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Benfica-Braga. Cavém e o guarda republicano na tarde de “Perrichão”

Benfica-Braga. Cavém e o guarda republicano na tarde de “Perrichão”

Afonso De Melo 18/12/2019 16:25

Hoje, pelas 20h45, o Benfica recebe o Braga para a Taça de Portugal. Em abril de 1966, depois de ter ganho por 3-1 na Luz, foi ao Minho perder por 1-4 num jogo que ficou para a história do futebol português. E o Braga festejou no Jamor.

Estava pouca gente naquela tarde de 10 de abril no Estádio 28 de Maio, em Braga. Vendo bem, o Benfica tinha vencido na Luz os bracarenses por 3-1, golos de Eusébio e José Torres, e não deixava margem para grandes esperanças, tal a qualidade da linha avançada dos encarnados. Ah! Mas a soberba, meus caros, a soberba pode arrasar o mais pintado dos artistas. E a soberba parece ter tocado com a sua varinha mágica destruidora no regressado Béla Guttmann, o homem que levara a águia a duas vitórias na Taça dos Campeões Europeus. Seria uma razia completa!

Campeonato perdido para o Sporting, uma derrota caseira dolorosíssima, em março, frente ao Manchester United (1-5), na noite abracadabrante de George Best – o mago tinha perdido o seu jeito de feiticeiro.

Quartos-de-final da Taça de Portugal. Nessa época, a Taça de Portugal jogou-se a duas mãos a partir dos oitavos-de-final. Benfica e Braga encontraram-se nos quartos. Ninguém adivinharia o que estava para acontecer. Ou, pelo menos, adivinhava-se o triunfo dos lisboetas, tão escassa foi a assistência de um jogo que ficaria para a história do futebol português.

Logo no primeiro minuto, o Benfica ameaçou, por Nélson. A malta olhava para o relvado e perguntava: onde está o Eusébio? O Eusébio, que dois meses mais tarde estaria a fazer furor nos estádios de Inglaterra, na fase final do campeonato do Mundo do nosso contentamento. Também não havia Simões. A equipa estava meio remendada. Coluna no centro com Augusto Silva. José Augusto e Torres na frente com Nélson e Serafim.

O ataque do Braga em força: Bino, Adão, Perrichon e Estêvão. Perrichon, o argentino de Córdoba, Miguel Ángel Perrichon Segóvia, que estivera sem grande proveito no Boavista. Argentino como o treinador: José Valle. Armando na baliza. E Sim-Sim, Juvenal, Coimbra, José Manuel, Canário e Luciano: belo team!

A peleja foi rija.

Canário sangrava da boca. Queixou-se de José Torres. Que tinha levado um murro. Pinto Ferreira, o árbitro, não ligou.

Trinta e quatro minutos: golo de Nélson.

A vantagem dos benfiquistas era cada vez maior.

A revolta! Revoltaram-se os minhotos, mas só na segunda parte. Ainda viram Augusto Silva acertar num poste.

Depois, sim. Quarenta e seis minutos e Cavém tira uma bola sobre a linha de golo. É o momento da rebelião. Adão empata aos 57. Os adeptos eram poucos, mas faziam-se ouvir.

Oito minutos mais tarde, Estêvão marca um canto, Adão aparece solto na área lisboeta e faz o 2-1. Renasce a esperança. O Braga está à distância de um simples golo para devolver o resultado do primeiro encontro. E ainda há muito para jogar.

Um salsifré interrompe a partida.

Cavém, o geralmente tranquilo Cavém, envolve-se numa discussão com um guarda republicano. Em 1966, os guardas republicanos eram donos de uma protérvia assinalável. Usavam e abusavam da autoridade. Não sei se foi o caso. Não há registos muito pormenorizados. Ficou a saber-se, mais tarde, que o guarda puxara dos galões e dera ordem de prisão a Cavém. Um laivo de bom senso impediu-o de levar de imediato o benfiquista para uma masmorra qualquer. Ou, pelo menos, para a esquadra mais próxima. Limitou-se a identificá-lo. Deu-lhe voz de prisão e prometeu consequências para o final dos 90 minutos.

Retoma-se a compita com o terceiro golo do Braga. Novo canto, desta vez Bino a ser deixado à vontadinha.

O Benfica sofre.

Os seus jogadores parecem perdidos.

Coluna ergue a voz e procura dar alento aos companheiros. Mas o ataque não tem força, está debilitado, sente a falta de Eusébio, quem não sentiria falta de Eusébio no fulgor dos seus 24 anos?!

Nélson faz os impossíveis para vestir a pele de Pantera Negra. Isola-se frente a Armando, o segundo do nome, dribla-o pela direita, chuta para a baliza vazia, a bola bate irritantemente no poste.

Irritantemente para os benfiquistas, claro está!

Entusiasmantemente para os de Braga.

Sentem que os deuses do futebol velam por eles nessa espécie de céu onde a bola é a mágica senhora das paixões. Correm como o vento. Melo, o substituto de Costa Pereira, salta de forma desajeitada a uma bola, larga-a para a frente, Perrichon aparece de supetão e cabeceia-a para o golo. 4-1!

Melo queixa-se. Reclamam os minhotos de que é fita. Nascimento entra para o seu lugar.

Faltam 15 minutos para o apito final.

O Benfica ataca em desespero.

Mas é atabalhoado o seu enorme porfiar. Torres e José Augusto esbarram na resistência forte de uma defesa plena de energia. É um momento único que os bracarenses não deixarão fugir.

Nas meias-finais, depois de dois empates a um golo, despacharão outro grande da capital, o Sporting, ganhando por 1-0 no desempate, mais um golo de Perrichon, que já fizera o gosto ao pé em Alvalade.

Perrichon, às vezes pronunciado Perrichão, à moda do Norte. No Jamor, golo ao Vitória de Setúbal: 1-0. A primeira Taça de Portugal para o Braga. A segunda demoraria 30 anos.

 

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