24/9/20
 
 
José Paulo do Carmo 15/11/2019
José Paulo do Carmo

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Ditadura do politicamente correto

 Em cada pessoa, movimento ou instituição parece existir uma pequena PIDE, pronta a denunciar e a destruir a vida de alguém só por não pensar da mesma forma ou por seguir regras que, de tão rígidas, se tornam quadradas. 

Hoje em dia, o melhor que podemos fazer é ficarmos calados a maior parte do tempo. Por vários motivos. Não nos prestamos a que contestem as nossas opiniões de forma estúpida, não somos alvos de gozo ou chacota, não nos metemos em problemas com os fundamentalistas do teclado e preservamos as nossas ideias para a concretização dos nossos objetivos sem dar o “ouro ao bandido”. Esta sociedade tornou-se tudo aquilo que é contrário ao que sempre defendeu e, por vezes, por que lutou. Em cada pessoa, movimento ou instituição parece existir uma pequena PIDE, pronta a denunciar e a destruir a vida de alguém só por não pensar da mesma forma ou por seguir regras que, de tão rígidas, se tornam quadradas. Não há sensibilidade para analisar e entender cada caso. Mete-se tudo no mesmo saco, sempre em prol da satisfação e fama própria.

Na realidade, do oito passámos para o 80 e, enquanto em tempos idos a defesa de muitos valores e princípios de igualdade foi assegurada por movimentos que deram voz aos mais fracos e oprimidos, agora parece que a maior parte deles servem apenas como instrumentos para uso pessoal, para conquistar ganhos futuros e obter benefícios diretos ou indiretos por defenderem determinada situação. São tantos que à mínima coisa se acotovelam com comunicados para ver quem fica com os créditos do politicamente correto. Não dá para brincar com coisa alguma, não podemos partilhar nada com os amigos nem rir disto ou daquilo: somos logo acusados de um rol de alarvidades, como se fôssemos alguns criminosos. E muitos destes exageros são feitos através de uma juventude que acha ter superioridade moral em relação aos seus pais e que tem em si as soluções para todos os problemas do mundo.

A verdade é que todos os dias, quando andamos na rua, passamos por uma quantidade enorme de hipócritas que são capazes de se manifestar contra uma série de coisas, mas fazem a toda a hora pior em casa. Defendem o que não praticam e praticam o que não defendem. E assim vamos caminhando, espartilhados entre o que não podemos dizer e o que sabemos que vai ter sucesso – e que as pessoas querem ouvir. Em 40 anos, passámos da conquista de liberdades para regressarmos à proibição de quase tudo. Desde a carne de vaca ao foie gras, não se pode comer nada, somos todos Greta Thunberg, mas basta uma rápida olhadela às dispensas de alguns para percebermos que é só fachada para ficarem bem na fotografia. O próprio Bernardo Silva foi castigado por brincar com um colega de equipa, que veio dizer que não passou de uma brincadeira e que não se sentira minimamente ofendido, mas lá vieram os do costume sentir o que o próprio não sentiu. Isto quando Bernardo Silva havia sido alvo de uma brincadeira anterior sobre a sua altura e as roupas que vestia. Só que isso já não vende tanto; por isso, já não é considerado discriminação.

Não dá para comentar nada sobre animais que somos logo atacados. Se dizemos que gostamos de um bifinho levamos logo com as caras de reprovação. E se usamos termos carinhosos com amigos nossos que sejam homossexuais, de outra cor ou sexo, podemos ser julgados – não por eles, mas por outros – como racistas, homofóbicos, machistas e preconceituosos. Querem proibir tudo e mais alguma coisa e falam de democracia, mas são a antítese do seu conceito. Só aceitam funcionar sob as suas regras e não admitem opiniões diferentes, que são logo catalogadas de fascistas ou extremistas. Vivemos num tempo do fundamentalismo dos politicamente corretos que agem conforme o que acham que vai parecer bem, e não com o que pensam. Uma ditadura que nos põe em perigo cada vez que abrimos a boca. Tornámo-nos uns chatos e uns pudicos.

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