11/12/19
 
 
Carlos Zorrinho 28/11/2019
Carlos Zorrinho
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Triangulações geopolíticas

É no alçapão entre palavras e ação que a geopolítica e a diplomacia se tornam fundamentais para construir pontes.

Entre 18 e 21 de novembro, em Kigali, Ruanda, copresidi aos trabalhos da 38.a Assembleia Parlamentar África, Caraíbas e Pacífico (ACP)/União Europeia (UE). Na ordem do dia estiveram todos os grandes debates da atualidade. A emergência climática e os seus impactos nas pescas e na aquacultura, as migrações, a segurança alimentar, o impacto das redes sociais na governação, no desenvolvimento, na democracia e na estabilidade, a participação das mulheres na resolução dos conflitos violentos, a qualificação e o envolvimento dos jovens na sociedade civil e na vida política e o apoio às micro, pequenas e médias empresas como forma de combater o desemprego e a pobreza são disso exemplo.

Com a presença de mais de uma centena de parlamentares e de especialistas de alto nível, do comissário europeu para a Cooperação Internacional e o Desenvolvimento e das presidências em exercício no Conselho da UE e dos ACP, os temas foram analisados em profundidade e deram origem a resoluções e recomendações muito pertinentes.

Ao longo dos trabalhos, perpassou por toda a assembleia a perceção de que o principal défice que o mundo em geral e os parceiros reunidos em particular enfrentam, face aos problemas identificados, não é de palavras ou medidas desenhadas no papel, mas sim de determinação e ação concretizadora.

É neste alçapão entre as palavras e a ação que a geopolítica e a diplomacia se tornam fundamentais para desatar os nós e construir pontes. Destaco dois desses nós, ambos “elefantes” presentes na sala da assembleia parlamentar, de que poucos falaram abertamente, mas quase todos tiveram em consideração nas suas intervenções.

Os ACP e a UE querem renovar a sua parceria para o desenvolvimento pós-Cotonu (o acordo de Cotonu caduca no primeiro trimestre de 2020, embora esteja já assegurada a sua prorrogação até ao final desse ano), ao mesmo tempo que a União Africana (UA) e a UE pretendem lançar, também no próximo ano, um acordo comercial e económico robusto. Muitos temem que estes dois movimentos se anulem ou prejudiquem mutuamente.

Contudo, as parcerias comerciais e económicas, se desenvolvidas com valores partilhados, são peças estruturantes de um conceito mais alargado de cooperação para o desenvolvimento sustentável. As duas dinâmicas podem potenciar-se mutuamente. É esse o caminho do sucesso.

O segundo paquiderme na sala foi a avaliação da forma como a UE se relaciona com os ACP em comparação com a China. A UE põe em cima da mesa condições baseadas em valores como o respeito do Estado de direito ou a salvaguarda dos direitos humanos e do planeta, para fechar as suas parcerias. A China, não. Em função disso, os ACP ficam perante um dilema. Seguem as facilidades da China ou mantém a cooperação já sedimentada, embora condicionada, com a UE?

Certamente explorarão as duas vias, mas se tiverem em conta os resultados a médio prazo e a possibilidade de também eles colocarem condições à UE, numa parceria entre iguais, talvez concluam que raramente o caminho mais fácil é o melhor e o que produz mais frutos.

 

Eurodeputado

 

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