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Doping. Rússia banida dos JO e Mundial: o que implica o castigo?

Doping. Rússia banida dos JO e Mundial: o que implica o castigo?

AFP Laura Ramires 10/12/2019 17:49

Rússia castigada com 4 anos de suspensão de todos os eventos desportivos globais, entre eles Tóquio 2020 e Mundial 2022. Presença no próximo Euro, em que Sampetersburgo é uma das cidades-sede da prova, não está em causa. 
 

A Rússia não poderá marcar presença em qualquer evento desportivo global até 2023. Foi este o castigo aplicado ontem, em Lausana, na Suíça, pelo comité da Agência Mundial Antidopagem (AMA). Trata-se do mais recente capítulo no escândalo de doping que tem envolvido o país, que está já desde 2015 sem competir no atletismo. 

Em causa estão as questões de doping levadas a cabo com o apoio estatal nos últimos seis anos - com participação ativa do ministro dos Desportos e dos serviços secretos -, que envolvem manipulação de amostras.

O esquema, descrito num relatório tornado público em 2016, elaborado pelo professor canadiano Richard McLaren, terá abrangido vários eventos, entre eles os Jogos Olímpicos de Londres 2012 e Sochi 2014 (inverno), as Universíadas e os Mundiais de atletismo de 2013.

Na teoria, o castigo, aplicado por “unanimidade”, como explicou o porta-voz da AMA, faz com que a Rússia falhe os Jogos Olímpicos (JO) de verão, em Tóquio, em 2020; os JO de inverno, com palco em Pequim, em 2022; e os campeonatos do Mundo durante este prazo - incluindo o de futebol, a realizar no Catar, em 2022.

Já na prática, o cenário poderá não ser bem este. É praticamente certo que a bandeira russa não será hasteada nas referidas competições, mas o castigo prevê a possibilidade de os atletas competirem sob bandeira neutra caso provem que não estão envolvidos nos programas de doping ou que as suas amostras não foram falsificadas. 

 De acordo com a AMA, “os atletas que quiserem participar em Jogos Olímpicos ou Paraolímpicos, ou em qualquer outro evento abrangido pela decisão, terão de provar que não estão envolvidos nos programas de doping descritos no relatório McLaren, ou que as suas amostras não foram falsificadas”.

Anteriormente Por exemplo, em 2016, quando a polémica rebentou, o Comité Olímpico Internacional (COI) colocou nas mãos das federações de modalidade a decisão de autorizar os atletas a participar nos Jogos do Rio 2016, embora como independentes. Já o Comité Paraolímpico Internacional (CPI) foi mais longe e proibiu a presença do país nos Jogos Paraolímpicos brasileiros. Mais tarde, nos JO de inverno de 2018, o país foi sancionado pelo COI e não foi autorizado a participar no evento, disputado em PyeongChang, já no seguimento do processo por manipulação de amostras de doping levantado às autoridades russas. A mais recente decisão, tomada pela AMA, é ainda passível de recurso para o Tribunal Arbitral do Desporto (TAS), num prazo de 21 dias.

Todavia, na perspetiva do presidente da agência russa antidopagem, Iouri Ganous, o país não tem “nenhuma hipótese” de ganhar caso venha a recorrer da exclusão - uma decisão que o dirigente considerou ser uma “tragédia” para os desportistas honestos.

Castigo não implica Europeu De notar que a sanção ontem aplicada não tem, porém, qualquer interferência com a presença da Rússia (já apurada) no próximo Europeu de futebol, uma vez que a UEFA não integra a lista de entidades “organizadoras de grandes competições” no que respeita às decisões sobre as violações das normas antidopagem.

A Rússia será, aliás, uma das 12 anfitriãs da prova, com a cidade de Sampetersburgo a acolher três jogos da fase de grupos, bem como um jogo dos quartos-de-final. A mesma cidade vai ainda receber a final da Liga dos Campeões em 2021, prova que também se encontra sob a chancela do organismo que tutela o futebol europeu. 

 

“Histeria  anti-Rússia”, decisão corajosa  ou “golpe” contra atletas limpos? 

“Isto é uma continuação da histeria anti-Rússia que já se tornou numa condição crónica”, sumarizou o primeiro-ministro da Rússia, Dimitri Dmitry Medvedev, em resposta à proibição de o seu país de todos os eventos desportivos globais nos próximos quatro anos. O motivo foi a conclusão da Agência Mundial Antidopagem (AMA) de que tinha havido manipulação dos rastreios antidopagem pelo Estado. Apesar de Moscovo continuar a negar, para muitos o escândalo é demasiado grande para olhar para outro lado. “Recebemos o que merecemos”, considerou Alexander Tikhonov, quatro vezes campeão olímpico de biatlo, em declarações ao Moscow Times.

“Havia dopagem sistematizada na Rússia, não tenho dúvidas sobre o assunto”, declarou ao jornal russo Evgeniy Kafelinkov, campeão olímpico de ténis, que lamentou: “Ninguém se quer responsabilizar por isto. No final, tudo caiu sobre os pobres atletas”. Apesar das preocupações, a AMA tomou precauções para tirar algum do peso da sua decisão sobre os atletas russos: os que conseguirem provar não estar ligados ao escândalo de doping poderão competir sob uma bandeira neutra. Algo criticado pelo líder da Agência Antidopagem dos Estados Unidos, Travis Tygart, que tem exigido que todos os atletas russos fossem banidos das competições.

Seria a única maneira de “tranquilizar os atletas, o público e continuar a tarefa de obter justiça para aqueles enganados por atletas russos”, garantiu Tygart. O líder da Agência Antidopagem dos EUA descreveu a decisão como um “golpe devastador” para os atletas limpos. enquanto a televisão estatal russa RT sugeriu que por detrás da sanção esteja a mão de Washington, escrevendo: “Talvez não surpreendentemente, um dos grandes campeões de medidas duras contra a Rússia foi Travis Tygart”.

Já o presidente da Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP), Manuel Brito, qualificou a exclusão da Rússia como um ato de coragem, em declarações à Antena 1, considerando fundamental que os atletas russos limpos de doping possam continuar a competir.

 

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