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A senhora Dam

A senhora Dam

Infografia Óscar Rocha Nuno Parente 11/12/2019 09:56

Nuno Parente, médico de família na Maia, escreve sobre a relação entre médico e doente, vista a partir da intimidade de uma visita domiciliária.

A recompensa que nos traz a medicina geral e familiar vem do reconhecimento do médico como alguém que é íntimo e merecedor da total confiança de um doente. Sir William Osler, em 1904, brindou-nos com a arrepiante afirmação: “It is much more important to know what sort of patient has a disease than what sort of disease a patient has”. Este ideal de humanização é cada vez mais longínquo na prática atual. A informatização, a degradação das condições de trabalho e o descrédito na comunidade médica traduzem-se num afastamento progressivo entre o médico e o doente. A humanização no cuidado médico é, nos limites palpáveis da própria definição linguística, a possibilidade de tornar humano, de ser mais compreensível e sociável. É ter o dom da transfiguração e, por breves momentos, ocupar a mente e o corpo da pessoa que estamos a tratar, assumindo todas as suas ideologias, emoções e propósitos.

Recentemente, numa experiência profissional na Holanda, pelos verdejantes canais, consegui transportar-me e “invadir” o ambiente interior de uma pessoa numa fase difícil em relação à sua saúde. Este texto, com ligeiro travo de fantasia, é verídico e tem como objetivo demonstrar o poder de uma visita domiciliária, personalizada, no suporte da fragilidade induzida pela doença.

Os motivos e pedidos da visita domiciliária eram decididos previamente em reunião de serviço e organizados pelo médico responsável pelo utente. Foi já no carro que me apercebi do seu nome, senhora Dam. Mal tocaram nas arredondezas da história, o peso do fardo da desesperança tornou-se inexoravelmente imenso. Fiquei assoberbado com a reviravolta que a vida pode conter no seu âmago, pronta a disparar a qualquer momento, em qualquer lugar, sem olhar a potenciais ferimentos.

Fomos recebidos pelo seu pastor alemão no jardim lateral da casa, com alguns latidos abafados. Olhando retrospetivamente para o encontro, consigo ler no cruzamento com os olhos do cão um sentido de proteção pela dona, feroz e voraz, mas que é conjugado com uma autêntica e trabalhosa paz. Na altura, praticamente não se mexeu e limitou-se a seguir-nos com o focinho como quem interpela: “Podeis caminhar livremente. Confortai-a, por favor”.

Recordo-vos que era a primeira vez que contactava com a senhora Dam. Quando nos abriu a porta, pertencente à garagem da selva de bicicletas, pareceu-me afável, não excessivamente expressiva, e tranquila. Não podia estar mais errado. Arrisco-me a relatar que esta foi, provavelmente, a visita domiciliária mais fantástica em que participei. E, para além disso, a minha primeira obra de realização cinematográfica imaginária.

A casa era quente, de paredes brancas e altas, o chão em tom escuro, e sofás de toque confortável. A senhora Dam convidou a Danile a sentar-se ao lado dela e a mim no outro sofá, mais longe, onde estavam umas peças de roupa já organizadas e simetricamente dobradas. Exatamente, é isso, estava montado o meu plano. Eu com olhar posto nas duas atrizes, frente a frente, a lidarem com os espigões de notícias que não são claras boas-novas.

Quase me esquecia, peço desculpa. A senhora Dam era sexagenária, alta, de cabelo curto, liso, penteado e branco, com olhos cor de gelo azul e esguia. Relembro-vos também que me foquei em duas atrizes falantes da língua holandesa, derivada do alemão, da qual consigo captar uma palavra a cada 20 frases. Portanto, como é percetível, este quadro que montei baseou-se no mais puro trabalho do teatro físico, gestualmente rico e expressivo. A senhora Dam estava tudo menos calma. Ao contrário do seu cão de guarda, gesticulava com os braços em ciclos alternados de flexão e extensão, arqueando sobrancelhas e defendendo-se de mais injúrias quando adotava o comum encerrar de braços no peito, numa cruz perfeita e intransponível.

