17/11/19
 
 
Carlos Diogo Santos 08/11/2019
Carlos Diogo Santos
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carlos.santos@newsplex.pt

Não precisávamos de ver o rosto do bebé, INEM

A mensagem era positiva e acredito que a intenção de quem o fez também, mas gestão de redes sociais não pode ser apenas guiada pelo lado cool, sobretudo em casos destes.

O país que tanto se preocupa com a confidencialidade e proteção dos depoimentos de suspeitos em megaprocessos – personagens que ocuparam grandes cargos públicos e políticos – ainda estava a digerir a notícia do achamento de um bebé no lixo quando o INEM decidiu colocar uma fotografia do recém-nascido numa rede social. A mensagem que a acompanhava era positiva – “Bem-vindo, puto!” – e acredito que a intenção também, mas o momento (esse sim!) exigia algum resguardo. As circunstâncias em que aquela criança foi encontrada, o cenário familiar em que certamente nasceu e o futuro que a espera devia fazer qualquer instituto público e qualquer gestor de redes sociais pensar duas vezes antes de tomar uma decisão destas – e não, não basta tapar os olhos para dar mais alguma dignidade à partilha.

Assim que aquela criança chegou às mãos de uma entidade pública, ela ficou à sua guarda. O Estado passou a ter a obrigação de a defender como se fosse os seus pais. Passou a ter a obrigação de questionar e de pesar cada ação, cada decisão, cada exposição.

Não é preciso recuar muito para perceber que mesmo em casos em que há manifesto interesse público – como o do bebé que recentemente nasceu com malformações no rosto que não foram detetadas pelo médico Artur Carvalho – os pais optam por não expor os recém-nascidos nas suas redes sociais.

No caso da fotografia do bebé encontrado no lixo, como os pais o abandonaram e o Estado não tem a força que deveria ter, nem as preocupações que tem com outro tipo de proteções e sigilos, as coisas foram diferentes. E, neste caso, certamente não será aberta qualquer investigação por parte do Ministério Público para perceber como é que os jornalistas tiveram acesso à fotografia da criança poucas horas depois de a mesma ter sido encontrada.

E se é certo que é cool ser dinâmico e fora da caixa na gestão das redes sociais – sobretudo em entidades que muitas vezes são extremamente formais – também não deixa de ser importante perceber quais são as barreiras.

E, aqui, há várias que claramente parecem ter sido ultrapassadas, colocando na praça pública uma imagem que não deveria ser necessária, mas que ao estar disponível passou a fazer parte de uma história que tem manifesto interesse público e que foi acompanhada até à exaustão por todos os meios de comunicação, incluindo pelo i.

A cobertura por parte dos meios de comunicação social também deixou a desejar na forma como sistematicamente se dirigiu ao homem que encontrou aquela criança, não o descrevendo apenas como um sem-abrigo que pernoita ali próximo, mas retirando-lhe a dignidade de homem. Foram poucos os que escreveram que a criança foi encontrada por um homem, como fariam se tivesse sido um bancário ou um empregado de balcão. Sei que muitos dirão que foi simplesmente uma forma de contar a estória, mas uma estória pode contar-se de muitas maneiras e não consigo entender porque é que o herói desta deixou de ser homem para ser apenas um sem-abrigo.

Era importante que para a História ficasse apenas a forma como este menino foi acarinhado por todos quantos se cruzaram com ele tanto na ambulância como no Hospital D. Estefânia, sem fotos nem exposições. Registos públicos do que lhe aconteceu é tudo aquilo de que não precisa nesta altura, nem precisará no futuro.

 

Jornalista

 

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