11/12/19
 
 
Joaquim Vieira. “Houve reis que casaram por amor, o que às vezes deu mau resultado”

Joaquim Vieira. “Houve reis que casaram por amor, o que às vezes deu mau resultado”

Mafalda Gomes José Cabrita Saraiva 01/12/2019 11:41

D. Fernando casou por amor e “desabou tudo”. D. Dinis tinha no mosteiro de Odivelas “um antro de prazer”. D. Pedro IV era o campeão da promiscuidade.

Este livro resultou de investigação que já tinha feito, de histórias que foi encontrando ou quando preparava outros livros?

Este livro resulta de uma ideia que tive aqui há quatro ou cinco anos. Na altura estava a trabalhar no projeto de um livro chamado 150 Perguntas & Respostas Essenciais sobre a História de Portugal, para o qual tive de fazer um estudo de toda a nossa história – e verifiquei que o sexo tinha uma importância determinante em muitos acontecimentos, sobretudo no tempo da monarquia, por causa da questão das sucessões dinásticas, depois a integração dos bastardos e os conflitos que daí resultam. Mas achava interessante alargar a história até à atualidade, incluindo o período republicano.

É difícil encontrar fontes escritas sobre este tema?

Há muita matéria publicada, e julgo que haverá muita matéria ainda não estudada nos arquivos. Agora, quanto mais recuarmos mais difícil se torna confirmar os factos. Veja, por exemplo, a filiação do D. Afonso Henriques. Há muita especulação sobre isso, uns historiadores dizem uma coisa, outros dizem outra, as próprias crónicas publicadas um pouco mais tarde não se sabe se são fidedignas. É um emaranhado, uma nebulosidade enorme, e nunca se vai esclarecer tudo. Houve uma antropóloga especializada em técnica forense [Eugénia Cunha] que quis analisar os ossos de D. Afonso Henriques, em Coimbra, e chegou a haver uma autorização do Estado para se proceder à exumação. A partir dessa análise podia-se estudar o DNA e chegar a alguma conclusão. Mas em cima da hora o processo foi proibido e nunca chegou a ser feito. Continua o mistério.

E em cartas, por exemplo, há muitos relatos da vida íntima?

Há muita coisa. A partir de certa altura, como os reis casavam, por norma, com princesas estrangeiras, há as cartas que essas princesas escreviam à família. Depois há também relatórios diplomáticos. Na Idade Moderna começou a haver um sistema de embaixadas permanentes e os embaixadores enviavam relatórios muito abertos, através dos quais conseguimos obter muita informação interessante sobre a vida privada dos monarcas.

A diplomacia intromete-se nessas questões do foro íntimo?

Os diplomatas contam tudo o que se passa. Por isso é que o Wikileaks foi terrível, porque revelou imensos segredos. É uma linguagem que não tem limites e por isso pode até causar perturbações nas relações entre os países. Temos também os viajantes estrangeiros que passavam por Portugal, como o William Beckford. Alguns conheceram a corte e testemunharam diretamente as coisas. Há um inglês que conta que assistiu a um espetáculo em que estava o Rei D. José e a amante, então relata como os dois se relacionavam na sala. E finalmente dispomos das próprias declarações dos monarcas, pelo reconhecimento dos seus filhos bastardos. Mas mesmo não havendo declarações diretas, podemos fazer deduções através do que deixavam em herança...

Rendimentos?

Exatamente. Ou para as amantes ou para os filhos bastardos. Uma coisa que achei absolutamente extraordinária é que os reis arrogavam-se distribuir vilas, terras inteiras, com as casas e tudo, fosse aos filhos legítimos fosse aos bastardos. Aliás, Portugal nasce dessa circunstância. O condado Portucalense é doado em casamento a uma filha bastarda. O pai é Afonso VI de Leão e Castela. Como eu digo no livro, Portugal nasce da bastardia, portanto o pecado original – e ponho pecado entre aspas – está presente desde a origem até à atualidade.

