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Jeff Kinney. “Não estou a tentar moralizar crianças ou a ensinar lições”

Jeff Kinney. “Não estou a tentar moralizar crianças ou a ensinar lições”

Mafalda Gomes Hugo Geada 03/12/2019 23:16

Em 2009, a Time considerou-o uma das pessoas mais influentes do mundo por incentivar as novas gerações a ler. O autor de O Diário de um Banana veio a Portugal apresentar o 14.º volume da série e explicou ao i como continua a inovar.

Quando foi a primeira vez que pensou em escrever sobre esta personagem?

Tudo começou em 1998. Passei alguns anos a tentar ser cartoonista em jornais, mas não estava a conseguir. Então decidi escrever os meus cartoons no formato de um diário e tive logo a ideia para o título, O Diário de um Banana. Acabei por fazer uma versão mais longa das tiras de banda desenhada. Demorei oito anos a escrever a primeira versão.

 

Qual foi a maior diferença que encontrou entre escrever um livro com uma narrativa longa e escrever em tiras de banda desenhada?

Existem semelhanças: tem de criar piadas, punchlines, e tem a componente visual. A diferença está na liberdade e no espaço para respirar que este formato oferece. Na banda desenhada está limitado por painéis; o livro está apenas limitado pela sua capa, tem um recreio maior para brincar.

 

Este é o seu 14.º livro. Como faz para manter o seu material fresco e os leitores interessados?

Em cada livro tento sempre explorar um aspeto da minha infância que nunca tenha retratado. Por exemplo, este [O Diário de um Banana: De-mo-li-ção] fala sobre obras em casa e sobre mudanças, algo que ainda não tinha abordado na minha escrita. Procuro sempre uma área nova e fértil e acho que tenho conseguido fazer isso nos meus últimos trabalhos.

 

Sente que à medida que vai envelhecendo e se vai afastando da sua infância se torna mais complicado arranjar material para se inspirar?

Nem por isso. Nos primeiros quatro ou cinco livros inspirei-me nas minhas memórias e experiências, mas agora uso mais a minha imaginação. Não é que ache que a minha idade tenha um efeito negativo na escrita, mas quando me imagino com 60 anos a escrever este tipo de livros penso que será muito mais difícil entrar na mente de uma criança.

 

A vida dos seus filhos é uma influência para os seus livros?

Tenho dois filhos, eles têm 17 e 14 anos, e por mais surpreendente que possa parecer, não me inspiro muito neles. Eles não fazem as mesmas coisas que eu fazia quando era mais novo. Eles não brincam muito na rua, estão sempre ao telemóvel e, além disso, ambos jogam basquetebol. Eu nunca tive esses hábitos desportivos na minha vida. Eles não são muito bananas.

 

A saga de O Diário de um Banana já se prolonga por mais de uma década. Sente que teve de mudar a sua escrita para alcançar as necessidades deste novo público?

Nem por isso, mas é surpreendente eu estar a escrever estes livros para crianças que nem sequer eram nascidas quando editei o meu primeiro livro. Estou, definitivamente, na segunda ou terceira geração de leitores. Tem sido interessante para mim, sinto que não estou a envelhecer, mas isto é uma prova de como estou a ficar cada vez mais velho.

 

Acha que o sucesso dos seus livros deriva dos personagens, com os quais os leitores podem relacionar-se?

Acredito que há livros que são janelas para outros mundos e livros que são espelhos. Os meus são, definitivamente, espelhos. Quero que os miúdos se revejam e se imaginem nestas situações, por isso acho que a relacionação é um fator importante nos meus livros. O Greg [protagonista da série] não é um personagem heroico, é um oprimido.

 

O Greg não tem as típicas atitudes de um personagem de livros infantis...

Ele é um personagem complexo e completo. Tem momentos em que é mais heroico mas, na maior parte das vezes, acaba por não estar à altura das situações.

 

É um personagem realista?

