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Argélia. “Não há voto com a máfia”, cantaram em dia de eleições

Argélia. “Não há voto com a máfia”, cantaram em dia de eleições

AFP Filipe Teles 12/12/2019 20:11

Duas assembleias de voto foram saqueadas e houve confrontos com a polícia. Prevê-se uma taxa de abstenção massiva.  

 

Quando o voto não é uma opção viável, a população encontra outras maneiras de se fazer ouvir. Perante uma eleição que consideram injusta e corrupta, milhares de manifestantes argelinos marcharam nas ruas de Argel, capital da Argélia, para apelar ao boicote das eleições presidenciais desta quinta-feira. Houve confrontos com a polícia em dia de voto. 

“Não há voto hoje. Queremos liberdade!”, cantavam intensamente os manifestantes. “Não há voto com a máfia”. Prevendo uma onda de indignação e de apelo ao boicote eleitoral, as autoridades da Argélia destacaram a polícia antimotim para bloquear o acesso à praça Maurice Audin, palco dos protestos no país, que já decorrem à meses. E o provável aconteceu: houve confrontos breves entre as autoridades e os manifestantes na capital e dezenas de detenções.    

Pelas 15h (14h em Portugal continental), o observatório eleitoral independente na Argélia contabilizou uma afluência às urnas de apenas 20% dos 24,5 milhões de argelinos elegíveis para votar - as urnas fecharam às 18h. A abstenção em massa é vista como uma vitória para os manifestantes, deslegitimando o ato eleitoral.

Enquanto decorriam os protestos, imagens da cidade portuária de Bejaia mostravam manifestantes nas assembleias de voto a pegar nos boletins de voto e a rasgá-los, segundo a Al Jazira. Aliás, na região de Cabília, duas assembleias de voto foram saqueadas, segundo a AFP

Os protestos na Argélia começaram em fevereiro deste ano, obrigando o antigo Presidente Abdelaziz Bouteflika a demitir-se depois de duas décadas a controlar o país com mão de ferro.

Mas isso não foi o suficiente para o movimento de protesto - denominado como Hirak - contra o establishment argelino, um misto de elites militares, políticas e empresariais da antiga colónia francesa. O Hirak quer ir mais longe do que a simples troca de figuras na presidência, por isso exige o desmantelamento do sistema que controla o país desde que este ganhou a independência de França, em 1962. 

“As eleições não têm qualquer legitimidade, parecem mais um espetáculo de comédia do que qualquer outra coisa. Queremos uma transição com pessoas que não tenham ligações ao antigo regime”, disse ao Guardian Yasmine Bouchene, membro do coletivo Les Jeunes Engagés.

Perante a intensidade e resiliência dos protestos, os militares foram obrigados a sair das sombras e a tomar um papel mais ativo e transparente na política do país. O tenente-general Ahmed Gaid Salah, que emergiu como o líder de facto após a saída de Bouteflika, sustentou que a realização de eleições era a única forma de romper com o impasse político do país. Ou seja, que a ida às urnas seria um instrumento para enfraquecer o movimento de oposição e, em parte,  uma forma de os militares voltarem para as sombras do poder, onde podem exercer maior influência sem escrutínio. Inicialmente, as eleições estavam convocadas para junho, mas foram canceladas por falta de candidatos. 

Agora, os cinco candidatos que concorrem às presidenciais foram, a certa altura, aliados do regime de Bouteflika. “Nenhum dos cinco candidatos pode esperar ser considerado legítimo”, explicou Anthony Skinner, diretor de análise de risco da empresa Verisk Maplecroft, ao Guardian.

“O [movimento] Hirak permaneceu intencionalmente sem líderes, uma escolha compreensível para se proteger contra a interferência e retaliação do regime, que enfraqueceram os movimentos de oposição anteriores”, disse ao Washington Post Zine Labidine Ghebouli, uma académica da Universidade Americana de Beirut, no Líbano. “Mas a capacidade comprovada do [movimento] Hirak de reclamar espaços públicos, de permanecer unido e de exercer pressão sobre o sistema sugere que é forte o suficiente para evitar intimidação do regime”. 

Os protestos foram desencadeados depois de Bouteflika, 82 anos, ter anunciado que iria concorrer a um quinto mandato. Até ao fecho desta edição ainda não eram conhecidos os resultados preliminares (conhecidos às 23h). Ao contrário das outras eleições presidenciais no país, não há um candidato favorito claro. Ali Benflis, antigo aliado de Bouteflika, que se tornou seu rival, e Abdelmadjid Tebboune, que foi primeiro-ministro do antigo chefe de Estado, são os favoritos.

Caso um candidato atinja a maioria absoluta, será eleito Presidente. Não acontecendo, haverá uma segunda volta entre os dois candidatos mais votados.

 

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