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Um cão, um soldado e o filme de que James Dean não sabe

Um cão, um soldado e o filme de que James Dean não sabe

Cláudia Sobral 08/11/2019 22:39

Quando morreu, em 1955, James Dean deixou apenas três filmes. Agora, uma dupla de realizadores anunciou que será protagonista de Finding Jack. Uma adaptação ao cinema de uma história de amizade entre um soldado americano e um cão durante a Guerra do Vietname apresentada como o quarto filme do ator: “O filme que ele nunca conseguiu fazer”.

“James Dean to star in new movie”, “James Dean to make a movie return”. E não são fake news, nem, mesmo admitindo-se o piscar de olho ao clickbait, títulos que se possam acusar de sensacionalistas os que começaram a pulular pela internet. Não é sequer uma confusão com James Deen (aquele que se escreve com “e”, o dos filmes porno que em 2013 protagonizou The Canyons, de Paul Schrader, com Lindsay Lohan – e que de qualquer forma não nasceu com esse nome). Não foi também engano motivado por uma reaparição de James Franco caracterizado para o biopic de 2001 de Mark Rydell.

Esqueça-se então aquele primeiro episódio de Crisis in Six Scenes, a recente série de Woody Allen para a Amazon em que, interpretando Sidney J. Munsinger, o realizador-ator dá voltas à vida (e à paciência do seu barbeiro) procurando uma vaga parecença com o ator de Rebel Without a Cause. Porque ele, James Dean, está de volta. É o que escreve a Hollywood Reporter, que confirmou que os realizadores Anton Ernst e Tati Golykh, autores de um par de curtas-metragens que ainda ninguém viu (estão em fase de pós-produção) adquiriram já junto da família do ator que morreu num acidente de automóvel em setembro de 1955, aos 24 anos, os direitos de uso da sua imagem para o filme Finding Jack.

Uma produção da qual pouco se sabe para lá do que trata – um drama passado na guerra do Vietname – e dessa reanimação digital de James Dean, ressuscitado para integrar o elenco desse que será o seu quarto filme. De resto, já anunciado na página de IMDB do ator, que tinha até aqui como última entrada O Gigante, de George Stevens. Um filme protagonizado por Elizabeth Taylor, Rock Hudson e James Dean há 64 anos.

Por revelar está ainda o resto do elenco para a adaptação do romance homónimo de Gareth Crocker que acompanha um soldado que, com a retirada das tropas norte-americanas de território vietnamita, é obrigado a deixar para trás um cão ao qual se afeiçoa durante o conflito (Jack). Mas bastou o anúncio de James Dean, que se fosse vivo completaria em fevereiro próximo 89 anos, para que os realizadores fossem torpedeados com críticas.

“Ainda não foi feito e já soa ao quinto filme a que se assistiria no regresso de um voo de longo curso”, escrevia ontem Stuart Heritage no Guardian. “Realisticamente, os realizadores ficariam mais bem servidos se desenterrassem o corpo de James Dean, o vestissem com um uniforme militar e o fizessem mover-se com fios”. Escreve ainda, alertando para o precedente que este filme, que não tem ainda data de estreia prevista, poderá abrir em matéria de destruição de legados: “Os realizadores planeiam ressuscitar digitalmente Dean para o tornar na estrela de um novo filme – isso vai abrir o caminho para uma procissão de famosos mortos digna de um pesadelo”.

O caminho já a tecnologia tem vindo a abrir – para algo deste género, faltaria coragem moral provavelmente. No seu recentemente estreado thriller Projeto Gemini, Ang Lee foi já capaz de colocar Will Smith a contracenar consigo próprio – a versão de si próprio de há 25 anos, recuperada de Bad Boys (1995), de Michael Bay. Numa entrevista publicada a propósito desse filme pelo i, o realizador taiwanês apresentava-se convicto de que, com a evolução tecnológica dos últimos anos, o cinema nunca mais será o mesmo.

Tal como nesse caso, os realizadores de Finding Jack tencionam recorrer a arquivos fílmicos de James Dean (bem como a fotografias) para recriar uma versão “de corpo inteiro” do ator com recurso à chamada tecnologia CGI (computer-generated imagery). Mas disto – ressurreições de ícones desaparecidos por pura opção estética – ou de marketing – talvez Ang Lee não estivesse à espera. À Hollywood Reporter, Anton Ernst explicou a opção de casting assim: “Andámos para cima e para baixo à procura da personagem perfeita para o papel... que tem arcos de personalidade extremamente complexos, e ao fim de meses de pesquisa decidimo-nos pelo James Dean”. Isto antecipando logo parte das críticas de que viria a ser alvo: “Sentimo-nos muito honrados por a família nos ter apoiado e tomaremos todas as precauções para garantir que o seu legado como uma das mais épicas estrelas de cinema até à data é mantido intacto. A família olha para este como o seu quarto filme, o filme que ele nunca conseguiu fazer. Não queremos desapontar os seus fãs”.

Em resposta, o ator Chris Evans, um dos muitos que se têm insurgido contra a notícia da ressurreição computorizada de James Dean, ironizou, no Twitter: “Tenho a certeza que vai adorar”. E acrescentou depois: “Isto é horrível. Talvez consigamos arranjar um computador que pinte um novo Picasso. Ou escrever um par de novas canções de John Lennon. A completa falta de noção aqui é vergonhosa”.

 

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