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Karōshi. Até ao dia em que acabarmos todos

Karōshi. Até ao dia em que acabarmos todos

Filipe Ferreira Cláudia Sobral 15/11/2019 21:55

A partir da palavra japonesa que define a morte por excesso de trabalho, o Teatro da Cidade leva ao Teatro Nacional D. Maria II um espetáculo em que questiona a forma como nos relacionamos com o trabalho.

O Bob acabou. Acabou o trabalho? É que, por dois terços de Karochi, é tudo o que havemos de o ver a fazer, de costas, a uma secretária. Mas não. Não foi o trabalho que Bob acabou, mas o trabalho que acabou com ele. Incerto, pouco claro será o que sucede a esse protagonista da nova criação do Teatro da Cidade, em cena na Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, até 24 de novembro, a partir do momento em que “acaba”. A morte? Um burnout? Um “adeus, vou ali ter uma vida mas já não volto”? Não sabemos nem saberemos, e a verdade é que não importa.

Importa esse momento em que Bob, depois de uma ou outra leve, muito leve ameaça de que algo poderá já não estar bem exatamente como antes, se levanta da cadeira que noutro tempo não largaria nem para ir à casa de banho nem para dormir, na verdade, afinal era o tempo em que 20 minutos de descanso pareciam sono de sobra. E vamos ao karochi: “Karochi é uma palavra japonesa que, traduzida literalmente para português, quer dizer morte por excesso de trabalho”, diz Guilherme Gomes, que interpreta Bob e um dos cocriadores do espetáculo. “A palavra apareceu numa viagem de autocarro, através de um amigo nosso. E o surgir da palavra e do conceito que ela carrega naquele contexto em particular fez acender uma espécie de luz nas nossas cabeças. De repente, pareceu-nos urgente fazer qualquer coisa em torno disso”. Não necessariamente da morte por excesso de trabalho, mas da forma como nos relacionamos com ele.

E se não importa o que sucede a Bob no final, importará, e muito, o gesto com que – por uma qualquer razão incompreensível num escritório tão estéril quanto se imaginar um escritório forrado a folha de alumínio, sem tapetes, sem plantas, unicamente com o ambiente sonoro e de iluminação certo para a melhor concentração possível a cada momento, a cada tarefa – Bob se levanta, para dar com uma inesperada planta, brotada do chão.

Caso para preocupação da equipa contratada para o servir na criação das condições ideais para a máxima produtividade possível – um designer de som (João Reixa), uma designer de luz (Rita Cabaço), responsável pela substituição do dia pela noite e da noite pelo dia, uma funcionária de manutenção (Nídia Roque) e a manutenção é a de Bob, entenda-se – mas sobretudo de um homem das limpezas (Bernardo Souto). Que, de onde vem um, virão outros, e imagine-se uma sala de alumínio tornada mato por um tapete de trevos.

A planta é um trevo. “Um, dois três”, de três folhas. “Nunca são para nós os de quatro”, dirá um deles. Mas Bob não consegue compreender o fenómeno “contra todas as expectativas” que é o nascimento de um trevo do metal e do cimento – como parece não compreender nada do que esteve para trás, de resto: “Parece me uma violência muito grande exigir mais de onde mais não há”, dirá antes de anunciar o seu destino – “viver, viver intensamente, viver como um rio nasce, viver como quem morde o tempo sem deixar um resto que seja” e depois morrer, mas “morrer porque viver já não é suportável” – e desaparecer sem que se saiba bem para onde. No final, alguém implorará para que se volte ao trabalho, mesmo sem Bob, mesmo sem propósito. Mas já não há Bob e, contra tudo, nasceu um trevo. “Com o tempo, o chão desta sala é um tapete de trevos. Com o tempo, podemos imaginar que um dia talvez nasça um de quatro folhas”.

 

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