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O caos dos transportes públicos

O caos dos transportes públicos

Rita Pereira Carvalho 17/11/2019 09:29

Os novos passes trouxeram alívio para a carteira, mas também mais chatices dentro dos transportes públicos. As horas de ponta são o pior período e há quem precise de esperar uma hora para apanhar o comboio. Os minutos na Carris são intermináveis e no metro não entram todos de uma vez. 

Os transportes públicos nem sempre são para todos – há alturas do dia em que os lisboetas acabam por bater com o nariz na porta do autocarro por este já estar cheio. Solução: esperar mais uns 20 minutos pelo próximo. “Se fizer as contas ao tempo que perco em autocarros e metro, no final do mês são cerca de 20 horas, é quase um dia por mês só à espera”, diz Luís, um dos utilizadores dos transportes públicos da rede de Lisboa. 

Luís só usa o autocarro e o metro, mas mesmo assim conta que entre autocarros que afinal não passam, carreiras atrasadas, tempos de espera no metro que ultrapassam os oito minutos ou sobrelotação dos veículos, gasta mais tempo do que imagina quando acorda, tanto na viagem de ida para o trabalho como no regresso. “Se adormecer, já saio da cama a pensar que autocarro posso apanhar para ser mais rápido, ou a pensar que vou chegar outra vez atrasado ao trabalho”, conta. 

O silêncio nas paragens de autocarro e nas plataformas do metro ou do comboio só é normalmente quebrado quando alguém reclama e outra pessoa se apressa a concordar. Aí, a conversa instala-se e as queixas são unânimes: “Realmente, já passaram dois 706 e nada do 15, é sempre a mesma história”, dizem no Cais do Sodré.  

“As condições dos autocarros são más, mas o tempo de espera é o que mais irrita, e ali as máquinas que dizem o tempo estão sempre de férias, nunca funcionam”, acrescenta uma das passageiras que acabam de sair do barco. 

Há ainda outra questão que Inês, de 24 anos, referiu ao i: “Nas horas de ponta é impossível pessoas com mobilidade reduzida deslocarem-se de transportes públicos”. “Simplesmente não cabem, com os autocarros cheios, e no metro, na maioria das estações, não há acessos sequer, portanto nem andam de metro. Mesmo que quisessem, não podiam”, acrescenta.

Comboios “parecem o Bangladesh” de manhã Salta-se de um autocarro ou do metro para o comboio, mas o tema mantém-se. Há uma semana, Duarte esperou uma hora por um comboio da Linha de Sintra que não estivesse cheio. “Só consegui entrar no terceiro comboio que passou e só mexia mesmo os olhos. Acho que assim, só na Índia”, descreveu o jovem de 27 anos, acrescentando que é assim todas as semanas. O percurso que faz é sempre o mesmo: entra na estação da Amadora, apanha a Linha de Sintra e sai na estação do Oriente. “Não cumprir horários e comboios suprimidos é aos pontapés”, diz. 

Quem utiliza a Comboios de Portugal (CP) tem muitas queixas a fazer, mas os atrasos constantes e a sobrelotação das carruagens, sobretudo durante o período da manhã, deixam os utilizadores “desesperados”. “De manhã, o comboio da Linha de Sintra é capaz de fazer lembrar o Bangladesh”, refere Duarte. E acrescenta que sempre foi assim, “basta suprimirem um comboio para ficar de loucos”. 

No Portal da Queixa, as críticas relativas à CP na zona de Lisboa são em maior número este ano: 257 queixas até ao dia 12 de novembro, enquanto em 2018 se registaram 233 queixas no mesmo período, segundo dados enviados ao i. Supressão de comboios, horários que não são cumpridos e sobrelotação de carruagens são as principais falhas que os utilizadores apontam. 

Além disso, há quem descreva outra desvantagem dos transportes públicos que envolve a CP e os autocarros. “Não há coordenação entre os autocarros e os comboios. Por exemplo, eu saio do autocarro na Cruz Quebrada e assim que saio estou a ver o comboio a ir embora. É por um minuto que não consigo apanhar, é sempre assim, e depois tenho de esperar 15 minutos. Acho que se houvesse coordenação entre os transportes, isto funcionava melhor, porque havia menos gente à espera e os transportes não andavam tão cheios”, diz um passageiro da CP e dos autocarros. 

