11/12/19
 
 
António Cluny 26/11/2019
António Cluny

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Uma reflexão em jeito de balanço provisório

Importa não girar em torno do próprio fuso, evitando tomar posições firmes sobre os assuntos que interessam aos que nos incumbiram da missão que desempenhamos.

O regresso, nem que por pouco tempo, ao nosso país regala-nos, quase sempre, presentes que esperamos, umas vezes e outras não.

Quanto aos primeiros, falo, claramente, do convívio com a família, com os amigos, das conversas animadas, ou mesmo exaltadas, que travamos, da comida e dos vinhos que, com eles, repartimos como se fossem sempre novos, mesmo que lhes saibamos os ecos, os cheiros e os gostos que a memória preservou.

Certo é, também, que, à procura de cada um dos que antes nos rodeavam, corremos de afogadilho de um lugar para outro e que, no fim da estadia – sempre curta -, só desejamos, afinal, regressar aonde residimos, mesmo que mais isolados, mas também mais calmos.

Os segundos, são presentes que, como disse, não esperamos, e que tanto nos podem surpreender pela positiva, como pela negativa; o que, infelizmente, é mais vulgar.

Trate-se de notícias tristes sobre alguém que adoeceu, ou partiu, do confronto com velhas intrigas e renovadas deslealdades, ou, ainda, com o espetáculo das incongruências cívicas do costume, tudo parece ter ficado especialmente guardado para, quando chegamos, nos incomodar.

E tais presentes nem cansaço nos dão: só dão vontade de fugir, mesmo sabendo que, por estarmos ausentes, de muitos deles devemos cuidar até com mais empenho.

Apesar disso, de todas essas circunstâncias contraditórias, dolorosas, ou simplesmente ruidosas, revemo-nos mais nessa nossa terra buliçosa, do que nas asséticas reuniões que frequentamos e nas discussões que travamos no país onde agora vivemos, com pessoas que medem, sempre reservadas, todas as palavras e sinais, com medo não se sabe de quê, ou de quem.

E, porque esse ambiente neutral e aparentemente calmo nos vai moldando a nós também, convém que nos esforcemos por não perder de vista o sítio de onde viemos e a cultura em que fomos criados, pois, de outro modo, podemos tender a esquecer quem somos e aqueles a quem verdadeiramente devemos servir.

Importa, em suma, não girar em torno do próprio fuso, evitando tomar posições coerentes e firmes sobre os assuntos que interessam aos que nos incumbiram da missão que desempenhamos e procurando parecer sempre e sobretudo um bom e aplicado aluno dos outros.

A verdade é que esse outro mundo nos vai talhando mais do que pensamos e nós nos vamos acomodando a ele e que só o confronto com a realidade viva de onde viemos - muitas vezes, reconheça-se, mais limitada e menos polida, mas, ainda assim, mais compreensiva para connosco - nos pode dar a verdadeira imagem do que de nós foi feito.

Mas, dito isto, é também necessário saber aproveitar as fotos que tiramos às cenas que, fora, vemos e vamos vivendo, para as confrontar com os que deixámos no país, sejam eles familiares, amigos, colegas de trabalho, responsáveis políticos, dirigentes sociais, ou religiosos.

Sem deslumbramentos – afinal sempre provincianos – nem vontade de impressionar os outros com uma sabedoria que, afinal, mal penetrou na nossa cultura original e, tantas vezes, nem se adequa bem à realidade nacional, importa não guardar interesseira e egoisticamente para nós o que sabemos poder ser útil a todos os que ficaram na nossa terra e que são a justificação do que somos e fazemos fora.

E, no que aos outros - os de fora - diz respeito, provindo nós de um país já de si não muito grande, não convém dar dele, e de nós mesmos, uma imagem desnecessariamente pequenina.

Por vezes, é a nossa tendência para a pequenez – a nossa fraca estima – que projeta do nosso país, e de todos os que o constituem, uma imagem demasiado humilde, que na realidade não lhes corresponde.  

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