11/12/19
 
 
Pedro Vaz 03/12/2019
Pedro Vaz

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1,5 graus centígrados?

Na semana em que se inicia em Madrid, com presidência chilena (sic!)  a Conferência anual de partes sobre a Mudança do Clima sob a égide das Nações Unidas (COP 25), em que Greta Thunberg efetua um “pit stop” em Lisboa e a cidade inicia a contagem decrescente para ser a Capital Verde Europeia 2020, importa deixar alguma reflexão sobre os desafios que enfrentamos e de que forma é que, não esquecendo a importância da igualdade e progresso para todos à escala global, conseguiremos que o planeta continue a ser garantia da vida humana.

É um facto que a humanidade está neste momento a gastar mais recursos naturais que aqueles que deveria. Seja derivado do aumento da população, do consumo excessivo e desmesurado por parte dos países mais desenvolvidos, seja porque os cidadãos daqueles países, que antes apelidávamos de terceiro mundo, estejam também eles a consumir mais recursos que há décadas atrás, a verdade é que o caminho que se tem percorrido por parte dos decisores políticos é claramente insatisfatório, ora porque cedem aos grandes interesses económicos mundiais não adotando regras exigentes para estes agentes económicos, ora porque o esforço para redução do consumo é claramente inexistente, pois os modelos de desenvolvimento económico continuam assentes no crescimento do consumo.

Outro facto tem a ver com a correlação entre o aumento dos gases de efeitos estufa, mormente o carbono, e o aquecimento global. Independentemente de ainda haver céticos à escala global quanto a esta evidência científica, a realidade é que os Estados continuam a não fazer mais que declarações proclamatórias em prol da descarbonização em vez de adaptarem os seus quadros legais a uma efetiva descarbonização.

Após o falhanço de Quioto e o possível com o acordo de Paris, em que se assume um objetivo comum com a ambição de ter um dos países mais poluidor do mundo – EUA – comprometido com esta agenda de luta contra as alterações climáticas, sem contudo nada de concreto e palpável, não podemos deixar de mostrar o nosso ceticismo em relação ao papel que os Estados-Nação podem desempenhar neste combate pela existência humana na Terra. Importa, no entanto, realçar o papel que a, muitas vezes disfuncional, União Europeia tem tido na liderança nesta matéria. Daí as baixas expectativas quando ao resultado da COP25.

Podemos, no entanto, encontrar esperança e algum alento no papel de outros e novos emergentes atores nesta área. Desde logo as Organizações Não Governamentais e comunidade científica que nunca desistiram ao longo destas décadas. Se avanços têm existido, ainda que parcos, muito se deve à sua ação. Os jovens mais jovens que têm estoicamente neste passado recente, mantido na agenda política a dívida que temos para com as gerações futuras em matéria do planeta, pugnando para que as mudanças de comportamentos sejam efetivas. Por fim, as cidades à escala mundial. Estima-se que a breve prazo mais de 70% da população mundial se encontre em cidades, o que significa que todos os problemas decorrentes do aquecimento global (água ou a falta dela; resíduos; poluição atmosférica e sonora; catástrofes climáticas; assimetrias sociais e económicas; aumento do nível da água do mar, etc.) tenham impacto nelas e vemos as cidades à escala global a assumirem cada vez mais a liderança do combate às alterações climáticas, como é o caso da maior organização de megacidades à escala global, o C40, em que Lisboa é o mais recente membro, que trabalha diariamente e assume compromissos claros para alteração do seu próprio comportamento e de forma mais célere que os Estados têm conseguido fazer.

As políticas de ambiente sempre se viram confrontadas ao longo do tempo com a eterna dicotomia entre o antropocentrismo e o ecocentrismo. Estamos num momento, em que independentemente da perspetiva que se adote, tudo está em jogo e a nossa existência e dos nossos filhos se encontra em risco. O tempo é de urgência. Ações concretas precisam-se.  

Pedro Vaz 

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