23/1/20
 
 
Carlos Zorrinho 05/12/2019
Carlos Zorrinho
opiniao

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Democracia e desinformação

É preciso travar um combate global pela defesa da democracia europeia, com a mesma eficácia de quem tenta condicionar-nos, mas sem usar os mesmos instrumentos.

Num mundo em mudança, como acontece desde tempos imemoriais, nada pode ser dado por adquirido. As sociedades humanas evoluem e as suas maneiras de viver em conjunto também. A democracia é um dos marcos mais importantes na evolução da capacidade de organização política das sociedades, conjugando a vontade dos indivíduos com o bem comum. Os seus princípios fazem parte da matriz genética dos valores da União Europeia (UE) e, embora por vezes aplicados de forma enevoada e pouco transparente, esses princípios são fatores diferenciadores centrais do projeto europeu e da sua identidade.

Desde há mais de 60 anos, em resposta à tragédia das grandes guerras e do confronto das narrativas belicistas que fraturaram a Europa, que a UE tem lutado arduamente pela preservação da democracia no seu território e fora dele, e embora com obstáculos crescentes, continua a ser uma referência global de humanismo, do Estado de direito, da liberdade de expressão e da capacidade de livre escolha política. A democracia na Europa e no mundo está hoje confrontada com novos desafios, difusos, disseminados pela torrente cada vez mais forte de informação, verdadeira ou manipulada, indutora de emoções e de contextos de opção que influenciam os resultados e as escolhas dos eleitores, a partir de territórios virtuais não delimitados pelas fronteiras físicas.

Ciente disso, o Parlamento Europeu realizou recentemente um debate sobre as interferências estrangeiras nas escolhas democráticas na UE. Não é apenas a UE que é vítima dessas práticas, mas é talvez, como sociedade aberta e plural, a mais exposta. A conclusão do debate não foi surpreendente. É preciso travar um combate global pela defesa da democracia europeia, com a mesma eficácia de quem tenta condicionar-nos, mas sem usar os mesmos instrumentos. Temos armas para esse combate, como a literacia digital generalizada e o acesso universal à internet ou a aplicação dos valores partilhados como embrião de uma identidade digital europeia. O aprofundamento de um código ético interno e incluído nas nossas parcerias internacionais faz também mais sentido do que nunca.

Mas ao refletir e agir sobre as ameaças externas à democracia europeia, não devemos fechar os olhos às ameaças internas. Em Portugal, numa luta legítima mas desenfreada pelas audiências, os três novos deputados eleitos pelos partidos recém-chegados à Assembleia da República, e que matematicamente são pouco mais de 1% da câmara, têm sido protagonistas ou objeto de mais de 50% (estimativa empírica e conservadora) do debate político nos média em Portugal, quase sempre centrado sobre a forma e muito pouco sobre a substância. Não é correto classificar este facto como informação manipulada, mas ele conforma um sintoma agudo de realidade distorcida, com consequências na perceção que os cidadãos têm do funcionamento do sistema democrático. O novo contexto mediático induzido pela revolução digital é imparável, mas os valores e os princípios não devem ser negociáveis. Se estamos perante um cenário de sobreinformação que gera desinformação, cuidemos para que ela se fique pela forma e para que a democracia continue a ser a guardiã dos princípios que nos garantiram décadas de paz e prosperidade relativa.

 

Eurodeputado

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