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Argentina Santos. Uma das últimas divas do “fado castiço”

Argentina Santos. Uma das últimas divas do “fado castiço”

Gonçalo Fernandes Santos Hugo Geada 19/11/2019 08:46

Autora de fados como Chico da Mouraria ou Lisboa Casta Princesa, Argentina Santos morreu ontem, aos 95 anos, deixando um legado que a eleva a uma das melhores fadistas da sua geração.

O estilo interpretativo de Argentina Santos é descrito pela Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX (2010) como de “uma expressividade intensa” que construía “através da ornamentação, da acentuação, da introdução de suspensões longas nas palavras-chave que [preenchia] com melismas cantados em pianíssimo, sobretudo no registo agudo”. Por muito metódicas que sejam estas descrições, não têm o poder de explicar o efeito desarmante que a voz singular da fadista tem em quem a ouve.

Maria Argentina Pinto dos Santos, uma das últimas divas do fado castiço (fado tradicional dos bairros típicos de Lisboa), morreu ontem, aos 95 anos, e deixa um legado que a situa entre as mais importantes fadistas portuguesas e que não só a levou a pisar alguns dos mais importantes palcos lusitanos, mas também a concertos por toda a Europa e América do Sul.

Nasceu a 6 de fevereiro de 1924 no bairro lisboeta da Mouraria e, ao contrário de muitas fadistas da mesma geração, Argentina começou a cantar numa idade mais avançada, algo que aconteceu de forma acidental e inesperada. “Nunca pensei vir a cantar”, confessou em entrevista ao Portal do Fado. “Foi uma vida de trabalho. Fazia aquilo que me mandavam fazer, o que eu podia fazer. Lavar a loiça, arrumar uma casa, pôr as coisas nos seus lugares. Eu passava mal”.

Trabalhou desde os oito anos e, como não frequentou a escola, foi analfabeta até aos 18. Mas tudo mudaria quando começou a trabalhar como cozinheira no restaurante A Parreirinha de Alfama, onde uma vez, na década de 1950, numa tertúlia, lhe pediram para cantar e entrou numa desgarrada “por mero acaso”, como contou numa entrevista à agência Lusa. O seu estilo muito pessoal de cantar, forte e autêntico, logo prendeu as atenções dos críticos e do público, cotando-a como uma das maiores promessas musicais da época.

Foi apenas depois de dois casamentos em que ambos os maridos desaprovavam a paixão pela música de Argentina Santos, que enviuvou duas vezes, que realmente viu a sua carreira começar a florescer.

Em 1950, começou a dirigir A Parreirinha de Alfama (viria a tornar-se proprietária deste espaço em 1963) e transformou-a oficialmente numa casa de fados. Neste espaço, que ainda hoje é considerado como uma das casas de fado de referência de Lisboa e serviu de “rampa de lançamento” de inúmeros fadistas, como Alfredo Marceneiro, Fernanda Maria, Berta Cardoso, Maria da Fé, Celeste Rodrigues ou Lucília do Carmo, mãe de Carlos do Carmo, Argentina viria a cantar regularmente (mas apenas depois de os turistas saírem, confessou ao jornal Público em 2000).
“Além da grande fadista de referência, é uma enorme mulher que triunfou sem pisar ninguém”, disse o fadista que no passado dia 9 de novembro se despediu dos palcos. 

Foi um pouco graças a Carlos do Carmo, amigo de longa data da fadista, que o grande público se enamorou de Argentina, depois da sua participação, como convidada, no espetáculo do intérprete de Lisboa Menina e Moça em 1994, no Centro Cultural de Belém.

Apesar de vários discos gravados, de ter protagonizado o espetáculo Cabelo Branco é Saudade (2005), de Ricardo Pais, com o qual atuou em vários palcos europeus, e de ter participado no Festival de Edimburgo, numa das entrevistas que deu à Lusa, a fadista afirmou que gostava mais de cozinhar do que de cantar.

O investigador de fado Luís de Castro, que foi cliente “mais de 50 anos d’A Parreirinha”, e amigo da fadista, realçou à agência a “excelente gastronomia portuguesa à qual ela dava sempre um toque especial”. Ao nome de Argentina Santos ficam associados fados como Chico da Mouraria, A Minha Pronúncia, As Duas Santas, Juras, Chafariz d’El Rei, Lisboa Casta Princesa, Passeio Fadista, Praga, História de Uma Velhinha, Coração Não Batas Tanto ou As Minhas Horas. 

Desde o início do presente século, a fadista foi alvo de inúmeras homenagens. Em 2004 foi-lhe dedicada uma festa de homenagem no Coliseu dos Recreios. É patrona da Academia do Fado de Recanati, na Itália, inaugurada pela própria. Em 2005 foi galardoada com o Prémio Carreira nos Prémios Amália Rodrigues, da Fundação Amália Rodrigues. 
Em fevereiro de 2010, uma exposição realizada no Museu do Fado tomou como título Argentina Santos – Não sei se Canto se Rezo. Nesse evento, Carlos do Carmo descreveu à Lusa “um contraste no canto da Argentina Santos entre o pregão e a reza. Em dois, três versos existe um pregão que só é de Lisboa, e depois, em absoluto contraste logo a seguir, existe um recolhimento, uma contenção, que parece uma reza”.

A 27 de novembro de 2013 foi condecorada pelo então Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, com a comenda da Ordem do Infante.

A despedida oficial dos palcos da fadista aconteceu em abril de 2015, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, com o espetáculo Gosto da Parreirinha. No entanto, antes de pisar pela última vez um palco já tinha encantado o Queen Elizabeth Hall, em Londres, a Catedral de Marselha e La Cité de La Musique, em Paris.

O velório de Argentina Santos realizou-se na Basílica da Estrela, em Lisboa, onde será rezada hoje missa de sufrágio, pelas 15h00, saindo o funeral para o Cemitério de Carnaxide, Oeiras.

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