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Funerárias. O outro lado do negócio que não morre

Funerárias. O outro lado do negócio que não morre

Dreamstime Rita Pereira Carvalho 01/12/2019 14:07

As denúncias que chegaram ao i dão conta de irregularidades no mundo funerário. Garagens que se transformam em câmaras frigorificas são apenas um exemplo. Além disso, as seguradoras também querem entrar no negócio. 

Funerárias com os dois olhos nos hospitais, certificados de óbito encomendados a médicos ou garagens que servem de câmaras frigoríficas são exemplos dados por quem conhece bem o setor funerário. 

À partida, todas as funerárias têm de ter uma central logística onde está uma câmara frigorífica para acondicionar os corpos antes de seguirem para o velório. Segundo fontes de agências funerárias, algumas empresas fazem da sua garagem a central logística – sítio onde colocam os carros e uma câmara frigorífica improvisada. “Não tendo uma câmara frigorífica, têm um espaço onde colocam o cadáver”, revelou uma das fontes ao i, acrescentando que isto pode resultar num perigo para a saúde pública. 

A falta de fiscalização é uma das falhas apontadas, já que esta lacuna permite que a lei seja contornada, numa tentativa de melhor negócio. E no leque da falta de fiscalização surge a relação hospital-funerária. Os casos são alguns e há quem já tenha apresentado queixa às autoridades e às administrações dos hospitais. 

Em cidades mais pequenas há funerárias que mantêm uma relação de proximidade com enfermeiros ou com médicos. “Pagam e pagam bem, mas é difícil provar isto”, explica a mesma fonte, recordando o caso de uma empresa que mantinha escutas nas chamadas do INEM para saber a localização dos acidentes. Nesta história há profissionais de saúde que recebem dinheiro para avisar as funerárias cada vez que alguém morre. Fala-se muito no setor da morte que são muitos os hospitais que “colaboraram” com agências funerárias, mas ninguém consegue prová-lo.

As histórias multiplicam-se e a relação médico-funerária é também longa e não menos comum. Se uma pessoa com 90 anos morrer em casa e os bombeiros forem chamados ao local, os operacionais verificam o óbito mas não podem passar um certificado de óbito – trabalho exclusivo dos médicos. Segundo a Direção-Geral da Saúde, existe um princípio que diz que deverá ser o médico de família a assinar o certificado. Não sendo o médico de família, poderá ser o médico que teve o último contacto com a pessoa. Mas não sendo também possível esse médico, poderá ser outro qualquer. E é aqui que entram as funerárias, que indicam profissionais de saúde aos familiares para que o processo seja agilizado e seja dispensada a autópsia. Se a causa da morte só é apurada através da autópsia, então os certificados de óbito podem ser adulterados nestes casos, explicou outra fonte ao i. 

Seguradoras querem negócio Já se sabe que o setor funerário não vai acabar e é por isso que têm sido constantes as tentativas das seguradoras para entrarem neste negócio. Confesso opositor desta prática das seguradoras é Carlos Almeida, presidente da Associação Nacional de Empresas Lutuosas (ANEL), que representa 600 empresas funerárias: “Falseia a livre concorrência e a livre capacidade de escolha”. E porquê? Caso seja subscrito um seguro para financiar a cerimónia fúnebre, à partida, a agência funerária já está escolhida pela seguradora. “No seguro automóvel, em caso de avaria chama-se o reboque. Alguém vai discutir qual é a empresa de reboques? Não. Nos funerais acontece a mesma coisa”, acrescentou. 

Além disso, explicou Carlos Almeida, o valor do seguro aumenta à medida que a pessoa vai envelhecendo, já que o risco de morte é maior. Se, por algum motivo, a pessoa deixar de pagar, o valor já pago não lhe é devolvido e ninguém usufruiu de qualquer serviço. Ligada aos seguros, referiu Carlos Almeida, está a Servilusa, a empresa que presta serviços inovadores em Portugal e que representa cerca de 6% do total de serviços funerários em todo o país. 

Vende-se T1 bem localizado

Novas formas de encarar a morte e cemitérios com campas pelas costuras trazem consigo diferentes formas de fazer negócio. Em 2016 foi pendurada uma placa num dos jazigos do cemitério de Tomar. Em letras garrafais, a Remax escreveu: “Vende-se”. E este é um negócio com tendência crescente – ou porque há cada vez mais jazigos abandonados ou porque as famílias precisam, efetivamente, de dinheiro. A Câmara Municipal de Tomar mandou, por questões de sensibilidade, retirar o anúncio. 

Ao longo dos anos, a venda de jazigos tem-se espalhado pela internet, e em sites como o OLX ou a empresa Remax, de compra e venda de imóveis, é possível encontrar quatro paredes dentro de um cemitério. Os preços vão variando consoante a localização, a capacidade ou o estado de conservação. O cemitério do Alto de São João, em Lisboa, é onde aparecem os preços mais altos. Um jazigo construído em 1900 e com 15 metros quadrados, com capacidade para dez urnas, está ao alcance de 60 mil euros. E de um clique. Para carteiras menos recheadas há um jazigo no cemitério da Ajuda, também na capital, por metade do preço anterior. Neste caso, a capacidade é menor, mas ainda cabem oito urnas. Fora de Lisboa, as opções vão aparecendo – no Porto ou em Coimbra, os preços são mais atrativos. 

Mas nem só de jazigos são feitas as vendas. Há também gavetões à venda no OLX. Dois gavetões no cemitério de São Domingos de Rana, Cascais, custam seis mil euros. “A estrear, totalmente novos e de excelente colocação para manutenção”, lê-se na descrição do vendedor. 

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