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A água o dá, a água o leva. O Tejo visto por quem já viveu de um rio a desaparecer

A água o dá, a água o leva. O Tejo visto por quem já viveu de um rio a desaparecer

Mafalda Gomes Francisco Paulo Carvalho 11/11/2019 21:24

Numa altura em que ainda se discute se Espanha cumpre ou não a Convenção de Albufeira, o i percorreu o rio Tejo e esteve à conversa com três pessoas que vivem de perto o efeito da diminuição do caudal. Entre zonas onde se pode andar a pé e pouco peixe, há até quem tenha deixado a profissão de uma vida.

Há zonas onde se pode passar o rio Tejo a pé. Há vegetação a morrer, pessoas que mudam os seus negócios devido ao caudal reduzido do rio e até quem abandone a profissão de uma vida. São estas algumas das repercussões da diminuição do caudal do rio Tejo e do impasse relativo ao cumprimento, ou não, por parte de Espanha, da Convenção de Albufeira.

O i percorreu algumas zonas do distrito de Santarém, um dos mais afetados pelo esvaziamento do Tejo. Ortiga, Mação e Almourol são apenas algumas das freguesias onde o problema há muito que não passa despercebido.

João Carvalho tem 71 anos e nasceu e cresceu em Ortiga, uma pequena freguesia no concelho de Mação, que conta apenas com cerca de 600 habitantes e tem uma área de 15,95 quilómetros quadrados. Quem entra nesta pequena freguesia depara-se, para onde quer que olhe, com pessoas a apanhar azeitona galega – um dos principais meios de subsistência na região. João considera que esta azeitona faz “o melhor azeite de Portugal”. E principia a conversa. Recorda os tempos de infância, quando tinha “dez ou 11 anos”, e tinha de atravessar o rio Tejo de barco para ir para a escola, numa terra chamada Alvega, localizada a cerca de 500 metros de Ortiga. “Para ir para o colégio tínhamos de atravessar o rio com a barca do tio Vitorino. Nós, pequenos de dez ou 11 anos, íamos todos contentes para a escola só por causa disso”. Nessa altura tinham de apanhar o barco bastante acima da zona onde hoje se encontra o rio, num local onde hoje até já se encontram casas por o caudal do rio Tejo ter diminuído tanto ao longo dos anos.

Hoje, passados 60 anos, João Carvalho tem uma casa dedicada ao turismo rural, na mesma terra que o viu crescer, à qual chamou Tejada (devido à proximidade com o rio Tejo, que hoje se encontra a apenas 200 metros da casa). “Comprei a casa muito velha, estava deteriorada, e comecei as obras em 1973. Inicialmente, eu e a minha mulher queríamos que fosse para a nossa filha, mas apareceram candidaturas para o turismo rural e acabei por aproveitar”, explica.

Dois anos após as obras começarem, a Tejada ficou concluída. João Carvalho considera-se um dos pioneiros do turismo rural em Portugal, apesar de “na altura já haver algumas pessoas a fazê-lo”.

O pescador que virou azeitoneiro Ricardo Vermelho tem 45 anos e, tal como João Carvalho, sempre viveu junto ao rio Tejo, mais propriamente em Mação, concelho ao qual pertence a pequena freguesia de Ortiga. O avô era pescador, o pai também, e Ricardo seguiu inicialmente o ofício da família, sendo também ele pescador “desde que era pequeno”.

A sua paixão pela pesca era tal que abriu um restaurante há cerca de 17 anos, situado no centro de Mação, chamado “O Pescador”, com o objetivo de vender o seu próprio peixe e que tinha, segundo o mesmo, bastante sucesso. Contudo, como diz o velho provérbio português, “a água o dá, a água o leva” e foi isso que aconteceu a Ricardo. Aquele que era o ofício de uma vida tornou-se um passatempo e um “biscate”.

Ricardo conta que, de há uns anos para cá, a sua situação se tem vindo a agravar à medida que a do Tejo também se agrava. “Há quatro anos que tenho vindo a sentir muitos prejuízos devido a esta situação do rio Tejo e da poluição que lá havia. Foram quatro anos em que não conseguíamos vender peixe porque as pessoas não confiavam. Foi uma desgraça total”, explica.

Teve de trespassar o restaurante e deixar a pesca enquanto única profissão. E hoje “faz de tudo um pouco para sobreviver”, desde a apanha da azeitona para produzir azeite, agricultura, pesca em zonas mais longínquas devido ao estado atual do Tejo ou até mesmo ser cozinheiro no restaurante que em tempos foi seu.

A nova vida da região Contando já com 39 anos, a Tejada cresceu à medida que o Tejo decresceu. João conta que, antigamente, a população de Ortiga vivia quase exclusivamente da pesca: “Havia vários pescadores a vender peixe na praça pública todos os dias, pegavam nas suas cestas e colocavam lá o peixe para todos verem”. Contudo, isto hoje já não é possível devido à extrema seca do rio.

Enquanto descemos a Rua do Tejo – assim chamada por no seu fim se encontrar o rio que lhe dá nome –, João Carvalho explica que, hoje, as pessoas apenas pescam ali “por diversão, uma vez que é impossível viver disso com o estado atual do rio”.

Quem olha hoje para o Tejo na zona de Ortiga não consegue imaginar o cenário antigo que ali descrevem. O fundo branco e limpo do rio foi agora substituído por um tom bem mais escuro. A zona antes coberta por água tem agora apenas pedras, não chegando a altura da água, no reduzido espaço onde ainda existe, a um metro e meio. João refere que só não se atreve a passar para o outro lado a pé porque a água “ainda tem alguma força”.