Mas há bastardos e bastardos, não é?

Pois. Há os favoritos e outros que são rejeitados...

Isso tinha a ver com as mães?

Acho que tem a ver com várias circunstâncias e até com a altura do nascimento do bastardo, se era antes ou depois do casamento, se convinha ou não fazer o reconhecimento, eventualmente com o laço afetivo que o monarca pudesse ter com esse filho. E também se a mãe era uma favorita ou se era uma mulher de passagem com quem se tinha cruzado uma vez.

Durante a monarquia os casamentos eram combinados consoante as alianças e as conveniências. E perguntamo-nos sempre: a atração física contava ou não para alguma coisa?

Aí não contava, embora às vezes pudesse haver uma deceção tanto da parte do noivo como da noiva.

Porque as descrições e os retratos não correspondiam exatamente ao noivo ou à noiva?

Exatamente. Os relatórios que eram enviados pelos embaixadores podiam não corresponder à verdade. Recordo uma cena do Henrique VIII da série televisiva que passou há muitos anos em que ele pede um retrato de uma senhora e tenta avaliar se vale a pena casar. Mas acho que de uma forma geral o que contava era a oportunidade e o interesse diplomático daquela aliança. E depois tentava-se convencer o rei. O rei tinha isso, era o soberano mas estava sujeito a certas regras. Os conselheiros tentavam canalizá-lo para aquele matrimónio porque era o mais vantajoso. Mas é claro que podia dizer que não. E muitas vezes isso aconteceu. Houve reis que casaram por amor e não por interesse, o que às vezes causou complicações. Por exemplo, D. Fernando, que casou com a D. Leonor Teles, por quem teve uma paixão, e contrariando as diretivas dos seus conselheiros diplomáticos, que lhe indicavam outra Leonor, espanhola, e que ele rejeitou, porque era pela Leonor Teles que estava apaixonado. Essa união acabou por ditar o fim da primeira dinastia e a revolta de 1383. Lá está: aí o casar por amor e não por interesse diplomático deu mau resultado. Na perspetiva deles – nós podemos dizer que deu bom resultado porque a segunda dinastia foi melhor do que a primeira. Mas na perspetiva deles foi uma desgraça. Desabou tudo.

D. Fernando, segundo Fernão Lopes, tinha uma amizade muito próxima, talvez demasiado, com uma meia-irmã. O cronista dizia aliás com muita graça: ‘Fazia a alguém ter a desonesta suspeita da sua virgindade ser por ele minguada’!
[risos] As expressões dos cronistas da época são muito curiosas.

Era natural os cronistas tratarem o tema com esta abertura?

Era. É preciso que se diga, no entanto, que Fernão Lopes tinha a missão de escrever uma crónica que enaltecesse D. João I, fundador da segunda dinastia, que resulta precisamente dessas confusões. Portanto poderá ter querido depreciar quem estava no trono antes. É preciso fazer a leitura destes textos todos com uma certa reserva, com uma certa distância. Por exemplo, a forma como Fernão Lopes fala de Leonor Teles, ‘a aleivosa’ – uma mulher maquiavélica. Há quem diga que se calhar ela não era assim tão má como ele a pintava. E há outras coisas muito curiosas. A suposta relação homossexual que o D. Pedro tinha com um escudeiro, que é também contada pelo Fernão Lopes. Há quem diga que é a tal linguagem da época. Mas a maneira como diz aquilo, como fala de uma intimidade muito grande entre ambos, que se amavam...

Era para semear a dúvida?

Pelo menos. Porque ele não diz isso de outras relações entre homens. E portanto levanta muito essa suspeição. É um dos tais pontos de controvérsia que nunca se esclarecerão. O meu papel era suscitar todas as dúvidas. Outros que venham que tentem apurar a verdade dessas coisas.

Sabemos como era normalmente a iniciação sexual dos reis?

