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Vamos beber um copo de whisky ao final da tarde com os Ganso?
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Vamos beber um copo de whisky ao final da tarde com os Ganso?

Ganso Inês Reis e Isabel Theodora Hugo Geada 22/11/2019 17:03

Depois de um verão onde passaram pelo Paredes de Coura, os Ganso vão estar no Super Bock em Stock a mostrar o seu mais recente trabalho, Não Tarda, um álbum "mais realista" e com uma estética mais jazzística.

A primeira vez que fui ao Paredes de Coura foi em 2012”, recordou Thomas Oulman, baterista dos Ganso. “Fui com o Miguel [Barreira, actual baixista do conjunto] e numa tarde a olhar para o palco pensei: ‘um dia vou estar daquele lado’. No ano seguinte comprei uma bateria.” O desejo de Thomas viria a concretizar-se este ano, uma vez que os Ganso, após serem eleitos para substituir os norte-americanos Crumb, estrearam-se no festival, em agosto, e logo no palco principal. Um mês depois desse concerto (o maior até à data do conjunto de Lisboa) lançaram o seu segundo álbum, Não Tarda.

O grupo nasceu em 2015 fruto da insistência de Thomas, que durante dois anos procurou outros músicos para o ajudarem a cumprir a sua visão musical. A solução viria na forma de três amigos de infância. “Um dia encontrei-me com o Luís [Ricciard], o Vasco [Costa] e o Gil [Azinheira], somos amigos de infância, já nos conhecíamos do Liceu Francês. Apercebi-me que andavam a tocar juntos, juntei-me a eles, a coisa correu bem e começámos a ensaiar de uma forma mais regular.” Pouco tempo depois, encontrou João Sala. Já se conheciam dos tempos do Liceu Francês apesar de João ser três anos mais novo. Estava a aprender a tocar teclado. Thomas desafiou-o. Sala não só acabou por entrar na banda a tocar teclado como também se tornou no seu vocalista.

Foi com esta formação que o grupo viajou até Mogofores, freguesia de Aveiro onde reside uma importante influência dos Ganso, José Cid. Instalaram-se na casa de familiares de João e gravaram o primeiro EP, Costela Ofendida.

Desde o seu primeiro lançamento a banda aventurou-se por concertos de norte a sul do país, fizeram a primeira parte da lendária banda brasileira Os Mutantes e gravaram com José Cid uma reinterpretação de Portuguese Boys, lançada em 1989, “talvez a primeira música hip-hop a ser feita em Portugal”, diz Sala. “Deu para aprender algumas coisas, mas mais que isso ele é um homem que, com mais de 70 anos, tem um entusiasmo maior do que nós em fazer música, é de loucos”, confessa Miguel. “Para ele, era uma brincadeira fazer música com uma malta mais nova. Quando dávamos por nós eram 6 da manhã, quase a amanhecer, e estávamos a tomar o pequeno-almoço com o Cid enquanto ele contava piadas e comia um ovo cru. Dei por mim a pensar: ‘como é que é possível, o meu avô está na cama às 9 da noite, e o Zé Cid está aqui acordado connosco às 6 da manhã cheio de energia e eu com uma vontade enorme de ir dormir’”.

O amadurecimento da banda é notável neste novo álbum. Pondo um pouco de parte as influências do rock psicadélico de Costela Ofendida e a “urgência” de Pá Pá Pá, disco de estreia, os Ganso apresentam-se como uma banda que aprendeu que por vezes menos é mais, a respeitar o silêncio e a deixar as suas músicas respirar. “O processo de criação aconteceu de forma natural. Não pensámos: ‘somos uma banda de rock psicadélico’,” explica Oulman, que citou Badbadnotgood, jovem banda canadiana de jazz instrumental, como uma influência para o ambiente soturno e jazzístico do disco.

Não Tarda não foi pensado como um disco temático ou concetual”, explica por sua vez Miguel Barreira, guitarrista. “A nossa ideia foi criar uma estética baseada no final de tarde em Lisboa.” O primeiro single, Não Te Aborreças, é o exemplo perfeito desta descrição com umas belas melodias de piano a acompanhar a voz rouca de João Sala, podemos não estar perante nenhuns instrumentistas do nível de John Coltrane ou de Miles Davis, mas sentimos que podiam ser ouvidos no mesmo tipo de espaços. A capa do single, que mostra duas figuras em torno de um piano no que aparenta ser um clube noturno enquanto uma delas toca piano e a outra bebe um copo de vinho, ilustram bem o espírito que os lisboetas querem transmitir e ainda deixam o ouvinte a salivar por um copo de Jack Daniels com duas pedras de gelo. Mais do que um disco onde se destaca a técnica, este é um disco de sensações.

“O novo álbum é completamente diferente”, confessa Sala. “Já não há personagens, é mais à base de cenários e de assuntos palpáveis que podemos ver à nossa frente se for preciso. Há um certo nível de realismo”, algo evidente na música Os Meus Vizinhos, uma das poucas faixas que ainda conserva o humor da banda e que utiliza como cenário uma quinta e a disputa entre vizinhos para discutir a sua visão de como Portugal é encarado pelos países estrangeiros.

Apesar do lançamento de Não Tarda, a banda garante que já existem ideias para o seu sucessor e é neste registo sonoro que pretendem continuar. “Não sei se vai haver mais uma mudança de som, provavelmente, o próximo disco vai ser mais parecido a este do que ao anterior” confidencia Sala. “Vai seguir uma linha lógica, não vamos dar um passo atrás”, diz Miguel Barreira. Confiança e otimismo é o que parece reinar no seio do grupo. “Queremos mais” confessa Thomas. “Mais palcos e se surgir oportunidade de cruzar fronteiras… é o sonho de qualquer músico ir tocar ao jardim do vizinho” admite entre risos.

Agora, dois meses depois do lançamento de Não Tarda, os Ganso fazem parte da selecção nacional que vão estar presentes no festival Super Bock em Stock, em Lisboa. Vão atuar hoje, 22 de novembro, às 23h45, na Estação Ferroviária do Rossio, no mesmo dia em que o cabeça de cartaz  Michael Kiwanuka, autor do álbum Kiwanuka, um dos álbuns mais bem recebidos de 2019, se vai apresentar no Coliseu dos Recreios. O evento continua no sábado com dezenas de atuações, nomeadamente, como os Viagra Boys, Curtis Harding, Helado Negro e artistas portugueses como Slow J, Bruno de Seda ou Baleia Baleia Baleia.

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