20/9/20
 
 
António Luís Marinho 06/12/2019
António Luís Marinho
cronista

opiniao@newsplex.pt

A confirmação populista do Chega

A tal combinação de demagogia com conversa de café, característica dos populistas, é tão ameaçadora quanto contagiosa.

“O líder populista assume-se como a voz do povo, representando os interesses dos cidadãos contra a elite corrupta”

Cas Mudde

Durante cerca de sete minutos, o líder do Chega, André Ventura, atacou no Parlamento, na passada quarta-feira, todo o sistema político vigente, num discurso que é um verdadeiro manual de populismo.

Já se percebeu que André Ventura é um caso político que não pode ser desvalorizado, e muito menos ignorado.

O deputado tem escolhido criteriosamente grupos onde pretende recolher apoios, tendo começado pelas forças de segurança, seguindo-se agora os professores.

Pelo meio, ataca indiscriminadamente os representantes do “sistema”, Presidente da República, Governo e a própria Assembleia da República, de que faz parte, mas de onde se exclui.

Para ele, há o “povo lá de fora”, com o qual se identifica e que promete defender, que vive uma realidade completamente distinta dos assuntos que são debatidos no Parlamento. Usando os exemplos da hipermediatizada chegada da ativista Greta Thunberg, ou falando da proposta de um voto de congratulação, apresentado pelo PAN, “pelo fim da utilização de elefantes para passeios turísticos no Camboja a partir de 2020”, o líder do Chega criticou fortemente o Parlamento que, afirmou, “virou costas aos portugueses, esqueceu quem nos paga o salário ao fim do mês. Passou a viver apenas para dentro, a discutir tudo menos o que interessa aos cidadãos”.

Este tipo de discurso, a tal combinação de demagogia com conversa de café, característico dos populistas, é, no entanto, na perspetiva do politólogo grego Takis Pappas, “tão ameaçador quanto contagioso”, uma vez que pode arrastar outros partidos na mesma direção.

Apresentando raramente soluções, este discurso pretende congregar uma massa que se pretende homogénea - “a população pura”, contra a “elite corrupta”, segundo o cientista político holandês Cas Mudde.

No livro O que É o Populismo, o politólogo alemão Jan-Werner Müller conclui:

“Os populistas devem ser criticados pelo que são - um verdadeiro perigo para a democracia, e não apenas para o liberalismo. Mas isso não significa que não se deva entabular com eles um debate político. Falar com os populistas não é o mesmo que falar como os populistas. Podem tomar-se a sério os problemas que levantam, sem aceitar as maneiras como enquadram os problemas”.

Até agora, na Assembleia da República, a resposta ao Chega tem sido um ensurdecedor silêncio. 

Jornalista

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