Apesar do estado atual do principal rio ibérico, João Carvalho sente que o negócio não sofreu com esta situação nos últimos meses e que no verão até chegou a ter mesmo muita gente. No entanto, reconhece que os hóspedes ficam um pouco desiludidos quando veem como está agora o Tejo. “Antigamente perguntavam sempre se podiam andar de barco e canoa no rio, porque estão um pouco a leste do que se passa no rio hoje em dia”, explica.

Pela Tejada passam pessoas de todas as idades e nacionalidades – espanhóis, franceses, ingleses e polacos são alguns exemplos – e João sente que perde muito ao nível da imagem que passa devido ao estado do Tejo. “Se o rio estivesse mais alto, era um espelho diferente. As pessoas olham para aqui agora e só veem rochas e lixo, quando antes não era assim”.

Quanto à freguesia de Ortiga, este “pioneiro do turismo rural português” nota também diferenças desde que começou a seca do rio: “A vida aqui na freguesia mudou imenso desde que o caudal do rio diminuiu. Agora há um desinteresse da parte das pessoas em tratar as hortas ribeirinhas”.

Também Ricardo sente que a vida na vila mudou. Enquanto vai cortando os galhos das oliveiras para depois uma colega retirar as azeitonas, lembra a vila de Mação antes da poluição e da recente seca do rio Tejo. “Agora, com a seca, não há água, o que faz com que exista cada vez menos oxigénio para os peixes e eles ficam malucos com isso. Estando o caudal sempre a subir e a descer, eles não conseguem desovar e acabam por morrer todos”, explica este pescador que se tornou azeitoneiro.

“Antes desta seca e da poluição, esta zona era uma fartura. Tinha muita água, muito peixe. Era uma zona que vivia basicamente da pesca. Na zona da barragem, por exemplo, havia umas 50 famílias que viviam lá à base da pesca da lampreia. Lembro-me de ser pequeno e haver imenso peixe. Nós até bebíamos água do Tejo”, recorda. O grande receio de Ricardo Vermelho neste momento é que as condições climatéricas não sejam favoráveis nos próximos meses e isso o obrigue a mudanças drásticas. “Se neste inverno não chover bastante, vai ser a desgraça. Este ano, talvez até se aguente ainda, mas para o ano, se não chover, vai ter efeitos drásticos mesmo. O meu negócio sofrerá imenso com isso e terei de ir trabalhar para outro lado”, confessa.

Nem as muralhas dos castelos saem ilesas Quem quer visitar o Castelo de Almourol, na freguesia de Praia do Ribatejo, tem de fazer uma pequena travessia de barco pelo rio. Luís Lopes é funcionário da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha há 20 anos e faz essa mesma travessia há cinco. Explica que, atualmente, aquela zona do rio Tejo se encontra “apenas entre 25 e 20%” e que baixou “cerca de três ou quatro metros com esta seca”.

Também Luís refere que desta seca proveio uma grande poluição, “que é agora mais evidente” e tem feito muito mal aos peixes. Este funcionário da câmara refere que o caudal do rio baixou de tal maneira que tiveram de “inventar uma nova plataforma onde deixar os passageiros na margem do castelo. Segundo o mesmo, “o nível das águas está tão baixo que, se nada fosse feito, não conseguiria atracar o barco e ficaria preso no meio do rio”.

Apesar deste período de seca e do estado atual do Tejo, tal como João Carvalho, Luís Lopes sente que o impacto no turismo ainda não é grande. “Este ano já devemos ter tido mais de 90 mil visitantes”, afirma. Mas o receio é que tudo se agrave.

Governo passivo e culpa de Espanha Luís Lopes acrescenta que esta situação não é nova, “mas este ano foi mais dramático porque está a ser mais frequente”. “Apenas no mês de setembro tivemos muita água porque os espanhóis libertaram imensa. São estes os acordos que nós temos: se Espanha tiver muita água, pode libertá-la quando quiser”, critica.

Esta é, de resto, uma opinião partilhada por estes três trabalhadores que acompanharam (e sentiram) de perto a diminuição do caudal do rio Tejo nos últimos tempos. “Os espanhóis não quiseram saber da Convenção de Albufeira, baixaram as barragens e, agora, isto está assim”, aponta Ricardo. “A culpa só pode ser de Espanha, não pode ser de mais ninguém. Não avisaram ninguém de nada, nem que poderia acontecer algo do género”, considera João.

Ricardo e João concordam também quando afirmam que o Governo português deixou muito a desejar ao nível da sua atuação em toda esta situação. “Houve muita passividade do Governo português. Não tomaram nenhuma atitude. A Convenção de Albufeira define que os espanhóis têm de enviar uma quantidade de água, mas o problema é que eles podem mandá-la quando lhes apetecer, quando não lhes faz falta”, conclui João Carvalho, que considera que Portugal está “à mercê” de Espanha.

Agora, o tema parece estar de novo a entrar na agenda. Depois da garantia de que os caudais mínimos estavam a ser cumpridos, apesar dos alertas de quem segue o rio e das autarquias locais, o Governo fez saber que quer renegociar com Espanha. E em cima da mesa está uma nova barragem, um projeto apontado para 2021. O ministro do Ambiente, João Matos Fernandes, adiantou este fim de semana que no próximo verão deverá estar concluído um estudo prévio para esta nova barragem no rio Ocreza, primeiro afluente do Tejo, que poderá ajudar a mitigar a redução do caudal. “O Tejo tem menos 25% do caudal do que quando foi assinada a Convenção de Albufeira, há mais de 20 anos” disse o governante ao Dinheiro Vivo. “Por muito bem que corra a relação com Espanha, é fundamental termos do nosso lado alguma capacidade de armazenamento de água para regularizar o Tejo português”.

 

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