O que percebi é que a iniciação sexual dos reis era feita através dos conselheiros escolhidos para acompanhar os infantes, que orientavam a educação deles em todos os aspetos. Geralmente era gente da Igreja – frades franciscanos, ou de qualquer outra ordem, que os ensinavam a escrever, a ler, conhecimentos relacionados com matérias científicas, as regras comportamentais, da etiqueta, o funcionamento do Estado e também no aspeto sexual. Agora o pormenor... [risos] não sei, não estava lá. Até há quem diga que o tipo que formou o D. Sebastião teve relações sexuais com ele. O D. Sebastião teria uma doença de natureza sexual...

Um escorrimento, não é verdade?

Exatamente, que teria sido transmitido pelo tutor. Sobre isso há as teses mais variadas. Mas a educação sexual estava a cargo desses tais tutores, conselheiros da corte, escolhidos a dedo.

A propósito de D. Dinis fala da “promiscuidade amorosa” e diz que um dos seus “antros de prazer” seria o mosteiro de Odivelas. 

Que ele fundou.

Então como é isso? As freiras não estavam obrigadas a manter a castidade?

Há histórias de casos de envolvimento sexual de freiras desde tempos imemoriais, e isso atinge o apogeu com D. João V e a célebre Madre Paula, até há uma série de televisão sobre isso. Não havia o preconceito puritano que há hoje. Até há histórias de esqueletos de bebés encontrados em caves de conventos – ainda recentemente na Irlanda se descobriu cadáveres de não sei quantas crianças. A promiscuidade foi imensa. Se atentarmos às questões de pedofilia agora associadas à Igreja Católica, que é a mais universal, verificamos que essas práticas, pelo menos no seio da hierarquia católica, eram de cima a baixo. E se isso acontece agora com esta vigilância toda que há sobre os costumes, quando havia muito menos controle e menor autoridade era possível que houvesse mais liberalidade ao nível desses costumes.

Mas ao mesmo tempo a Igreja tentava controlar as mentalidades e os comportamentos. A Inquisição, que foi introduzida por D. João III, tenta exercer um certo controlo sobre o domínio da intimidade.

Tenta. A Inquisição tinha regras muito restritas no que respeita ao relacionamento sexual. Mas, pelo que eu percebi, na prática isso não funcionava. A única coisa que lhes interessava era a questão da sodomia – embora o conceito de sodomia fosse mais lato do que é hoje. Mas os casos de condenações por sodomia são uma ínfima parte da atividade do Tribunal da Santa Inquisição. Até levanto a questão de saber se no fundo não evitaram ir para esse terreno da sexualidade porque poderia pôr em causa os próprios membros do clero. O instinto natural do homem sempre existiu. Tinham de arranjar uma forma qualquer de o satisfazer. Acho a coisa mais natural do mundo. Portanto, apesar das regras escritas e até das leis, havia muitas escapatórias e práticas pouco ortodoxas no campo sexual.

Segundo o historiador Oliveira Martins, o infante D. Henrique era “casto e abstémio”. Em que se baseou ele para dizer isso?

Não faço ideia. É verdade que não casou, não deixou descendência. Agora o que leva Oliveira Martins a falar nesses termos desconheço. Não se conhecem filhos naturais dele, não se conhecem amantes, há um historiador espanhol que fala da possível homossexualidade do infante D. Henrique, mas acerca disso também tenho dúvidas. Hoje em dia está muito na moda especular com a pretensa homossexualidade. Também se diz que D. Afonso VI e que D. Sebastião eram homossexuais, mas não vejo matérias suficiente para se poder afirmar isso.

Diz que Filipe II “era mais lúbrico do que o mais lúbrico dos reis portugueses”. E que Filipe IV foi “o mais promíscuo rei da história espanhola”. E da história de Portugal, qual foi o rei mais lúbrico ou promíscuo?

