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3 de dezembro de 1964. O voo incompleto do avião negro

3 de dezembro de 1964. O voo incompleto do avião negro

Afonso de Melo 03/12/2019 21:42

Perón queria voltar a Buenos Aires. No aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, teve ordem para não desembarcar.

 

 

“Operación Retorno”: operação, talvez; organização, nenhuma. Juan Domingo Perón tentava regressar a casa depois de quase dez anos de exílio. Contava com a benevolência do recém-eleito Presidente da Argentina, Arturo Umberto Illia, vencedor de um sufrágio que deixara de fora o Partido Peronista. Enganou-se. “El fracaso de la Operación Retorno no fue solo del peronismo sino de toda la sociedad argentina”, escreveu mais tarde o historiador Ariel Hendler. Toda a primeira classe do avião da Iberia foi reservada pelo milionário Jorge Antonio, amigo pessoal de Perón. Ao aterrar no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, o general e a sua comitiva receberam a notícia desagradável: estavam proibidos de desembarcar. Além disso, o voo, que deveria seguir via Montevideu, fora recusado pelas autoridades uruguaias. As horas passaram. A mesma aeronave que transportara Perón de Madrid ao Rio regressou à capital espanhola nessa madrugada de 2 para 3 de dezembro de 1964. Chamaram-lhe o avião negro. Seriam precisos mais nove anos para que pudesse voltar a Buenos Aires.Puerta de Hierro O refúgio de Juan Domingo em Madrid situava-se num edifício da Puerta de Hierro. Os jornalistas e simples curiosos juntavam-se em grupos à frente da porta na tentativa de saberem algo sobre o ditador exilado. Debalde. Perón mantinha-se invisível e em silêncio absoluto. Ao mesmo tempo, o Governo espanhol debatia-se internamente com o problema de permitir que o general se exilasse dentro das suas fronteiras.

Miguel Ángel Zavala Ortiz, ministro argentino dos Negócios Estrangeiros, fez questão de publicar um agradecimento às autoridades brasileiras por terem impedido Perón de prosseguir viagem. Mas, no dia 3, mais de 400 operários de uma empresa dos subúrbios de Buenos Aires promoveram um cortejo até ao centro da cidade, reclamando contra as medidas tomadas para manter Perón longe da pátria. Não esqueciam a política aplicada no seu primeiro mandato: aumento do salário mínimo, 13.o mês, folgas semanais, redução da semana de trabalho, reforma, férias remuneradas, seguro de saúde e cobertura para os acidentes de trabalho. Muita da sua popularidade mantinha-se intocável.

No dia 11 de março de 1973, o general Alejandro Lanusse, que ocupava a Presidência argentina, convocou eleições e restabeleceu a vida do Partido Peronista, que viria a ganhar a votação com 49,59%. Héctor José Cámpora assumiu o cargo. Era um títere de Perón que, entretanto, ganhou asas para poder voltar finalmente a casa. Dia 20 de junho de 1973. A Argentina caiu-lhe nos braços e Cámpora dobrou a espinha, tal como estava previsto. No dia 13 de julho, abdicou. As novas eleições deram ao Partido Peronista, agora com o pai outra vez à cabeça, 62% dos votos. Juan Domingo, o Presidente, nomeou Cámpora embaixador no México. Com todas as regalias.

 

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