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Milan Kundera recupera a cidadania checa ao fim de 40 anos

Milan Kundera recupera a cidadania checa ao fim de 40 anos

Diogo Vaz Pinto 10/12/2019 14:31

«Não tenho em mim o sonho de um regresso», disse certa vez vez Kundera. Chegou a descrever o seu país como uma «terra de interrogatórios e vigilância», e, se em 1981 obteve a nacionalidade francesa, também há muitos anos passou a escrever directamente em francês as suas obras.

Os governos caem, os regimes estilhaçam-se, mas a paisagem desolada que deixam ainda rasga a carne de gerações décadas depois. Chega, por fim, o dia em que os grandes imperativos, as mais implacáveis orientações políticas acabam expostas como uma mera urdidura mesquinha. Como Flaubert terá escrito certa vez, «os monstros foram os meus professores de História». Assim, Milan Kundera, o mais importante escritor checo depois de Kafka, teve de esperar 40 anos para que a cidadania do país lhe fosse devolvida. E foi-lhe pedido perdão. Num acto nada enfático, dispensando o cerimonial, o autor de 90 anos, recebeu na sua casa, em Paris, o embaixador da República Checa em Paris, Petr Drulák, que lhe pediu desculpa, em nome do governo checo, pelas perseguições e campanhas de difamação de que foi alvo durante anos.

Kundera vive desde 1975 em França, com a mulher, Vera Hrabankov. Deixou a Checoslováquia sete anos após a invasão soviética que pôs fim à chamada Primavera de Praga e cerca de 15 anos antes da Revolução de Veludo  que pôs fim à agonia do regime comunista. Em 1979, depois de ter publicado O Livro do Riso e do Esquecimento, em que uma vez mais escarnecia do regime que o havia já expulsado do país e proibido a publicação dos seus livros,  só restava às autoridades soviéticas retirarem-lhe a cidadania. O autor do celebrado romance A Insustentável Leveza do Ser nunca foi de se queixar, nem deu sinal  de ter sentido o sufoco do exílio, mas é evidente em tantos dos seus romances como a experiência da invisibilidade o marcou.

«Não tenho em mim o sonho de um regresso», disse certa vez numa entrevista ao semanário alemão Die Zeit. «Trouxe de lá a minha Praga; o cheiro, o gosto, a língua, a paisagem, a cultura.» De resto, não falava do país que deixou como se tivesse perdido muito. Descreveu-o como uma «terra de interrogatórios e vigilância», e, se em 1981 obteve a nacionalidade francesa, também há muitos anos Kundera passou a escrever directamente em francês as suas obras. Neste sentido, ainda que perdoe o seu país, a perda para a língua checa é incalculável. Só na década de 1990 os seus livros começaram a ser publicados naquele país, mas foi preciso esperar por 2006 para que os checos pudessem ler A Insustentável Leveza do Ser.

Consciente de que «as palavras contaminadas contaminam a realidade como uma epidemia», logo nos seus primeiros romances, A Brincadeira (1967) e A Vida Não É Aqui (1969) Kundera desmascarou «o totalitarismo terrorista latente no cinismo irresponsável», como notou Claudio Magris. Assim, a cidadania que lhe é agora devolvida é como uma última ironia, mesmo se o embaixador checo fez questão de dizer à televisão pública francesa que, apesar da cerimónia ter sido simples e a atitude do escritor não mais do que «cordial», o gesto revestia-se de uma grande importância simbólica. Drulák garantiu que o romancista ficou «encantado» com o gesto e que ele mantinha «um forte sentido da identidade checa». Kundera não quis fazer qualquer comentário. A ideia de lhe devolver a cidadania partiu do primeiro-ministro checo, Andrej Babis, que se encontrou com o escritor no ano passado, em Paris.

Depois de, em 2008, Kundera se ter visto puxado de volta para uma polémica – sendo acusado de ter colaborado com a polícia secreta, denunciando, em março de 1950, um amigo e dissidente do antigo regime pró-soviético da Checoslováquia que desapareceu por vários anos num campo de trabalhos forçados –, o escritor optou por não mais falar sobre o passado. Na altura, a veracidade de um documento da polícia secreta que foi usado para levantar as suspeitas contra Kundera foi posta em causa, desde logo porque este não estava assinado pelo escritor. Em reacção à polémica, vários escritores, entre eles quatro prémios Nobel da Literatura (J.M. Coetzee, Gabriel Garcia Marquez, Nadine Gordimer e Orhan Pamuk), assinaram petições de apoio a Kundera, denunciando aquela campanha orquestrada no sentido «de manchar a honra de um dos maiores romancistas vivos». Kundera mostrou-se perplexo com a as notícias da sua alegada delação, e a uma agência de notícias checa  falou da sua surpresa diante de uma coisa de que «até ontem, nada sabia; uma coisa que simplesmente nunca aconteceu». Assim, a relação com o seu país manteve-se tensa, mas é sabido que, antes como depois, não deixou de visitá-lo, mas fazia-o incógnito.

Há muito que Kundera se tornou uma figura bastante reclusa, desligado do lado mundano da vida literária, e, mesmo as entrevistas que muito raramente deu ao longo dos anos, insistiu sempre que fossem feitas por escrito.  Depois de 13 anos sem publicar ficção, em 2014 chegou às livrarias aquele que pode bem ser o seu último romance: A Festa da Insignificância. E nele, o escritor deixa claro que a era soviética é uma página que não lhe foi possível virar, e mesmo se o riso é a sua arma de eleição, este não disfarça o lado trágico, e traça até um vínculo entre a violência e o estupor do século XX e a deriva inócua que caracteriza este, com a sua marcha de um progresso desesperado. Existências esvaziadas de sentido, uma realidade em que mesmo o pior pesadelo se abate sobre nós como uma frivolidade. E assim, um dos personagens, profere a frase que, como notou Diane Johnson no New York Times, pode servir como epígrafe de toda a obra: «Há muito tempo que nos demos conta que não há maneira de mudar o mundo, transformá-lo, nem travar a sua desenfreada corrida. Só nos tem restado uma possibilidade de resistência: não o levarmos a sério». Mas se a comédia traz algum alívio, mais à frente o mesmo personagem diz isto: «Parece-me que as nossas piadas estão a perder o seu efeito.» E se a sensação do fim do mundo é antiga, como Kundera reconheceu numa conversa com Philip Roth, talvez o pior nos nossos dias seja o facto de até o riso estar a perder o efeito. Quando e rir e chorar deixarem de se distinguir, talvez isso seja já um degradado submundo, um inferno a que fomos levados pela indistinção das nossas emoções.
 

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