D. Pedro IV. Foi uma coisa absolutamente arrasadora. Já se fizeram tentativas de levantamento dos seus filhos bastardos e vão desde 17 a 43. Sobretudo no Brasil. Não conheço nenhuma outra história da vida sexual de um rei comparável. Em simultâneo, “atacava” várias mulheres. Usava a sua autoridade, primeiro de infante e de príncipe real, depois de Imperador, para submeter todo o tipo de mulheres, incluindo mulheres de origem africana, de todo o género.

Não era esquisito!

Nada. Via passar uma liteira e ia espreitar quem lá ia dentro. Uma coisa absolutamente impressionante. E todos os biógrafos concorrem nessa ideia.

Isso nunca o descredibilizou ou lhe causou constrangimentos no exercício do poder?

Não, o que é uma coisa extraordinária. Hoje em dia seria um escândalo terrível. Mas na altura a coisa ficava confinada ao círculo restrito da corte. Ele tinha uma amante para quem construiu um palácio mesmo em frente ao palácio real, a Marquesa de Santos, que é outra figura lendária das barregãs [sinónimo de amantes, favoritas ou concubinas] de reis, tal como a Madre Paula. E se numa casa havia várias irmãs ele tentava ir a todas. Seduziu uma irmã da marquesa de Santos, de quem aliás teve um filho que iria dar origem ao Francisco Balsemão. Balsemão é trineto, por esse ramo, de D. Pedro IV.

Hoje vemos na alta sociedade festas com bacanais. Era normal na corte portuguesa um certo nível de devassidão?

Não fiquei com essa ideia, pelo menos em Portugal. Talvez noutros países isso houvesse. Em Portugal as coisas eram mais feitas à porta fechada, uma de cada vez. Diz-se que D. Afonso III como tinha conquistado a tranquilidade, porque estavam definidos os limites do território português, podia dedicar-se mais aos prazeres da vida, e dava umas festas, em que havia jograis, trovadores e prostitutas. Mas esses hábitos nunca foram regra em Portugal. Talvez tenham ocorrido mais algumas situações com a classe alta no século XX – o caso Ballet Rose, por exemplo, é reflexo disso – do que no tempo da monarquia.

Esse foi um dos grandes escândalos do Estado Novo. Salazar sempre foi, pelo contrário, muito discreto no que toca à sua vida íntima. A própria moral do Estado Novo que ele tentou implantar assim o impunha?

Claro, acho que tinha tudo a ver uma coisa com a outra, porque ele impôs um regime que seguia certas regras comportamentais muito relacionadas com a moral católica, e portanto para Salazar estava fora de questão projetar para a opinião pública um comportamento que fosse diferente disso. Ele sempre teve um cuidado de manter a sua imagem pública muito dentro dessas normas. E todas as paixões que teve foram clandestinas, ocultas da opinião pública, dos portugueses. Ainda que aqueles que lhe eram próximos soubessem. Por exemplo, em relação à Christine Garnier [jornalista francesa enviada a Lisboa para escrever um perfil do ditador, autora de Férias com Salazar], ele pediu ao embaixador português em França, Marcello Mathias, que fosse comprar uma joia para lhe oferecer. Ou seja, Salazar tinha de envolver algumas figuras do Estado nisso. E também tínhamos a censura à imprensa, o que permitia manter as coisas longe do conhecimento público. Aliás o caso Ballet Rose foi publicado não na imprensa portuguesa mas no estrangeiro. Salazar ficou furioso – embora nada tivesse a ver diretamente com o assunto – porque dava uma imagem do regime que era o contrário do que eles queriam. Só há um mistério que não consigo resolver: é se Salazar teve relações físicas, sexuais, com essas paixões ou não. A ter tido terá sido com Christine Garnier, mas não consigo afirmar taxativamente que houve. É dos tais mistérios nunca esclarecidos. 

Se fosse outra figura possivelmente nem poríamos em dúvida. Mas tratando-se de Salazar talvez tenhamos dificuldade em imaginar...

