14/12/19
 
 
Sophia. Cem anos, cinco poemas

Sophia. Cem anos, cinco poemas

jornal i 08/11/2019 18:23

Na semana em que se celebra o centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner, o i pediu a seis personalidades para escolherem o seu poema preferido da poeta. Manuel Mozos e Paula Moura Pinheiro coincidiram na preferência.

Manuel Mozos, realizador, autor do documentário "Sophia, na primeira pessoa": “Não tenho um poema de Sophia preferido. Deste gosto muito e não consegui incluí-lo no filme.” 

Paula Moura Pinheiro, jornalista: “‘Nunca mais servirei senhor que possa morrer’ é dos versos mais extraordinários com que me cruzei na vida. E uma formulação ímpar sobre a dor da morte de quem se ama.” 

Meditação do Duque de Gandía  sobre a morte de Isabel de Portugal

Nunca mais
A tua face será pura limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.
 
Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.
 
Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória a luz o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.
 
Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

in  Mar Novo  (1958)

 

Alice Vieira, escritora: “Em 1968 eu estava em Paris. A Pátria era um lugar distante. A Sophia foi nesse ano a Paris participar num recital de poesia. Ouvi-a dizer este poema. Que então era a realidade de tantos de nós. Ficou com lugar cativo no meu coração"

Exílio

Quando a pátria que temos não a temos
perdida por silêncio e por renúncia
até a voz do mar se torna exílio
e a luz que nos rodeia é como grades.

in Livro Sexto (1962)

 

Manuel Alegre, escritor e político: “Tem a ver com Sophia e com todos os que cantam no mau tempo”.

Procelária

É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala
As suas asas empresta
à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente
Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança a sua força
E do risco de morrer seu alimento
Por isso me parece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo.

in Geografia (1967)



Inês Pedrosa , escritora: “Descobri a poesia de Sophia aos 13 anos, através de António Maximino, um primo do meu pai, engenheiro e amante de poesia, que me ofereceu em 1975 a antologia da obra dela nesse ano publicada. Foi o acentuar do deslumbramento que sentira com os seus livros para crianças. É difícil escolher um poema de Sophia – são todos avassaladoramente belos, e exactos. Hesito entre “As Pessoas Sensíveis” e “Terror de te amar”; opto por este último, porque é curto, intenso, sei-o de cor e sempre que numa roda de amigos se declamam poemas ou num encontro literário no estrangeiro me pedem que diga qualquer coisa em português, recito este poema. Em quatro rigorosos versos, Sophia exprime a grandeza e a tragédia do amor."

Terror de te amar 

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar  de imperfeição 
Onde tudo nos quebra e emudece 
Onde tudo nos mente e nos separa. 

in Coral (1950)

 

Elísio Summavielle, diretor do CCB: “Este poema, para mim, tem sempre um sabor especial. Acompanha-me desde a adolescência, quando comecei a enfrentar os bastões e os jactos de água dos ‘creme Nivea’ do tristemente célebre Capitão Maltez.”

Esta Gente 

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo.

in Geografia (1967) ed. Ática

 

 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×