14/12/19
 
 
19 de novembro de 1956. Do alto do penedo mandaram lixar Napoleão

19 de novembro de 1956. Do alto do penedo mandaram lixar Napoleão

Afonso De Melo 20/11/2019 21:52

Era altura para recordar que, por muito pouco, Itália e São Marino não entraram numa guerra incompreensível e absurda. E que o orgulho dos são-marinenses ia para além da vontade de reis e imperadores: tinham o sentido da república.

São Marino: eis um país fascinante. Espetado como um pionés no meio da península da bota como os velhos reinos ou cidades-estados da Renascença. Com uma diferença tremenda: é uma república. Muito provavelmente, até que alguém prove o contrário, a república mais antiga do mundo.

Visto de longe, é apenas um penedo com um castelo a servir de chapéu. Sem mais nem porquê, em novembro de 1956, os jornais portugueses resolveram prestar atenção a São Marino. Deram-lhe espaço, compraram material às agências internacionais. Publicaram-se textos tão inflamados que meteram pelo meio, imaginem!, as coxas da Sophia Loren. As coxas? E eu que pensava que Sophia tinha atrativos bem mais fortes. Pouco importa. Cada um trabalha com a gasolina que o cérebro lhe fornece. “São Marino, latitude 43o 56’ 04’’; longitude 12o 26’ 56’’, entre as mui nobres províncias italianas de Pesaro e Forli”. Está apresentado o minúsculo país. Ou talvez não.

Vamos aos factos que traziam de volta São Marino à superfície da sua vida sonolenta. Em 1951, já a ii Guerra Mundial ia entrando nos labirintos do olvido, Itália e São Marino estiveram à beira de uma guerra tão estranha como incompreensível. Motivo: um bloqueio. A grande Itália fechara as linhas de caminho-de-ferro para o pequenino monte Titano, com os seus 750 metros de altitude. Ou, neste caso, será altura? Enfim, os são-marinenses enfuriaram-se. Gostam de viver tranquilos lá no seu pedacinho de terra, tão seu, e agora traziam-lhes chatices até à porta. Não! Não estavam para aí virados.

Para chegar a São Marino de comboio é preciso parar em Falconaro, a última estação italiana. Depois, mudamos de país. Os vagões, geralmente, vão cheios. O pequenino país atrai gente. Atrai muita gente. Malta de todas as espécies em busca de um pedacinho de Disneylândia, mas autêntica. Só que o castelo não tem príncipes nem princesas, nem marqueses nem duques. A atitude diferencia-os profundamente da Itália que os rodeia: isto é uma República. Com letra maiúscula.

 

País da bondade

“Cheguei a um país que tem 1650 anos de existência!”, escrevia um correspondente internacional, publicado em diversos jornais de todo o mundo. “Só isso faz com que esteja num lugar absolutamente único!” Tinha razão. “Nós somos o país da bondade!”, disse-lhe o primeiro local com quem se cruzou. “Não somos nem italianos nem turistas. Somos de São Marino. E com um orgulho muito profundo!” O nosso enviado especial estava pasmado. Entrara no país como se tivesse entrado numa das muitas cidades italianas pelas quais passou durante o caminho e encontrava um espírito rebelde. “Temi a revolta! Ver, ondulado e bipartido, horizontalmente, com o escudo das três torres dos seus baluartes altaneiros, encimados pela pena da águia da liberdade secular, o estandarte da pequena república montanhesa tocou-me no fundo da alma”.

Diz-se que Napoleão Bonaparte, sentindo que não devia gastar material militar em São Marino, tentou comprar o local à custa de pechisbeque. Enviou, por isso, um representante, um sábio de nome Gaspar Monge, para agraciar os são-marinenses. Foi recebido pelo capitão-regente, Antonio Onofrio, com toda a educação e requinte. Mas ouviu a resposta que nunca esperou: “Somos um país pequeno, mas digno. Queremos continuar assim. Não nos ofereçam riquezas porque só a pobreza poderá conservar-nos, pelos séculos que virão, a nossa independência”.

São Marino tinha um orgulho maior do que Napoleão, conquistador do Egito. Não se vendeu; não se rendeu. Napoleão desistiu. O país da bondade continuou dono de si próprio.

Catorze mil pessoas habitavam São Marino em 1956. “Esta é boa!”, escrevia o enviado especial. “Nem passaporte nos pedem para entrar em São Marino. É como se abrissem as portas do céu sem um São Pedro de chaves em punho. À minha volta tenho velhos camponeses, de rostos sorridentes, enrugados como a face da terra. Ali, no cimo do bélico penedo, eram como invencíveis titãs. Metros adiante, uma larga tira de pano sobre a estrada dá as boas-vindas aos forasteiros: Benvenuti nel’antica terra della libertà. Os operários saudavam-nos e as crianças corriam em direcção ao veículo lançando-nos flores. Uma junta de bois brancos, enormes como búfalos, lavrava pachorrentamente os socalcos e havia delicados vergéis entre jovens ciprestes de imóvel sombra verde. Pomos rúbeos entregues à gula dos pardais que me pareceram mais ladinos naquela pequena e liberal república”.

São Marino centro de romantismo? De palavras suaves e penetrantes? E porque não? No alto da montanha íngreme e rochosa, o castelo exibe a independência e a vontade de ser livre. A partir daí, a imaginação de cada um toma conta das ruas estreitas e de todas as construções que fazem dessa cidade e país ao mesmo tempo um lugar ao qual precisamos de ir um dia na vida, nem que seja a correr, para sentir o espírito de uma paz que deixou há muito de existir na Europa de todos os excessos.

Dizer não à fortuna de Napoleão é de gente com caráter. Como se lhe dissessem: vem e conquista-nos, se és capaz. Pelos vistos, o grande corso não foi. Não esteve para correr riscos. Havia orgulhos maiores do que o dele.

 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×