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Blade Runner em 2081

Blade Runner em 2081

Luís Oliveira e Silva 26/11/2019 10:19

Em 1981, Gerard O’Neill já mencionava o desafio das alterações climáticas e como os recursos necessariamente finitos terão como consequência obrigar a encontrar soluções para a questão da energia e o estabelecimento de bases espaciais.

A cena de abertura de Blade Runner, filme de 1982 de Ridley Scott, projeta-nos para o futuro que estamos a viver hoje, em novembro de 2019. Desde sempre que inúmeros autores e visionários, nas artes plásticas, no cinema, na literatura, na ciência e na tecnologia, tentam imaginar o futuro. Durante vários séculos, e até aos anos 60 do séc. xx, a física, apoiada pelas descobertas de Newton, parecia apoiar a ideia de um universo absolutamente previsível. A teoria do caos eliminou estes sonhos. Comparando as previsões do passado com o que de facto observamos, tudo indica que as evoluções científicas e tecnológicas do futuro ultrapassarão, e em muito, o que a nossa imaginação concebe agora.

Laplace, matemático francês, imaginava o universo como um relógio gigante. No seu Essai Philosophique sur les Probabilités, de 1814, conjeturou que se existisse uma “inteligência” com capacidade para calcular as trajetórias de todos os corpos, desde os maiores até aos átomos, todo o passado e todo o futuro poderiam ser conhecidos.

Hoje sabemos que as promessas de um universo absolutamente previsível são falsas. A teoria do caos, recorrendo aos mesmos computadores que forneceriam o poder desta inteligência omnisciente, demonstrou que ínfimas diferenças nas condições iniciais podem conduzir a caminhos exponencialmente divergentes, o que é bem sintetizado na metáfora da borboleta que agita as asas em Lisboa e desencadeia uma tempestade na China.

É claro que a ciência e as leis da física nos permitem fazer previsões sobre os mais diversos fenómenos, das escalas mais pequenas até à escala do universo, e assim prever a evolução de muitos sistemas. Continuamos a colocar satélites em órbita, enviamos pessoas para explorar outros planetas ou naves para fora do sistema solar com a mecânica de Newton. Mas também sabemos que muitos sistemas complexos, com muitos elementos ou não lineares como, por exemplo, os sistemas sociais ou um sistema de três planetas com massas muito próximas, confirmam a frase atribuída apocrifamente ao físico dinamarquês Niels Bohr, “it’s difficult to make predictions, especially about the future” ou o equivalente futebolístico “prognósticos, só no fim do jogo” [1].

Mas será que é impossível prever o futuro? Muitos autores já tentaram e tentam conceber o futuro, com diferentes níveis de sucesso. O meu preferido, embora também um dos mais obscuros futurólogos, é Gerard O’Neill, físico e professor da Universidade de Princeton. No seu livro 2081 [2], escrito em 1981, um ano antes da estreia de Blade Runner, estudou primeiro os profetas para definir aquilo que iria tentar prever e aquilo que não valeria a pena tentar prever.

Observou, em primeiro lugar, que os visionários sobre-estimam as transformações devido a alterações políticas e sociais e subestimam as forças com origem nas mudanças científicas e tecnológicas. A evolução social e política é sempre lenta; continuam e continuarão a existir guerras, ditaduras, sociedades fechadas, pobreza e desigualdade. Os avanços recentes nestas frentes são todos impressionantes, como muito bem demonstrado pelo médico e estatístico Hans Rosling [3], mas o progresso é sempre muito mais lento do que o antevisto.

O’Neill, da sua análise dos anteriores profetas, também concluiu que os cientistas sobre-estimam as probabilidades de avanços científicos significativos e subestimam os efeitos dos desenvolvimentos incrementais com base no conhecimento e na tecnologia existente. Identificou então o que considerou, na altura, serem os cinco motores da mudança para os 100 anos seguintes: computadores, automação, colónias espaciais, energia e comunicações. São precisamente os temas que já estão a moldar a nossa sociedade em 2019 e, muito provavelmente, continuarão a sê-lo nos próximos 60 anos. Em 1981, O’Neill já mencionava também o desafio das alterações climáticas e como os recursos necessariamente finitos terão como consequência imediata obrigar a encontrar soluções para a questão da energia e o estabelecimento de bases espaciais.

E aí teremos de sair da Terra e procurar outros destinos. Será de novo com a mecânica newtoniana que detetaremos os exoplanetas, tal como o Prémio Nobel da Física de 2019 [4], e os asteroides que nos vão fornecer os recursos para a nossa civilização. E será também com a mecânica de Newton que atingiremos os planetas mais próximos e aí iremos estabelecer o futuro da humanidade.

 

Professor catedrático do Departamento de Física

Presidente do conselho científico

Instituto Superior Técnico

web: http://web.tecnico.ulisboa.pt/luis.silva/

twitter: @luis_os

 

[1] http://media.rtp.pt/treze/frases-famosas/prognosticos-so-no-fim-do-jogo/

[2] https://en.wikipedia.org/wiki/2081:_A_Hopeful_View_of_the_Human_Future

[3] Ver uma das suas Ted Talks ou o livro póstumo “Factfulness: Ten Reasons We’re Wrong About the World – and Why Things Are Better Than You Think”, Hans Rosling et al, Flatiron Books, 2018

[4] https://www.nobelprize.org/prizes/physics/2019/summary/

 

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