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Funerais. O negócio que não morre

Funerais. O negócio que não morre

Dreamstime Rita Pereira Carvalho 01/12/2019 14:03

Uma cerimónia fúnebre já não é apenas um velório e um enterro. Agora há viagens de iate para atirar as cinzas ao mar, música no velório ou reportagens fotográficas. Com a concorrência a aumentar, o mercado funerário inova.

Esta é talvez a frase que as funerárias mais temem: “No dia seguinte ninguém morreu”. Felizmente, é só o início d’As Intermitências da Morte, de José Saramago, em que a hipótese de a morte tirar umas férias é atirada para cima do leitor. A indústria da morte ficaria a perder com a perpetuidade, mas isso ainda não será para já. O que existe agora é uma nova forma de ver a hora em que os olhos se fecham pela última vez – a cremação é sempre uma hipótese a considerar e há quem prepare a cerimónia fúnebre em vida. E a prestações. 

A competitividade entre empresas funerárias tende a aumentar, já que, nos últimos dois anos, a mortalidade em terreno nacional aumentou e, obviamente, o número de funerais acompanhou o mesmo ritmo – só em 2018 morreram 113 mil pessoas. Na hora de escolher um serviço é preciso estar atento ao valor a pagar e, sobretudo, à relação qualidade-preço. Por exemplo, na Servilusa – empresa multinacional –, uma cerimónia fúnebre pode ultrapassar os seis mil euros. É por esta razão que a Associação Nacional de Empresas Lutuosas (ANEL) vai lançar no próximo mês de dezembro a plataforma online Funeral Booking. Tal como já se faz para reservar um hotel, agora é possível escolher a funerária mais adequada. Os utilizadores classificam o serviço prestado pela agência e será então mais fácil perceber se as campanhas das agências funerárias são verdadeiras ou se o facto de dizerem que são os melhores da área é só uma forma de venda agressiva. Nivelar preços e colocar a competitividade em patamares aceitáveis são os objetivos da ANEL. 

Inovar na hora da morte

Se a concorrência aumenta, então é natural que a oferta de serviços seja cada vez maior. E cada vez mais fora da caixa também. A última imagem é aquela que fica e as agências funerárias já não são apenas responsáveis por levar um corpo ao cemitério. A tanatopraxia já ganhou adeptos em todo o país e desde 2011 que é obrigatório para as agências ter, pelo menos, um responsável técnico para dar ao morto o mesmo aspeto que tinha em vida. Recorde-se o que acontece no filme O Padrinho: Sonny Corleone é morto numa portagem de autoestrada, atingido por dezenas de tiros. A cara do filho mais velho de Dom Corleone ficou destruída e o pai recorreu aos serviços de um “cangalheiro” a quem tinha prestado os seus serviços. Corleone exigiu que o homem reconstruísse a cara do filho Sonny para que a mãe o pudesse ver no caixão. Hoje são várias as agências que prestam este serviço. No site da Servilusa, por exemplo, este procedimento é feito “através de técnicas adequadas de injeção de líquidos específicos, também conhecidas como a arte de restauração ou recomposição”. 

Mas as opções na hora da morte vão mais longe: uma cerimónia de homenagem a ouvir as músicas favoritas da pessoa que acaba de morrer ou até música durante o velório e o funeral também já são uma realidade. Uma reportagem fotográfica ou em vídeo para registar a última homenagem também faz parte do leque, até para quem não tem a oportunidade de estar presente. 

As cremações têm vindo a aumentar nos últimos anos e são o destino de 16% dos óbitos em Portugal – na capital, a percentagem é já de 53%. Mas noutros países europeus, os dados apontam para números mais altos quando se fala em cremação. Segundo os dados da associação The Cremation Society, a Dinamarca conta com 83,9%, a Suécia e a Suíça 82%, e a Grã-Bretanha 78%. 

A propósito, a família já pode pedir que as cinzas sejam deitadas ao mar. Uma urna de cinzas biodegradável, “com registo de coordenadas GPS” e com transporte marítimo da família e amigos num “iate de 32 lugares, num veleiro de 12 lugares ou numa lancha de nove lugares” – cortesia da Servilusa. 