Salazar sempre cultivou essa ambiguidade. As noites nunca eram passadas com uma possível amante.

Não dormiam no mesmo quarto?

Não. Fazia parte dos cuidados que ele tinha. E o facto de não dormir na mesma cama levanta essa pergunta: quando podia isso acontecer? Se não era de noite, era quando? No gabinete? É difícil acreditar. A ‘Micas’ – Maria da Conceição Rita –, que era a pupila de Salazar, diz que quando Christine Garnier o ia visitar ao forte de Santo António do Estoril, ele fazia uma coisa absolutamente excecional, que era fechar as portadas do escritório quando estava com ela. Ela dizia: ‘A partir daí podemos concluir qualquer coisa’. Mas o quê concretamente? Mistério. Se calhar nunca se saberá. A própria Christine Garnier publicou um livro de memórias em que fala muito das relações dela com Salazar mas não desvenda essa parte.

Diz aqui taxativamente que Mário Soares teve várias amantes. Deve ser a primeira pessoa a escrever isso.

Sim, publiquei uma biografia onde falo disso [Mário Soares – Uma Vida, ed. A Esfera dos Livros, 2013]. Na altura ele ficou furioso comigo, telefonou-me a dizer que me ia processar. Não porque fosse mentira, mas porque ele era um homem casado e eu estava a dar uma imagem negativa dele. Mas nunca me processou. As histórias várias das amantes de Mário Soares, tanto antes como depois do 25 de abril, são conhecidas, até de um meio alargado, a começar pelos colaboradores dele. Há por exemplo a história da amante que ele tinha antes do 25 de Abril, quando vivia em Paris, uma fotógrafa francesa. Quando veio para cá logo a seguir à revolução, tornou-se ministro dos Negócios Estrangeiros dos governos provisórios e continuou a ter relacionamento com essa senhora – aliás, nas viagens diplomáticas fazia escala em Paris com muita frequência, o que é uma coisa curiosa. E trocavam cartas. Ainda em 74, quando se dá o 28 de setembro – havia uma convocação de manifestação de apoio ao Spínola para esse dia, em Lisboa, que os militares do MFA diziam que era uma tentativa de golpe de Estado, e pensava-se que podia haver uma grande bagunça e que o poder podia mudar de mãos – o Mário Soares estava em viagem no estrangeiro, no Conselho da Europa, em Estrasburgo. E um dos assessores dele, à cautela, resolveu tirar todos os papéis dele e mandar-lhos para casa. Entre os vários papéis havia um lote de cartas dessa amante francesa. A Maria Barroso encontrou essas cartas e quando ele chegou, a 29 ou 30 de setembro, tiveram uma discussão terrível. Eu confirmei isso através do assessor que enviou os papéis para casa dele. O sobrinho de Soares, o Alfredo Barroso, também me disse: ‘A minha tia ia tendo um ataque de coração por causa disso’. Isso é uma história concreta. Há muitas.

E sabe-se quem eram as pessoas envolvidas?

Eu não publiquei nomes. No dia em que saiu essa biografia, Soares telefona-me ao fim da manhã. Eu tinha feito questão de que o primeiro livro a sair da editora fosse para ele, até com uma dedicatória, portanto pensei que ele me estava a telefonar a agradecer. Mas não. Estava furioso. ‘Como é que você se atreve a pôr isso?’ Tivemos uma conversa muito complicada, em que ele ameaçou processar-me. E disse: ‘Ainda por cima você publica o livro e nem mo envia!’. Repondi-lhe: ‘Até enviei. Deve estar a recebê-lo. Veja o livro primeiro e falamos outra vez’. Ao fim da tarde ele telefona-me já mais tranquilo. ‘Já tenho o livro. Fui ao índice remissivo e não vi lá nomes nenhuns’. A preocupação dele era que eu revelasse os nomes das amantes. Mas o que me interessava era falar das situações, não dos nomes. Ele é figura pública, mas as amantes não são figuras públicas, portanto acho que não tinha nada que estar a publicar os nomes delas – embora soubesse. Aí ele ficou mais descansado porque acho, aqui para nós, que no fundo o Mário Soares, à antiga portuguesa, fazia gala, tinha um certo orgulho nas conquistas femininas, portanto gostava que se soubesse que tinha conquistado muitas mulheres. É verdade, porque ele contava essas histórias entre os assessores na equipa dele no Palácio de Belém. Mas continuava ressentido comigo. Numa entrevista à RDP na altura disse que eu tinha feito muito mal aos netos dele. Enfim, a coisa passou. Isso das amantes de Mário Soares é indesmentível.

