20/9/20
 
 
António Galamba 11/11/2019
António Galamba

opiniao@newsplex.pt

As perigosas derivas das histerias com os pequenos

Não agir em função das causas é continuar a perpetuar as razões e o ambiente para as consequências. É o que os partidos do arco da governação estão a fazer.

Nunca fui apologista da gritaria como forma de estar na vida ou no processo de crescimento dos meus filhos. Sempre a entendi como uma escalada de relacionamento que não levava a lado nenhum, não servindo mesmo o objetivo da afirmação de qualquer autoridade de pai.

Em democracia, as partes, todas as partes, perfazem o todo, havendo regras para que a fluidez das dinâmicas, das decisões e das participações possibilitem um quadro plural de afirmação das diferenças.

Em democracia não há pais ou mães do sistema, há os cidadãos que contribuíram ao longo do tempo para consolidar o sistema democrático e evitar as derivas e os riscos de distorção dos seus pilares. No pluralismo há de tudo, até a aselhice dos democratas que, em funções relevantes, são incapazes de constatar o que estão a deixar construir, em prejuízo da democracia.

Há hoje uma gritante histeria com os partidos pequenos, em especial com alguns dos que elegeram para a Assembleia da República, como se não tivessem sido a expressão de eleitores que em sufrágio universal exerceram o seu direito de voto e fizeram as suas opções em função das realidades e das perceções. Já o tenho dito e reafirmo: a histeria com os pequenos, vertida em expressão mediática ou em esboços de bloqueios políticos, produz o efeito contrário ao pretendido. Os altos berros, meio histéricos, meio transtornados, fortalecem quem assenta o seu posicionamento nos despojos gerados pelos protagonistas do sistema político e nos nichos que, tendo sido residuais, assumem crescente relevância. Fingir que não há um problema de predisposição para o populismo e para derivas radicais de direita nas forças de segurança, assente no desgaste do prestígio e da autoridade, nas circunstâncias operacionais miseráveis e numa perceção de abandono pelos poderes, o político e o judicial, é inaceitável. Não fazer tudo para reduzir o espaço de afirmação dessas derivas é irresponsabilidade pura, num dos pressupostos da vida em comunidade, a segurança. Noutro azimute, aceitar que a desdramatização de agressões e ameaças a bombeiros voluntários é a resposta a dar perante ocorrências graves de violência num quartel de bombeiros é abrir espaço para que o pilar central do dispositivo de emergência e proteção civil, os bombeiros, possam ser tocados pelo sentimento de predisposição para aquilo a que já se assiste nas forças de segurança e que beneficiou substancialmente o Chega no seu acesso aos palcos de poder institucional.

Há hoje uma gritante histeria com os pequenos, que, como na vida, são a consequência dos nossos atos individuais ou comunitários. Não agir em função das causas é continuar a perpetuar as razões e o ambiente para as consequências. É o que os poderes fazem ao desgraduarem ataques inqualificáveis a quem exerce funções em nome do Estado. É o que os partidos do arco da governação estão a fazer em relação aos novos pequenos. A grande diferença com os parlamentos das nossas casas é que na Assembleia da República, quem lá está, por muito que isso nos possa desgostar, tem legitimidade democrática e mandato de representação. Não deixar que os novos pequenos intervenham no debate quinzenal por razões burocráticas é uma irresponsabilidade grave, uma gritante violação da Constituição da República, um desprezo por parte do universo de eleitores votantes e mais uma causa para alimentar várias consequências. É uma autêntica brincadeira de crianças com coisas tão sérias como a democracia. Quantas vezes, por vontade da maioria, a relevância formal do regimento da Assembleia da República não foi às ortigas? Quantas vezes não houve distorções ou modelações assentes em interpretações criativas, por vontade das maiorias? É só ridículo.

Continuem a alimentar as histerias, nas instituições democráticas e nas redes sociais, a orientar os holofotes para os protagonistas e para as encenações, a reincidir em opções políticas que desvalorizam realidades e expetativas das pessoas e dos territórios, a não encontrar equilíbrios de senso, de justiça e de sustentabilidade, que os pequenos agradecem. É que nem precisam de fazer birra; a persistência das causas conjugada com a gritaria irresponsável faz o que é preciso para os consolidar.

É revoltante tanta irresponsabilidade, sectarismo e incompetência. Anos e anos de exercício político e há quem ainda não tenha compreendido que não se atacam discriminações, preconceitos e predisposições negativas apenas por decreto. É preciso sentido político, trabalho sustentado e proximidade na concretização de soluções e respostas que correspondam às expetativas individuais, institucionais e comunitárias. Isto foi válido para contratos locais de segurança em que participei, com obtenção de resultados concretos de coesão social e ganhos de segurança, é atual para muitas das realidades do nosso tempo. Uns desaprenderam, outros parece que nunca aprenderam, e os pequenos crescem.

NOTAS FINAIS

SUSSURRO Não há melhor serviço prestado à direita do que ter o Serviço Nacional de Saúde, os serviços públicos e a escola pública no estado depauperado em que estão. É uma espécie de Estado light versão esquerda. A sorte é que são tão maus que nem isso sabem aproveitar, tão entretidos que estão em guerras de Alecrim e Manjerona.

BERRO Portugal é um país de sobressaltos em que o estrutural tem pouco espaço na indignação coletiva. Com os incêndios, sobressaltámo-nos com o estado do interior. Com o recém-nascido, sobressaltamo-nos com a desumanidade da situação-limite. O problema é que, além do sobressalto, há todo um quotidiano a precisar de indignação, de berro e de ação.

ALGAZARRA ENSURDECEDORA No sistema bancário passámos dos gestores para a conta de alguns à fase dos gestores à conta dos depositantes e dos contribuintes. Tarda a haver banqueiros condenados e a cumprir pena. Tarda a saber-se os nomes dos jornalistas avençados do saco azul do GES. Nunca é tarde para condenar-nos a mais comissões e injeções de dinheiros públicos. É insustentável.

Escreve à segunda-feira

 

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