11/12/19
 
 
Manuel Jorge Veloso. Jazz total

Manuel Jorge Veloso. Jazz total

DR Mariana Madrinha 14/11/2019 10:08

Manuel Jorge Veloso, um dos grandes do jazz em Portugal, morreu ontem, aos 82 anos. Deixa um legado movido a paixão, iniciado numa altura em que a “consciência da música improvisada era muito negativa”.

Baterista. Divulgador. Programador. Crítico. Autor e produtor de rádio. E de televisão. Fundador do Quarteto do Hot Clube de Portugal. Um dos, aliás. Músico. Professor. Articulista. Os chapéus usados por Manuel Jorge Veloso sucedem-se, colam-se uns nos outros e uns sobre os outros, leem-se ao som dos riffs. Todos jorram da mesma fonte, têm uma só génese: a paixão pelo jazz. Essa paixão a que se devotou permanecerá eterna das mais variadas formas – lá iremos. Mas Manuel Jorge Veloso não lhes juntará mais nenhum capítulo. Morreu ontem, em Lisboa, aos 82 anos, vítima de doença oncológica.

Qual foi o contributo de Manuel Jorge Veloso para a história do jazz em Portugal? A resposta de José (Jazzé) Duarte chega curta e pronta do outro lado do telefone: “Foi total”. Para lhe traçar um perfil condigno, continua José Duarte, nome incontornável do jazz em Portugal e autor do mais antigo programa radiofónico por cá feito – Cinco Minutos de Jazz (que se mantém no ar desde fevereiro de 1966) –, seria preciso uma tarde com mais horas do que aquelas que a tarde tem. Por isso, José Duarte prefere a força da síntese, para dizer apenas que “Manuel Jorge Veloso lutou pela liberdade e pela aceitação do jazz”. Aqui e lá fora.

Manuel Jorge Veloso nasceu em Lisboa, em 1937. Formou-se em música clássica, mas começou muito cedo a preferir o caminho sem caminho do jazz. Sentou-se à bateria e assim começou a abrir o mundo. “Na altura em que começou a tocar foi um dos primeiros músicos não profissionais a fazê-lo – também fazia outras coisas, rádio e por aí fora. Foi o primeiro ‘melhor músico’ de jazz português, o que não era fácil porque não havia formação, não havia escola”, nota o saxofonista e compositor Carlos Martins. “Era um tipo que conseguia tirar as músicas dos discos. Acima de tudo, era uma pessoa inspirada e com uma grande paixão pelo jazz”, define.

Na passagem dos anos 50 para os 60 foi então um dos fundadores do Quarteto do Hot Clube de Portugal, ao lado de Jean-Pierre Gebler, Justiniano Canelhas e Bernardo Moreira. Levaram o jazz em atuações um pouco por todo o país e foram o primeiro grupo português a participar num festival internacional de jazz: o Comblain-la-Tour, na Bélgica, em 1962. Voltaram a reunir-se em 2010, já sem Jean-Pierre Gebler, para um adeus no sítio de sempre. Muitos anos mais tarde, na presente década, Manuel Jorge Veloso viria a ser novamente pioneiro na história do Hot Clube. “Fez parte do primeiro disco da etiqueta discográfica do Hot Clube, o Just in Time, editado em 2012. Um disco que pretendia ser uma homenagem à sua geração, mas cujos intervenientes fizeram questão de envolver jovens músicos”, recorda a entidade numa nota divulgada a propósito da morte do baterista.

De volta aos anos 60 e ao começo da carreira, voltamos a um país de janelas fechadas, de bailes certinhos, pouco preparado para o som “demoníaco” vindo do outro lado do Atlântico. “Embora haja testemunhos contraditórios sobre o seu papel durante o período do fascismo, é certo que foi um grande impulsionador do jazz numa altura em que a liberdade e a consciência da música improvisada era muito negativa”, sintetiza Carlos Martins.

Não lutou por essa liberdade apenas de baquetas em punho: além de militante do PCP, é-lhe reconhecido o prolífico papel de crítico musical. Mais do que crítico, Carlos Martins define-o como um “divulgador”. “Escrevia textos sobre música e tinha uma grande relação de proximidade com os músicos. Não era propriamente um crítico, mas um divulgador”. Um divulgador com regras de gentleman: quando não gostava de um trabalho, simplesmente não falava do mesmo, nota o saxofonista.

Nessa década foi ainda autor da banda sonora de Belarmino (Fernando Lopes, 1964), experiência que repetiria em Uma Abelha na Chuva, do mesmo realizador (1972) ou Pedro Só (de Alfredo Tropa, 1971).

Escreveu também uma série de artigos sobre a história do jazz. Num longo artigo publicado no ano passado na Seara Nova, intitulado “O jazz em Portugal: Um caso de militância, um exemplo de resistência e uma afirmação de liberdade no espaço da cultura portuguesa”, percorria a história do estilo desde o berço norte-americano ao primeiro grande Festival Internacional de Jazz de Cascais, em 1971 (no qual integrou o Quarteto de Dexter Gordon), fruto de um “caldo cultural” único e que veio a inaugurar “uma década particularmente rica em acontecimentos, neste e noutros domínios não menos importantes”.

Agora em compasso apressado: na década de 70 foi professor na Escola de Cinema do Conservatório Nacional (1971/1973). Depois foi também secretário-geral da Academia de Amadores de Música (1985/1991); dirigiu programas no Rádio Clube Português, na Rádio Renascença e na Antena 2, tocou com nomes como Jerome Richardson, Julius Watkins, Don Byas, Chet Baker, Gerry Mulligan ou Milt Jackson e, em 2014, criou juntamente com o crítico e programador António Curvelo o ciclo Histórias de Jazz em Portugal. O objetivo? Divulgar o “momento único” que se vivia no jazz português, que entrecruza várias gerações no ativo.

Por tudo isto, o Hot Clube promete uma homenagem para breve. O funeral realiza-se hoje, no Cemitério do Alto de São João.

 

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