De Balsemão também conta um caso complicado, de um filho ilegítimo. Não se sentiu constrangido pelo facto de ser alguém que conhece bem, para quem trabalhou?

Estas situações são complicadas, mas eu sigo sempre aquele princípio do Aristóteles, que dizia: ‘Sou muito amigo de Platão, mas sou mais amigo da verdade’. Como jornalista de investigação sempre considerei que os meus trabalhos podiam incomodar pessoas das minhas relações. Portanto sempre estive preparado para isso. Se eu queria manter a isenção achava que devia publicar as coisas doesse a quem doesse. No fundo segui esse princípio no que respeita a Balsemão. Quando fiz a biografia de Balsemão, publicada há dois anos, consultei esse processo. A história é muito complicada. E eu não podia publicar uma biografia de Balsemão omitindo esse episódio. Neste livro, em que falo das relações entre o sexo e o poder, era natural que eu acabasse por recuperar essa história. Até porque há aqui uma questão sensível. Na primeira votação do projeto-lei sobre o aborto, Balsemão, como líder da AD, deu a diretiva para os deputados votarem contra, como votaram (só a Natália Correia é que votou a favor) –quando tinha tido uma prática contrária a isso. Havia uma contradição entre a prática privada do político e as intervenções públicas, como muitas vezes acontece.

O seu livro vem quase até à atualidade, chegando a José Sócrates. Quando refere certos aspetos íntimos relativos ao antigo primeiro-ministro, não está a entrar na devassa da vida privada?

Só publiquei a história de Sócrates – que se pode dizer que é devassa da vida privada, de facto – porque consta do processo judicial da operação Marquês. Esse processo tem uma questão muito delicada, porque representa uma invasão da vida privada de Sócrates e de outras pessoas que com ele conviveram. Simplesmente os investigadores acharam que era importante colocar essa informação – ainda que não toda, porque há muitas escutas telefónicas que nunca vieram a público.

Foram censuradas?

Foram mantidas reservadas, não estão sequer acessíveis a consulta, e acho muito bem.

Nunca as ouviu?

É impossível. Isso está fechado a sete chaves. Mas foram colocadas no processo aquelas que interessam para formar a acusação, aquelas que tinham que ver com a utilização de dinheiro. Dinheiro de origem supostamente ilícita, por causa das tais comissões, de casos de corrupção. Ele usou esse dinheiro, entre várias coisas, com mulheres. É por isso que essa informação acaba por constar do processo. E eu parti do princípio de que constando do processo, e tendo já terminado a fase do segredo de justiça, era legítimo usá-lo. A parte nova, que não está noutro livro, que escrevi com a Felícia Cabrita, é uma ida dele ao Brasil.

Em que telefona ao primo a pedir para lhe arranjar companhia.

Sim, a pedir companhia feminina, quando chega a S. Paulo. Essa parte não estava no livro, mas como estamos a falar de história libidinosa, achei que podia desenvolver um pouco mais.

Nesse campo, José Sócrates revela-se digno dos seus antecessores...

Exatamente. Há toda uma continuidade que vem do D. Afonso Henriques até José Sócrates. Já para não falar do que vem depois, porque também convém ter alguns limites. [risos]

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