ter virado para o lado esquerdo ou para o direito, começa a ansiar, como dizia Nabokov, por um terceiro lado. E é esse que muitas vezes só se acha depois de cair do cavalo de um livro mais obstinado ou desavergonhado, de uma mente capaz de se desatrelar de uma imensa e inútil carga de convenções.

Há bem mais de um século, já Machado de Assis, a meio de Memórias Póstumas de Brás Cubas, apontava o dedo na mesma direção: “O maior defeito deste livro és tu, leitor.” Está boa esta, dirá desse lado, com os seus trejeitos muito desnalgados o leitor destes artiguelhos de jornal, habitado a todo o tipo de descomposturas, mas habituado também a não alarmar-se muito, nem levar a peito ofensa nenhuma. Mas atentemos na peça de acusação de um escritor que, no século XIX, já atirava as botas sobre o fio que percorre o XXI: “Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...”

Agora o leitor quer saber a que título vem um preâmbulo destes, com a unha do indicador tão crescida, e também (mea culpa) um bocadinho suja. A justificação é uma obrinha que surgiu aí com a singeleza de uma sebenta, uma edição quase frugal, mas bela nisso, pensado mais no jeito que faz um livro na mão do que naquele que faz à vista, e que aberto traz dentro o rumor de movimentações fulgurantes, ainda que em espaços contidos, limitados, uma narrativa de caçador de insónias, num desatavio de quem pode ter de dar súbitas guinadas num sentido ou noutro, achando aquele terceiro lado. Cadernos de Bernfried Järvi convoca a si um leitor algo desnaturado, aquele para quem falava há meio século Nuno Bragança: “Leitor qualquer, desde que lendo sejas. Só que te peço: aquela enorme paciência de astronauta inaugurando sideral carreira em nave especial de plástico, de treino.”

Esta obra de Rui Manuel Amaral – editada com o principesco cuidado que hoje, paradoxalmente, só uns raros tunantes ainda praticam, num evidente contraciclo face aos modelos industriais –, tem muito da narrativa “para aguentar a mão que escreve”, e o que isso significa é uma oposição face a uma literatura saturada de ficções que não passam de formas de um bloqueio, o que se torna necessário é sabotar este regime. Na mesma linha do autor de A Noite e o Riso, Amaral poderia dizer-nos: “Tal como sou, não inventario mais, no arsenal, do que o inenarrável”. E os seus Cadernos rasgam uma dessas órbitas impossíveis de situar, que recusam, a cada parágrafo, acompanhar o roteiro, aproveitar-se das habituais escalas. Como um Bernardo Soares trocado por miúdos, o desassossego aqui busca uma saída, naquela convicção de que é preciso, de algum jeito, custe o que custar, escapar da literatura. E o verso do poeta que, aos 35 anos, se atirou para debaixo de um comboio, depois de deixar uma obra magra mas notável, vai soando também por aqui: “Só há saída pelo fundo.”

Não nos calhou a nós ter feito o registo deste avistamento em primeira mão. Já António Guerreiro, nas páginas do “Público”, pôs alguma ordem nesta cozinha onde os pratos sujos se empilham e transbordam do lava-loiças, numa proximidade com livros, e esses outros abcessos de uma vida interior algo desconchavada... Isso não nos impede, contudo, de vir também oferecer-nos para as tarefas de faxina e fascínio que uma obra destas exige.
Como quem não quer a coisa, estes cadernos ressoam de compaixão e indiferença, cada período acotovela, põe de lado “o saco de pedras” da narrativa, e vê como essa receita, assim que começa a esfriecer, enche-se de moscas, e só interessa a um juízo cujos pensamentos se confundem com esse zumbido atabafador. Sem capítulos, a prosa lança uma e outra vez a linha, tem aquela desfaçatez de um palito gingando de um canto ao outro da boca, e a salgalhada de impressões e cenas que vão acometendo o leitor na busca da tal saída que resulta, no fim de contas, numa extração desta obra a um contexto demasiado soporífero.

Afinal, onde fica o fundo desta noite reacionária que tomou conta também da narrativa e que procede como se todo o modernismo não tivesse passado de um pesadelo desterritorializante? Logo depois, novas fórmulas trouxeram de volta a pacatez conformada com as regras de etiqueta ficcional, percorrendo o catálogo de situações forçadas, esses personagens que vivem do convencimento de que existem, que respiram ainda pior que nós, romances em que, como notou certa vez um crítico, não falta na rotina diária dos personagens o pequeno-almoço, almoço e jantar. As páginas seguem-se, indo a trote, no dorso de perras divagações, mulas saindo dos currais da literatura de gabinete. Obras que nos lembram estações de serviço para lugares comuns, e em que as frases nos surgem em círculos apertados cheirando o traseiro umas das outras.

Assim, a “épica anónima” identificada por Guerreiro, sustenta-se não tanto de um quotidiano hiperbólico, mas de uma forma de evasão sistemática, em que até a própria escrita parece surgir como um bando de parêntesis enfiados nessas outras obras, como fendas por onde meter o nariz e a boca, encher os pulmões de ar. Aqui, o uso da pontuação não nos surge como uma coisa regrada, mas como uma forma de relaxar as frases, estalar-lhes os dedos, e estas estão sempre a aliviar-nos de algum peso. É um poema mas muito por extenso, incidental, que exprime e atualiza o desejo certa vez expresso por um artista que, numa outra encarnação, dava pelo nome de Joaquim Manuel Magalhães: “Não ser lido por quem lê. Somente/ pelos que procuram qualquer coisa/ rugosa e rápida a caminho de uma revista/ onde fotografaram todo o ludíbrio da felicidade./ Que um poema meu lhes pudesse entregar,/ ademais da morte,/ um alívio igual ao de atirar os sapatos/ que tanto apertam os pés desencaminhados.”

