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Cristóvão Norte 09/12/2019
Cristóvão Norte
Opiião

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A ministra “lelé da cuca”?

É impossível que a confiança no SNS não se perca. É mais que razoável que mesmo os mais desvalidos façam das tripas coração e desatem a subscrever seguros de saúde.

O Serviço Nacional de Saúde está em rutura em muitos pontos do país. As notícias tristes não param de jorrar, cada vez mais a regra, o novo normal. Quase temos de fugir delas. Não há dia que não faltem medicamentos para doentes crónicos, listas de espera que batem recordes de desumanidade, escalas que não são preenchidas, doentes com cancro que morrem sem ter acesso a terapêutica adequada, médicos que batem com a porta ou funcionários de centros de saúde que se quotizam para adquirir itens necessários para o atendimento. E este arrazoado nem se refere a todo o país, é apenas uma compilação de publicações a respeito do Algarve nas últimas duas semanas!

É impossível que a confiança no SNS não se perca. É mais que razoável que mesmo os mais desvalidos façam das tripas coração e desatem a subscrever seguros de saúde. Pois claro, sem consultas ou cirurgias, com o caos em tantas urgências, uma saúde sem hora e sem dignidade, fogem desesperados para as mãos dos privados. Quem não tem dinheiro resiste, sem alternativa; idosos, sozinhos, sofrem em silêncio, perante um SNS que não lhes dá resposta nem esperança e que os engana.

Para quem não há problemas, não é necessário encontrar-se solução. Vem isto a propósito das observações da ministra da Saúde, Marta Temido, de que não faltam médicos no Algarve, uma das mais absurdas abordagens que ouvi sobre uma região que sofre um problema crónico e estrutural, uma hemorragia que não tem travão, marcada por escassez de médicos, a qual só tem paralelo no Alentejo, mais aguda ainda se apenas estivermos a contar com o sistema público. As pessoas estão ofendidas e indignadas. É como se lhes negassem o que lhes entra pelos olhos dentro todos os dias, o que já sofreram ou o que familiares viveram. E nem salva a ministra poder arguir, se disto vier oportunamente a lembrar-se, que estava a referir-se apenas ao serviço de urgências em Faro, uma urgência polivalente, pois essa ainda está mais desfalcada. Fim de semana de 7 e 8 de dezembro, para memória futura: inexistência de urgência de neurologia e oftalmologia; períodos, como é habitual, de inexistência de urgência de ortopedia e de ORL; escalas incompletas na cirurgia. Pior: não há autorização para contratar médicos para o quadro, preferindo-se o aumento brutal – em todo o país, com ênfase particular no Algarve – do recurso a tarefeiros, mais dispendiosos, mais bem remunerados do que os médicos do SNS, porém, sem lógica de grupo ou acompanhamento dos doentes, menos eficientes e que apenas deveriam ser chamados para situações excecionais.

No Algarve, o desespero tomou conta de muitos. Os cirurgiões censuram não terem acesso a bloco operatório em tempo útil ou a exames complementares de diagnóstico. Por isso, a degradação de condições – para a qual mais que uma vez já chamaram a atenção – leva-os a declinar responsabilidades para o futuro, prostrados perante a absoluta omissão e a gritante falta de orientação da tutela para, como diz, e bem, o bastonário da Ordem dos Médicos, elevar o Algarve a prioridade de intervenção na saúde.

A Entidade Reguladora da Saúde emanou uma diretriz, após queixa, a respeito do Algarve, na qual se pode ler que é provável que estejam doentes com cancro, já diagnosticados, sem acesso às terapêuticas adequadas por intoleráveis atrasos nos resultados de análises, tal como sucedeu nos primeiros meses do ano, num número indeterminado de situações. São atrasos tão aviltantes que se registaram ocasiões em que os doentes vieram a falecer sem ter sequer acesso aos resultados das análises, menos ainda à terapêutica que lhes poderia ser ajustada. Que se fez? De quem são as responsabilidades? O que se corrigiu? Coloquei a questão à ministra no Parlamento, e nem direito a resposta.

O Governo sabe tudo isto. Não pode ignorar, sem sobressalto e sem revolta. Não pode não se sentir impelido a agir. Isso seria aceitar o lento caminho para a crueldade, para a vergonha, para a desumanidade.

Deputado

 

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