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Muro de Berlim. “No fundo, somos todos os mesmos”

Muro de Berlim. “No fundo, somos todos os mesmos”

Filipe Teles Filipe Teles 11/11/2019 10:28

A Alemanha celebrou no sábado os 30 anos da queda do Muro. O i esteve nas celebrações e conversou com berlinenses que cresceram em mundos separados.

Às três da tarde chuviscava no dia dos 30 anos da queda do Muro de Berlim, com nuvens carregadas e sombrias. Yasser Farouk, nascido há 38 anos em Berlim Ocidental, queixava-se da indiferença em relação ao trigésimo aniversário de um dos dias mais importantes da história alemã contemporânea. “Ninguém quer saber, não entendo”, dizia, inconformado.

Antes da queda do Muro de Berlim, a família, que emigrou do Egito para a Alemanha, ia a Berlim de Leste fazer compras pelo menos uma vez por mês. “Os cigarros eram muito baratos. Um marco alemão, quando aqui [Berlim Ocidental] eram quatro marcos. Gasolina também. Era muito fácil como berlinenses ocidentais, davam uma olhada na bagageira e era isso. Quase nenhum controlo. Não parecíamos traficantes, éramos crianças, por isso, eles pensavam: ‘Ok, querem ir ao lago e pronto’. Era tranquilo”.

Max Nolte também nasceu em Berlim Ocidental, há 42 anos. Estava em casa quando o Muro caiu. Apercebeu-se pela televisão e só depois é que viu no noticiário a conferência de imprensa onde foi anunciado que os berlinenses de Leste poderiam deslocar-se para Berlim Ocidental (só os cidadãos de Berlim Ocidental podiam ir ao lado oposto), que já havia aparecido às 19h. O Muro caiu às 21h.

Berlim Ocidental estava dividida em três setores: norte-americano, francês, britânico. Max cresceu no setor norte-americano e conta que a sua geração tinha a diferença bem vincada entre Leste e Ocidente. “Tivemos o primeiro McDonalds Drive Thru e o supermercado americano onde só podias entrar se estivesses com um americano ou se fosses, em parte, americano”, nota.

Paramos na Alexanderplatz, um dos mais importantes centros de Berlim de Leste, e o dia corre como outro qualquer. A queda do muro marcou o fim da RDA e talvez não por acaso, no dia do trigésimo aniversário as nuvens desceram o suficiente para tapar o topo da torre de televisão, o monumento do qual a República Democrática da Alemanha mais se orgulhava, considerada o símbolo do seu desenvolvimento.

Yasser conta que a sua primeira memória de Berlim de Leste é de quando comprou leite no outro lado. “Nós tínhamos leite engarrafado e lá bebia-se em pacotes com palhinhas. Estava sentado na Alexanderplatz a pensar que a torre de televisão era enorme”, diz, relatando também o período posterior a 9 de novembro de 1989: “Muitas pessoas vieram para Berlim Ocidental ou para a Alemanha Ocidental. Tinham medo que o Muro fosse erguido de novo. Diria que quase metade da população. Foram-se embora, pegaram nas suas coisas e foram-se embora de imediato”. E recorda: “Foi a terra de ninguém pelo menos durante dois anos”.

Marion K. Saenferlaub, 55 anos, é health coach. Nascida e criada em Berlim de Leste, não se lembra como recebeu a notícia da queda do Muro. “Estava com o meu marido e o meu filho em casa. O meu marido era um músico e já tinha estado no lado de lá. Em Hamburgo, por exemplo, para gravar. Ele não estava assim tão interessado em ir no primeiro dia, já era tarde”, diz. No segundo dia, foi a vez dela. “A minha mãe ligou e perguntou: ‘Já foste ao outro lado?’. Eu respondi que não, ainda não. E ela: Anda lá, veste-te já e vamos!”, conta. “Ela veio-me buscar e aí o meu marido disse ‘Ok, vou lavar o cabelo e vou contigo!’”.