Com recurso tantas vezes a sábios efeitos de espelhamento, que geram uma fabulosa cumplicidade entre o narrador e o leitor, este diz-lhe coisas como: “Sem nada de muito importante para fazer, deitei-me, moído de tédio, com um livro de Pierre Louÿs. Percorri várias páginas sem destino, a engonhar. As letras saltavam, pareciam inflamar-se, sem se deixarem ler. Depois, fixei uma frase, como um rebuçado, e assim permaneci por algum tempo.”

O tão espantoso artíficio deste livro é a consciência do vínculo com o leitor, a noção de que não se é um homem desta época, mas mais um bicho que a segrega como uma casca e que, sentindo-a demasiado frágil, inóspita, busca uma coisa melhor. E a escrita é esse modo de interrogar-se, de desistir e retomar o problema, rodeá-lo. É a escrita daquelas figuras irredutíveis a uma ficção extraordinária e que ensaiavam as suas fulgurâncias e até o exotismo das suas mentes contra o pano de fundo de umas ordinarices existenciais. Como Sebald diz na introdução aos ensaios que reuniu em O Caminhante Solitário, a escrita surge como um hábito um tanto embaraçoso, algo que mais do que envaidecer-nos causa um certo constrangimento, e, no entanto, é “uma atividade de que não nos libertamos com facilidade, mesmo quando se nos torna detestável ou impossível”. Neste sentido, com a discrepância meio alegórica do drama dos seus personagens, estes Cadernos de Bernfried Järvi é o saldo de uma tão ingrata dedicação. Como soaria o resfolegar deste impossível ofício, uma vez que, como regista Sebald, “do ponto de vista do indivíduo que escreve, quase nada há que possa alegar em defesa dela, de tal modo é pouco gratificante”. E antes de exemplificar com alguns exemplos que o tocaram particularmente, sugere: “talvez seja realmente melhor escrever, sem mais”.

Então, vejamos a tal coisa a funcionar, sem particulares intenções, apenas como uma fluência interna que possa instituir a mais humilde das resistências: “Debruçado sobre a folha ainda em branco, escuto a respiração das coisas à minha volta. Mesa, papel, caneta, livros, pó. Todas as coisas a respirar na sua maneira muito particular de inspirar e expirar, inspirar e expirar. Um relógio invisível bate uma hora misteriosa e carregada de significado. A noite está cheia de possibilidades. As coisas começam então a adquirir um brilho próprio. Um brilho vivo como nunca possuíram. Cada papel, cada livro, cada caneta parece possuir a sua própria luz, querendo elevar-se no ar como uma estrela. (...) Pode-se imaginar quanta claridade há agora no quarto.”

Somos lembrados da literatura como um processo de enfrentamento, de realizar o mundo intimamente, dar-lhe um fluxo épico – esse que se constrói, muito gradualmente, uma coisa atrás da outra, como dizia Sebald. Mesmo somando coisas banais, mesmo sem escapar do quotidiano, antes desmanchando-o até se revelar como um artíficio. E a palavra literária ganha peso precisamente por tornar-se tão leve (“toma seu corpo um soltíssimo narrar”). E este livro homenageia esse gesto hesitante, esse esforço recobrado, e vive sem nunca abdicar da sua promessa, da possibilidade de infinitas combinações. Inclusivamente, a possibilidade de se observar uma revolução ínfima, usando o microscópio da atenção, incidindo nos detalhes, traçando um cosmos das ninharias.

Estamos, assim, como acontece hoje raramente, perante uma obra que nos belisca, que se interrompe, faz pausas para fumar, para se siderar, que entretece enigmas, pilhérias, anedotas que dispensam os modos gerais do riso, incomodidades, cartas de amor amachucadas, deitadas fora, retomadas; gavetas e mais gavetas, uma floresta de papéis que havia ficado soterrada e que, com uns furinhos no solo, volta a respirar. E nas suas refracções, nas personagens que se revezam relançando a linha – além de Bernfried Järvi, temos Milo, Matthäus Geschke ou Pagreus –, o narrador encena aqueles modos de uma escrita como antídoto, um talento incerto para abdicar do modo de composição mais verosímil, salvar-nos da esterilidade de um realismo imbecil, para nos entregar a uma desordem enunciativa que é outra forma de reger o mundo, quando, mais do que sentido, do que este precisa é que lhe dêem corda.  
E é nesta corrida de estafetas a um ritmo bastante variável, sem grandes pressas, que Rui Manuel Amaral reinvindica outro plano de virtudes, de admiráveis fracassos. A literatura como café central, onde se cruzam, ao longo das épocas, personagens capazes de desatar os atacadores do sapato como num sonho. Gestos de nada tomando o peso do mundo. Talentos imprestáveis lá fora, mas que aqui nos são tudo. Nunca mais cabam as apresentações. Nem o nosso entusiasmo pelos modos de tipos como Pagreus. “Pagreus não pára de contar os pequenos mexericos da cidade, as mil banalidades quotidianas. Ah, as histórias que ele conhece! Ele tem o talento. Uma capacidade espantosa para captar os mais subtis movimentos à sua volta, apercebe-se facilmente de mil barulhos por detrás das paredes, chamamentos, conversas, risos, gemidos, os próprios pensamentos de alguém fechado no seu quarto, três ou quarto ruas mais à frente.” E logo depois faz questão de reconhecer essa particular virtude de um desses agentes de viagens que páram pelos cafés não para vender pacotes para aqui ou para ali, mas para reinventar a mais estática das viagens: a utopia. “Entregue-se a Pagreus uma mesa de café, um copo de cerveja e uma pequena plateia, e ele constrói uma civilização.”
 

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