Eu espero que sim. Por vezes, as pessoas dizem-me: ‘Ele não é um herói, não é um modelo a seguir’. Eu acho que esses modelos podem ser um bocado aborrecidos. São bons mas, na literatura infantil, os modelos, por vezes, são um pouco desinteressantes.

 

O universo do Diário de um Banana cresceu para fora dos livros, agora existem filmes, séries de televisão. Isto coloca uma pressão adicional no seu trabalho?

De certa forma, sim. Quando o primeiro filme saiu, elevou o perfil desta série, mas eu acho que é um bónus e que preenche o mundo d’O Diário de um Banana. Atualmente, estamos a preparar uma série animada e estou bastante entusiasmado.

 

Quais são as maiores dificuldades de escrever para crianças?

Eu diria que é ser autêntico, inovador e ter piada, que é a prioridade dos meus livros. Este é um mercado um pouco saturado, estás a competir com muitas ideias e eu tenho sorte por ter espaço nas prateleiras das lojas e por ter pessoas que leem as minhas histórias.

 

Hoje em dia, as crianças já não são tão inocentes e estão habituadas a receber estímulos diferentes. Teve de se adaptar a esta realidade?

Não mudo muito os meus livros para me adaptar a uma certa audiência, mas acho que a maior diferença é que, agora, todas as crianças têm um telemóvel e isso torna as suas vidas muito diferentes. A sua inocência desapareceu porque tudo está ligado pelas redes sociais e as suas vidas estão centradas à volta disso, o que é triste nestas idades. Mas não estou interessado nesse tipo de assunto, por isso não escrevo sobre ele.

 

Os seus livros são bastante influentes nas gerações mais jovens, tem ajudado crianças a aprender a ler e a desenvolver um interesse pela leitura. Alguma vez achou que isso fosse acontecer?

Quando comecei a escrever apenas queria que os livros fossem publicados e, além disso, escrevi estes livros originalmente para uma audiência mais adulta. Nem sequer estava a pensar nas crianças. Mesmo hoje, quando escrevo os meus livros penso sempre que estou a lidar com uma audiência adulta.

 

Talvez seja isso que explique o sucesso dos livros. As crianças sentem-se tratadas como adultos.

Não estou a tentar moralizar crianças ou a ensinar lições em cada história. Estou a tentar expor o que é engraçado na vida. Penso no meu trabalho como se fosse um comediante de stand-up. Falo de coisas com que toda a gente se pode relacionar.

 

Referiu a competição do mercado infantil. Quando o Diário de Um Banana começou a ganhar fama surgiram imitações do seu livro, como o O Diário de um Vampiro Banana. Ficou frustrado com isso?

Fiquei com sentimentos mistos e ainda os tenho. Existem livros deste género que têm uma qualidade bastante alta e há outros que têm uma qualidade muito baixa e que desvalorizam o género - gostava que esses não existissem. Mas há certas coisas que elevaram este estilo a um patamar superior, e aprecio e respeito esse trabalho.

 

Quais são as suas maiores influências?

Provavelmente, o J. D. Salinger - ele criou personagens que eram narradores que não eram de confiança e que não eram protagonistas heroicos -; a Judy Blume, uma autora que escreve ficção realista para jovens; o Bill Watterson, autor de Calvin & Hobbes: Gary Larson, que fez a série Far Side; e Charles M. Schulz, criador do Snoopy e que, provavelmente, influenciou todos os cartoonistas que surgiram depois dele.

 

Acha que se fosse mais novo estaria interessado nos seus próprios livros?

Estava a pensar nisso enquanto falávamos. Quero dizer que quase de certeza que sim, mas quando era mais novo não estava interessado neste tipo de conteúdo “que está na moda”, por isso talvez procurasse algo um pouco mais fora da caixa. Mas acho que se tivesse descoberto os livros, teria achado bastante interessante.

 

O que gostava de ler quando era mais novo?

Adorava banda desenhada. As minhas preferidas são o Tio Patinhas e o Pato Donald das décadas de 1940, 1950 e 1960, gosto de bandas desenhadas antigas.

 

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