“Eles estavam ao meu lado. Disseram-me para quando pusesse os pés do outro lado os avisar se sentisse algo. Fi-lo e não senti nada”, conta Marion, dizendo que a avenida comercial de Berlim Ocidental, Kuffurstendamm, estava cheia de gente. “Toda a gente foi para lá. E nós também”. Tinha crescido apenas a cinco minutos da avenida, onde havia uma loja especial com produtos do Ocidente, caso tivessem o dinheiro suficiente. “Adorava o cheiro” dos produtos das lojas, aponta.

Quando Yasser ia para a escola, apanhava o comboio, passando pela ponte Warschauer, hoje um dos símbolos da unidade de Berlim. “De repente [quando chegava à ponte] já não havia Muro. E o comboio continuava, ia mais longe”, relata. Um dos símbolos da falta de diversidade material da RDA eram os Trabant, conhecidos como trabbis, pequenos carros extremamente poluentes. “De repente estava [Berlim Ocidental] cheio deles”. Entretanto, já só existem pouco mais de sete mil trabbis. Em 1989 eram 1,6 milhões.

Ainda antes da noite cair, às quatro da tarde, deslocamo-nos para as portas de Brandeburgo para o evento oficial da celebração dos 30 anos em que a Alemanha nunca mais foi a mesma. Saímos da carruagem do metro e Yasser aponta as mudanças na cidade, fazendo um reparo. “Há 20 anos isto estava sempre vazio. Ninguém vinha para aqui porque ninguém trabalha aqui. Agora é só turistas”.

Subimos a avenida Unter den Linden, Leste de Berlim, cortada por causa dos festejos, com dezenas de carros da polícia. O i encontra uma berlinense nascida no Leste antes do Muro cair e depara-se com o sentimento de que Yasser falava: “Qual é o interesse em cobrir os 30 anos da Queda do Muro de Berlim?”, pergunta. Mais à frente, um contingente com à 20 polícias cerca uma manifestação com quarenta, cinquenta pessoas. O agente, que não deixa ninguém passar, diz que é uma manifestação contra o Estado. Mas ouvindo os discursos dos manifestantes, eram a favor do retorno da Prússia. E as bandeiras confirmavam-no.

Na Parisier Platz, cortada por causa das celebrações, a pouco mais de 100 metros das Portas de Brandeburgo, passam vários carros pretos com os vidros de trás fumados. “Deve ser a Merkel”, tenta adivinhar Yasser. O contingente policial é forte, veem-se polícias de cara tapada e um com uma metralhadora. A Bundestrasse 2 está coberta de fitas com desejos escritos em papeis azuis, roxos e amarelos, penduradas no ar. Na Galeria de Leste imensa gente faz fila para tirar fotografias ao famoso desenho do graffiti de Brezhnev e Honecker a beijarem-se, mas ninguém repara noutro desenho uns metros atrás, com gente entre muros em desespero e angústia, uma espécie de multiplicação do quadro O Grito.

Marion conta que no início da reunificação, tinha pena dos pais porque a adaptação ia ser difícil. “Agora tenho pena da minha geração”. Vinca que a diferença entre Berlim de Leste e Ocidental, sempre se notou. “Quando o meu filho levava um amigo lá casa, sabia sempre se era de Leste ou do Ocidente”. Max, por outro lado, conta que há rivalidade entre os dois, mas contra os de fora “juntam-se”. “Toda a gente odeia os berlinenses”. Na altura da reunificação, as escolas misturaram-se muito rápido com estudantes de Leste e do Ocidente. “Foi normal. Eles eram jovens como nós. No fundo, éramos todos os mesmos”.

No discurso de comemoração, a chanceler alemã, Angela Merkel, realça que “nenhum muro que mantém pessoas de fora é demasiado alto para ser quebrado”. Mas avisa: “Os valores da Europa são baseados na liberdade, democracia, igualdade, Estado de direito, direitos humanos – são tudo menos auto-evidentes e têm que ser revitalizados constantemente”.

 

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