Férias escolares tramam quem trabalha A azáfama é tanta no Campo Grande que até parece dia de jogo do Sporting no Estádio de Alvalade. Mas não é: trata-se de um dia de semana, hora de ponta, onde chegam pessoas da zona de Mafra ou de Torres Vedras para apanhar um autocarro ou o metro para o emprego. A confusão instala-se. As pessoas correm e quase atropelam as pequenas bancas das Testemunhas de Jeová. “Não tenho tempo, estou atrasado” é a frase que mais se ouve por ali. 

Mas quem espera pelos autocarros da Carris tem, geralmente, mais tempo. Conceição Figueiredo espera pelo 798, que liga o Campo Grande às Galinheiras, freguesia de Santa Clara. Aos fins de semana e feriados, esta carreira não funciona, mas o que mexe mais com a vida das pessoas é o facto de a Carris suprimir horários em período de férias escolares. “Além de às vezes o autocarro não passar, acho que o pior são as férias dos miúdos. Este autocarro nem leva miúdos e nas férias [quer de verão, quer de Natal e Páscoa] há menos autocarros, e isso é que não faz sentido nenhum”, diz Conceição. 

Ainda no Campo Grande, os autocarros que chegam vindos da zona de Mafra trazem pessoas visivelmente chateadas. “O problema nem é aqui, é mesmo antes de entrar no autocarro”, diz quem faz o percurso Mafra-Lisboa diariamente. “O que se passa todos os dias é que as filas são gigantes e há poucos autocarros. As pessoas que estão na fila não entram todas de uma vez, é preciso ficar à espera”. 

Esta é uma das consequências do aumento de 150 mil passageiros em toda a Área Metropolitana de Lisboa (AML), em apenas um ano. Aliás, neste momento, Mafra, Montijo, Setúbal e Palmela foram os concelhos onde se registou um crescimento mais significativo e onde as empresas têm apresentado mais dificuldades em responder ao aumento da procura – potenciada pelos novos passes, que são mais baratos e abarcam toda a AML. Em Mafra, os utilizadores já assinaram uma petição pública para exigir mais transportes públicos entre Mafra e Lisboa e lembram que “o número de autocarros é o mesmo que em 2018”. 

Motoristas exaustos Autocarro atrasado. De quem é a culpa? “Da primeira pessoa que veem quando entram no autocarro, que é o motorista”, relata um funcionário que há 15 anos conduz autocarros da Carris. Tenta ser simpático, mas depois de ouvir tantas vezes as mesmas críticas, a resposta pode não ser tão boa de ouvir. “Às vezes nem respondo, mas há pessoas muito mal-educadas e parece que gostam de chatear quem está a trabalhar. Acha que atraso as pessoas de propósito?”

Fazer o mesmo percurso todos os dias, várias vezes por dia, cruzar-se com as mesmas pessoas, ouvir queixas alheias ao seu trabalho e, muitas vezes, impossíveis de controlar é só um dia normal dos condutores dos autocarros da Carris. 
O autocarro 767, que liga o Campo Mártires da Pátria à Reboleira, é alvo de muitas queixas por parte dos utilizadores. “Odeio a Carris – é a expressão que uso mais vezes”, diz Carolina, que anda no 767 todos os dias para ir trabalhar.

“Nesta paragem nem sequer há o mostrador do tempo, mando mensagem, diz que demora seis minutos, mas os minutos na Carris são diferentes dos nossos. Eles dizem seis, mas na verdade são dez. E quando chega, atrasado e fora de horas, vêm dois”, acrescenta Carolina, que vai até ao metro de Telheiras. Normalmente, o trânsito é tanto que demora cerca de 20 minutos para percorrer um quilómetro. 

Nestas alturas, a jovem confessa que tem vontade de chamar nomes ao motorista, mas sabe que ele não tem culpa: “Afinal, há trânsito, e isso ninguém consegue controlar”. Um dos motoristas desta carreira fala exatamente disso e explica que os atrasos constantes dos autocarros se devem, em grande parte, ao trânsito: “As pessoas acham que temos culpa, mas não podemos passar por cima de ninguém. Depois acontece isto, chegam dois autocarros ao mesmo tempo, isso acontece muitas vezes”. 

À semelhança daquilo que acontece na CP, o número de denúncias registadas no Portal da Queixa sobre o metro e a Carris também aumentou no último ano. Em relação ao Metro de Lisboa, o número de queixas feitas online este ano já ultrapassou o número total do ano passado – 145 queixas desde o início do ano até ao dia 12 de novembro, comparando com 141 queixas durante o ano de 2018. Já na Carris, as queixas registadas este ano são 256, mais 52 do que no período homólogo de 2018 (204). 

A receita para o caos nos transportes públicos parece estar dada: supressão de carreiras, tempos de espera elevados e sobrelotação – assim está a capital. 

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