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O porquê de uma formação em biologia nos cursos de engenharia

O porquê de uma formação em biologia nos cursos de engenharia

Isabel Sá-Correia 24/12/2019 10:43

Quem é hoje capaz de prever as profissões dos futuros engenheiros? Contudo, estas irão requerer os conhecimentos específicos não só das várias engenharias como de outras áreas do saber.

Numa economia global e num mundo em mudança, caracterizado pelos rápidos avanços da ciência e da tecnologia, o desenvolvimento de diversas competências e a aprendizagem de um vasto leque de conhecimentos tornam-se essenciais para que os estudantes e futuros graduados sejam mais bem-sucedidos durante o ensino universitário e fora da universidade. Curiosamente, muitos dos desenvolvimentos recentes foram inspirados e alavancados pelas ciências da biologia, com enorme impacto noutras ciências e nas engenharias. Foram-se assim estabelecendo domínios transdisciplinares, desde engenharia biológica, engenharia biomédica, engenharia do ambiente, bioengenharia e biotecnologia a áreas mais específicas, como as da bioquímica, bioinformática, biomatemática, biofísica, biomecânica, biomateriais, bioeletricidade e biossinais, e bioeconomia. Essa convergência de saberes de biologia e de ciência e engenharia tem alavancado novas tecnologias que prometem soluções para algumas das necessidades prementes do nosso século, dos cuidados de saúde à energia, alimentação e clima.

Quem é hoje capaz de prever as profissões dos futuros engenheiros? Contudo, estas irão requerer os conhecimentos específicos não só das várias engenharias como de outras áreas do saber. A interdisciplinaridade é o grande motor para criar algo de novo, para a inovação, mas, para atingir o seu pleno, os seus agentes, de diferentes culturas, têm de partilhar uma mesma linguagem, conhecer o léxico. Neste entendimento, na maior escola de engenharia do país encontra-se hoje em curso o desenho e construção de um novo modelo de ensino, a ser implementado em breve, acompanhado de práticas pedagógicas que beneficiem a aprendizagem e melhor integração do futuro graduado na atividade profissional. Mantendo o nível de qualidade do ensino pelo qual o Instituto Superior Técnico é reconhecido, pretende-se aumentar a flexibilidade dos percursos académicos dos estudantes e mesmo oferecer conjuntos coerentes de disciplinas em áreas multidisciplinares com ensino interdepartamental, bem como uma formação humanística. Pela primeira vez, o Técnico, que há décadas oferece, com o maior sucesso, cursos de engenharia e tecnologia com uma componente biológica mais ou menos forte (em Engenharia Biológica, Engenharia Biomédica, Engenharia do Ambiente e Biotecnologia), admite agora que todas as novas licenciaturas em engenharia possam contemplar o ensino básico das ciências biológicas, a par da matemática, física e química. De notar que esse conjunto das quatro áreas é o equivalente a duas disciplinas normais. É, pois, possível que uma formação básica em biologia venha a ser preterida em vários cursos com base em constrangimentos e necessidades diversas.

A formação básica em biologia preconizada, a lecionar por um corpo docente interno muito experiente e com atividade científica de reputação nacional e internacional, tem como objetivo estratégico dotar os futuros graduados do Técnico de conhecimentos e competências muito abrangentes, importantíssimas na literacia em ciências da biologia moderna. O foco é colocado nos conceitos e mecanismos de funcionamento dos seres vivos, não no detalhe e aspetos descritivos, na sua visão holística baseada no genoma e na sensibilização para as suas diversas áreas de aplicação e atividade. Esta formação básica, que acrescenta valor à formação de qualquer engenheiro, garante os conhecimentos e a sensibilidade para interagir e atuar com maior sucesso em áreas mais vastas da indústria, serviços, saúde e ambiente.

Mas será que uma formação básica em biologia moderna faz falta ou interessa a estudantes de cursos de engenharia para os quais esta matéria não é nuclear? Onde estão os empregos? Responder a estas perguntas é fácil, embora seja impossível aqui cobrir tudo convenientemente no espaço disponível. Na verdade, a biologia tem vindo a adotar rapidamente ferramentas da engenharia, e a engenharia a implantar cada vez mais componentes da biologia. As estratégias avançadas da engenharia informática e de computadores tornaram-se essenciais à investigação em biologia para lidar com a explosão de dados resultantes de estudos de genómica, proteómica e sistemas biológicos complexos. Têm permitido gerar novas ideias sobre os processos de doença, seus fundamentos genéticos e novas estratégias terapêuticas. As empresas baseadas nas ciências da vida necessitam cada vez mais de abordagens quantitativas exigentes, também para o desenho e descoberta de novos fármacos. Estas tendências irão continuar e alimentar um conjunto de novas tecnologias para dar resposta a necessidades sociais prementes e que vão muito para além da área da saúde, nomeadamente o desenvolvimento de uma bioeconomia sustentável e circular que sirva a sociedade, o ambiente e a economia. Esse desenvolvimento é hoje considerado essencial e bem alinhado com os objetivos de agendas internacionais, entre elas a agenda das Nações Unidas e da Comissão Europeia, e uma ferramenta para mitigar as alterações climáticas.

A bioeconomia estabelece pontes entre a biotecnologia (o pilar da bioeconomia) e a economia, bem como entre a ciência, a indústria e a sociedade. É um paradigma emergente para o desenvolvimento e revitalização de sistemas económicos baseados no uso sustentável de recursos biológicos renováveis e para encontrar soluções para os desafios globais e locais que enfrentamos.

É estratégia da Comissão Europeia facilitar o desenvolvimento de novas biorrefinarias sustentáveis em toda a Europa, consideradas a pedra angular de uma bioeconomia, também para cumprir metas de energia renovável e emissões de gases com efeito de estufa. As biorrefinarias, por analogia com as refinarias de petróleo, são processos integrados de conversão de biomassa, em particular de resíduos da floresta e agroalimentares, para gerar produtos de base biológica, nomeadamente biocombustíveis e compostos químicos de base para a indústria e outros bioprodutos, com o objetivo de reduzir a dependência de recursos fósseis e implementar uma economia circular. A bioeconomia é também essencial para a produção de alimentos e outros bioprodutos de elevado valor, para a recuperação ambiental e de ecossistemas saudáveis e o aumento da biodiversidade. Sendo já muito significativos os valores da faturação e da força de trabalho na UE empregada na bioeconomia, antevê-se o seu rápido crescimento, com criação de novos mercados e de emprego. O investimento na investigação e educação nas áreas da bioeconomia é, pois, vital.

E, mesmo se esquecermos a visão essencialmente funcional e utilitária, há que dizer que o séc. xxi é considerado a era da biologia. Neste século continuaremos a assistir aos espantosos avanços científicos e tecnológicos com base nas ciências biológicas e à revelação de mais alguns dos segredos da vida. Acresce que hoje em dia se exige que as atividades e decisões dos engenheiros assentem também numa literacia em biologia, num conhecimento das atividades (micro)biológicas relevantes, da forma como elas podem afetar as nossas vidas, de como podem ser exploradas, ou controladas, em benefício da humanidade. Como ignorar tudo isto na formação dos futuros graduados em ciência e engenharia, também eles cidadãos do mundo?

Nesta época natalícia há que colocar no sapatinho da nova geração de engenheiros-não-bio uma formação básica em biologia moderna. É uma prenda para a vida!

 

Professora catedrática, coordenadora da área de Ciências Biológicas do IST e licenciada em Engenharia Química (IST) em 1975

Presidente da Sociedade Portuguesa de Microbiologia

 

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