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Samoa. Corrida para travar surto de sarampo nas ilhas do pacífico

Samoa. Corrida para travar surto de sarampo nas ilhas do pacífico

DR Jornal i 03/12/2019 21:33

Já morreram 48 crianças com menos de quatro anos. Governo decidiu encerrar serviços públicos e mobilizou funcionários para campanha de vacinação em massa.

 

As escolas estão fechadas e estão proibidas concentrações em espaços públicos, mas os casos continuam a multiplicar-se. As ilhas Samoa, no Pacífico, enfrentam um surto galopante de sarampo, num ano em que os casos da doença aumentaram em todo o mundo. Em pouco mais de um mês contam-se 3700 pessoas infetadas e 53 mortes. A maioria das vítimas mortais são crianças com menos de quatro anos - 23 tinham menos de um ano e 25 entre dois e quatro anos. A doença vitimou ainda dois adolescentes e um adulto. 

Mais de 10 mil pessoas foram admitidas em hospitais desde o início do mês de outubro e atualmente, segundo o Governo samoano, cerca de 180 continuam hospitalizadas. Dessas 180, 19 são crianças em estado crítico.

As autoridades de saúde do país afirmam que o vírus se terá inicialmente espalhado devido a um viajante proveniente da Nova Zelândia, país vizinho, onde este ano já houve mais de 2 mil casos de sarampo. A baixa taxa de vacinação fez o resto: segundo a Organização Mundial da Saúde, estima-se que no ano passado apenas 31% dos bebés foram vacinados contra a doença, num país onde a proteção de grupo já era baixa - e para garantir a imunidade de grupo, que previne o desenvolvimento de grandes surtos, é recomendada uma cobertura vacinal acima dos 95%.

A morte de dois bebés no ano passado após receberem a vacina aumentou o receio da população samoana, que passou a recusar a imunização. Viria a perceber-se que as crianças tinham morrido depois de um erro na preparação da vacina, que foi misturada com um analgésico, e as duas enfermeiras responsáveis foram condenadas este verão a cinco anos de prisão.

Agora vive-se uma corrida para tentar travar o surto. Depois da declaração do estado de emergência, no mês de outubro, Samoa fechou as suas escolas e universidades, baniu as crianças de eventos públicos e cancelou muitos deles durante o mês de novembro. Obrigou ainda toda a população a ser vacinada. Esta segunda-feira, o Governo samoano anunciou que os serviços públicos vão estar encerrados dois dias e que todos os funcionários vão ser mobilizados para a campanha de vacinação em massa. Também a primeira-ministra neozelandesa, Jacinda Ardern, garantiu que o país está a fazer todos os possíveis para ajudar no combate a esta epidemia, incluindo enviar mais de 50 profissionais de saúde e centenas de milhares de vacinas para Samoa.

Se em meados de outubro havia 314 casos de sarampo no país, os mais de 3700 registados nas últimas seis semanas correspondem a quase 2% da população. Segundo as autoridades de saúde samoanas, cada dia há mais cem pessoas infetadas e só neste último fim de semana apareceram mais 198.

Desde o início da campanha de vacinação, anunciou o primeiro-ministro Tuilaepa Lupesoliai Sailele Malielegaoi, já foram vacinadas 58 mil pessoas, um quarto da população. A UNICEF, as Nações Unidas e vários países vizinhos, como a Nova Zelândia, enviaram centenas de milhares de vacinas, material e recursos humanos, como médicos, para Samoa, por forma a ajudar a travar o surto.

Segundo Winston Peters, ministro dos Negócios Estrangeiros neozelandês, “é do interesse de todos trabalharmos juntos para parar a propagação desta doença altamente contagiosa que tem tirado muitas vidas em Samoa”. A UNICEF pretende arrancar com campanhas de imunização nestes países de menor dimensão do Pacífico e desenvolver planos para combater um eventual surto regional.

 

Epidemia cresce em todo o mundo

Segundo os últimos dados da Organização Mundial da Saúde, até 5 de novembro foram notificados 440 mil casos de sarampo em 187 países, quando em todo o ano passado tinham sido 353 236. O sarampo é ainda endémico em muitas regiões do globo, em particular em África e na Ásia. Na República Democrática do Congo registaram-se 5110 mortes desde o início do ano.

Mas os casos têm vindo também a aumentar nos últimos anos em países onde a doença estava controlada, algo associado a movimentos antivacinas. Depois de um surto em Nova Iorque, que levou a cidade a declarar em abril o estado de emergência, o país regista este ano 1261 casos de sarampo, o número mais elevado desde 1992, revela o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças.

Na Europa, o Relatório sobre Ameaças de Doenças Transmissíveis (CDTR na sigla inglesa) do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC), de 11 de outubro de 2019, revela que a maioria dos casos de sarampo na região registaram-se na Roménia, França, Itália, Polónia e Bulgária. Em maio de 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou os surtos de sarampo na região europeia como uma emergência de grau 2 e, em agosto deste ano, houve mesmo quatro países - Albânia, República Checa, Grécia e Reino Unido - que perderam o status de eliminação do sarampo.

Este alerta da OMS em relação ao surto de sarampo que se regista na Europa levou a que a organização apelasse à intensificação da vacinação. Segundo a mesma, no primeiro trimestre de 2019 registaram-se quase 90 mil casos de sarampo em 48 países europeus. Estes números representam mais do dobro em relação ao período homólogo de 2018 (44 175) e mais do que no ano passado inteiro (84 462).

Na altura, Graça Freitas, diretora-geral da Saúde, disse que Portugal estava “em contraciclo” em relação ao resto da Europa e que “em 2018 atingimos as taxas de vacinação mais elevadas de sempre. Noventa e nove por cento dos meninos com um ano de idade residentes em Portugal foram vacinados contra o sarampo”.

A diretora-geral da Saúde explicou que esta prevenção fez com que Portugal se encontre em risco mínimo de surto de sarampo. Sublinhou, no entanto, que “não existe risco zero”.

Atualmente, ainda não existe uma cura para o sarampo. Contudo, a doença pode ser evitada com duas doses de uma vacina, como refere a Organização Mundial da Saúde. A OMS estima que apenas um de cada dez casos seja relatado, pelo que a escala da epidemia deverá ser muito maior do que as estatísticas oficiais indicam.

Entre os principais sintomas do sarampo constam febre acompanhada de tosse, irritação nos olhos, nariz a pingar ou entupido e mal-estar intenso. Passados três a cinco dias podem aparecer outros sintomas, como manchas vermelhas no rosto e atrás das orelhas, que se espalham depois pelo corpo. 

 

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