Morrer, sim, mas com moderação

A mudança de preferências traduz-se num certo alívio para os cemitérios, agora atulhados de campas e jazigos, sem espaço para receber os novos inquilinos. Aliás, alívio para os cemitérios e para as contas públicas. É que só este ano, segundo o portal Base, foram gastos quase um milhão e meio de euros em contratos de obras de alargamento de cemitérios, em todo o país – com Penafiel a liderar a lista das intervenções mais caras, com uma despesa de cerca de 150 mil euros. Ainda se pode morrer, mas se a vontade não se transformar em cinza é preciso ter calma. As notícias que dão conta das reclamações das autarquias sobre a falta de espaço nos cemitérios para fazer novas covas têm-se multiplicado e, por exemplo, o cemitério de Aveiras de Cima está praticamente lotado. Neste momento, já só existe uma campa disponível. Mais a sul, o cemitério de Faro viveu dias negros, mas começaram agora as obras de expansão – à partida, haverá mais espaço para morrer. 

O novo livro de Rita Canas Mendes, Viver da Morte, um ensaio da Fundação Francisco Manuel dos Santos, traduziu o sono eterno em números: existem em Portugal 5007 cemitérios, um número que não se revela assim tão insuficiente, tendo em conta que nalgumas regiões do interior – e o distrito da Guarda é um dos exemplos – há mais campas vazias do que pessoas a morrer. E, aqui, as cremações têm também culpas no cartório. Além disso, a lei é bem clara quando se trata de questões mais obscuras: ao fim de cinco anos, os caixões devem ser exumados e o lugar deve ser ocupado por outro corpo. A não ser, claro, que esteja em causa uma campa eterna, que custa mais de dez mil euros. 

Construir mais cemitérios e crematórios é viável? Carlos Almeida, presidente da ANEL, considera que essa não será uma solução. E a justificação é simples: um cemitério ou crematório tem, normalmente, uma concessão associada de 30 anos. A tendência é que Portugal tenha uma população cada vez mais envelhecida, portanto, durante um período de 30 anos, a probabilidade é que o número de mortes venha a estagnar. 

Lá fora, a tendência segue o caminho da lotação esgotada, mas com uma diferença quando Portugal é termo de comparação: as soluções adotadas. O Brasil está um passo à frente e desde o século passado que existem cemitérios verticais – uma moda transformada num negócio rentável. Em São Paulo, Rio de Janeiro ou Porto Alegre poupa-se espaço, é possível andar de elevador e os mortos não são enterrados, mas sim colocados em gavetões. O único problema é que custa o dobro – às vezes o triplo – de um funeral tradicional. Em terras portuguesas, os cemitérios deverão continuar longe do céu e muito dificilmente será considerada esta opção. 

Em matéria de inovação, a última implementada em terreno lusitano ganhou forma na freguesia de Carnide, em Lisboa – um cemitério em forma de jardim e em tons de verde. Acontece que mais nenhuma autarquia do país seguiu este exemplo de construção e, hoje, “o cemitério de Carnide é um peso morto para a Câmara Municipal de Lisboa”. As palavras são de Carlos Almeida, que explicou que este espaço não recebe funerais desde a década passada, já que a elevada presença de água no solo atrasou o processo de decomposição dos cadáveres.

Turismo macabro Por falar em modas, o turismo em cemitérios parece ter chegado em força a Portugal e está longe de morrer. Mais estrangeiros do que portugueses, é certo, mas, no ano passado, milhares de pessoas rumaram até aos locais de culto dos mortos para visitar campas, jazigos ou gavetões. No Porto há dois cemitérios que fazem parte da Rota de Cemitérios Europeus: o de Agramonte e o de Prado do Repouso. Estes dois registaram no ano passado um número recorde de turistas, atingindo as 1205 pessoas em 17 visitas entre maio e outubro. A Câmara Municipal do Porto também não fica atrás na divulgação do seu espólio e promove o Ciclo Cultural dos Cemitérios do Porto – onde as visitas guiadas incluem também passeios à noite. Nesta matéria, a capital dá igualmente cartas: visitas ao cemitério dos Prazeres, promovidas pela Associação dos Amigos dos Cemitérios de Lisboa, e visitas ao cemitério do Alto de São João desenvolvidas recentemente pelo município. E, claro, há a opção de visita guiada em inglês.

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