11/12/19
 
 
José Paulo do Carmo 08/11/2019
José Paulo do Carmo

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Web Summit – o balão a esvaziar

Em semana de mais uma Conferência de Tecnologia em Lisboa, que juntou, segundo a organização, cerca de 70 mil visitantes por dia, pudemos ouvir da boca do seu fundador, o irlandês Paddy Cosgrave, que seria feliz a organizar o evento o resto da sua vida. Imagino e acredito que sim.

Com o apoio que recebe do nosso Governo e a vender camisolas iguais às que usa nas palestras por 800€ a papalvos wannabe que não sabem bem o que querem mas que queriam ser como ele e tentam imitá-lo em tudo o que podem, até na forma de vestir, criando assim mais um negócio paralelo ao já de si grande negócio, eu também seria feliz. Mas vamos por partes.

Não sou contra o referido certame e até acho que pode trazer (contas feitas) bom retorno ao país. Pelo menos é o que oiço dos responsáveis da restauração e hotelaria que vou auscultando. Além disso, como referi anteriormente, as pessoas que vêm de fora não são nenhuns arruaceiros, só querem mesmo passear pela cidade com o crachá oficial ao peito, beber umas jolas e ouvir umas palavras de uns nomes conhecidos, sem perceber muito bem o que eles dizem. Não fazem mal a ninguém. Quem vem cá para trabalhar e, por norma, não tem tempo a perder não volta uma segunda vez. Basta ouvir alguns dos que cá se deslocam para facilmente nos darmos conta de que, como dizia alguém, isto transformou-se na “Ovibeja dos computadores”.

Uma grande desilusão em termos de investidores que, com exceção de um ou outro, nunca chegaram a aparecer, e mesmo as chamadas salas privadas, onde se paga mais para ter acesso direto supostamente a quem tem o dinheiro, deixam muito a desejar. Na realidade, é mais uma grande jogada de marketing que funcionou até um determinado ponto pela ânsia das pessoas de terem o seu próprio negócio, de serem todas CEO, mesmo sem empregados, e de usarem nomenclaturas que ficam bem, como startups. Conheço um que já lá vai com a terceira empresa, depois de as outras duas não terem dado em nada, à espera que lhe caia algo em sorte e consiga engrupir alguém. A verdade é que, regra geral, quem tem as notas não as tem por ter esbanjado à toa e prefere ambientes mais reservados e exclusivos para fazer os seus próprios investimentos.

Temos por isso, nesta altura, uma feira de contactos e de festas que pouco mais produzem do que umas cervejas bebidas e uns quantos números de telefone adicionados que nunca mais serão usados na vida. Os convidados especiais trazem poucas ou nenhumas novidades, os grandes fundadores das empresas de renome raramente cá metem os pés e quem vem acaba por ser o diretor de marketing, o responsável de vendas ou o jogador de futebol que pouco ou nada têm para nos ensinar sobre a ideia que pode originar o negócio ou sobre a construção de um sucesso a partir do zero. Temos, por isso, cada vez mais um balão a esvaziar que cada vez atrai menos empresários de sucesso ou negócios atraentes e se torna, a cada dia que passa, mais próximo de um freak show do que propriamente um centro de aprendizagem e de capitalização para o futuro através de conhecimentos profícuos ou da possibilidade de acesso a quem faz, de facto, girar a economia e aposta neste tipo de empresas.

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