Momentos à frente demonstrou querer ouvir a opinião da sua médica, inclinando-se para a frente, esbugalhando os olhos, como quem deseja o impossível, algo que se possa agarrar quando do fundo do poço não vemos nem um pirilampo aceso. Intercalava estes episódios de escuta com movimentos rotativos da cabeça, denunciando indignação e negação para com o que se passava. Ainda teve tempo e sensibilidade de me perguntar, através da Danile, se não estaria enfadado por toda a conversa. Respondi-lhe, evidentemente, que não – e que era um gosto ouvi-la.

Esboçou um fácies de alegria circunscrita, ténue. Bufava, por instantes curtos, e os seus olhos, gelados, rodavam para cima à procura de respostas que não encontrava, nem na solene figura confiável à sua frente, e por cinco segundos pararam e sincronizaram-se com os da sua médica. Foi naquele instante, pétreo, que começaram a fundir-se. Brilhavam e refletiam o branco ofuscado pela sua íris palpitante, mas as lágrimas não tiveram força para transbordar. De alguma forma, a senhora Dam, tida como pilar forte e resiliente da sua família, não quebrou. Senti calafrios e tremi. Aquele momento despedaçou-me sem estar sequer a par de cinco por centro da história. Esta visita colocou-me num papel terciário, passivo e de observação.

Testemunhei em primeira fila o quão especial é a comunicação não verbal e como é fascinante perceber uma conversa de longos minutos, sem entrar no diálogo, só pela expressão e linguagem corporal. A senhora Dam tinha desabafado, segundo algum trabalho esforçado de tradução da Danile, sobre fenómenos de atribuição de “culpa”. A fase da raiva e negação andam claramente de mãos dadas e é comum tentar aliviar o sofrimento inerente de catástrofe com a deslocação de causalidades. Ora porque é uma consequência de uma má ação do passado, ora porque pode ter havido algum erro médico ou até um apagamento da linha que separa o céu da terra. Independentemente da razão, que não é racional, ter sido descoberta ou não, creio que a senhora Dam saiu mais esclarecida e na saída chegou até a esboçar uns sorrisos. Aqueles acenos afirmativos finais quiseram delinear um plano na sua cabeça e estabelecer metas a percorrer.

Afinal, estava agitada. Afinal, era expressiva. Parece que o meu primeiro juízo acertou na amabilidade. Espero que encontre algum porto no meio da tenebrosa tempestade.

Esta visita domiciliária teve uma única finalidade: amparar. O médico de família tem este processo singular de consulta em que pode e deve assumir uma posição mais próxima e sentar-se no sofá, lado a lado. Num momento de desorientação como o da senhora Dam, em que é comum perder-se o tato nas interações mais banais e só o simples erguer-se da cama é pesado, a presença da figura responsável pela sua saúde permite tentar (re)concentrar energias no objetivo pensado a dois. A moldura que conjuga as dimensões física, psicológica, social, cultural e até existencial de um ser humano estava, neste caso, minuciosamente desfeita. Foi primordial discutir potenciais efeitos adversos de tratamentos, medos inerentes a evoluções inesperadamente negativas, relações afetivas inabaláveis e fé. Um dos papéis do médico de família é acompanhar, longitudinalmente, os seus doentes em todas as etapas da vida, conforme as suas necessidades o expressem. Esta era uma dessas etapas. A interiorização de um diagnóstico pronunciado com A palavra que ninguém quer ouvir da boca de nenhum médico. Há medo só nessa palavra. Tentámos proteger a queda da senhora Dam e retirá-la do escuro por breves instantes para que entendesse a sua própria vontade de continuar a construir. Desejava sair da garagem na sua bicicleta a toda a velocidade, acompanhada pelo marido, o seu braço-direito ou “os dois braços”, como dizia, e andar, andar automaticamente, sem suspiros trovejantes ou noções cinzentas a pairar no juízo, até vislumbrar os seus netos, a sua paixão mais jovem.

Aqui aprendi a ler o movimento. Ser médico de família e assistir empaticamente não implica procedimentos de maquinaria complexa. É do mais elementar no comportamento humano e deve ser cultivado. Os computadores, os números e cronómetros, bichos de circuitos emaranhados, retiram-nos a afabilidade e sugam-nos a inteligência emocional. O futuro passa pelo circuito primário, o da humanização, honesto e natural.

 

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