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Ost, West. E nove filmes para três décadas sem muro

Ost, West. E nove filmes para três décadas sem muro

Cláudia Sobral 07/11/2019 22:19

Na comemoração dos 30 anos de um dos acontecimentos que mais marcaram a História do século XX, às salas de cinema regressa Adeus Lenine!, de Wolfgang Becker.

A 9 de novembro de 1989, era derrubado em Berlim o muro que durante 28 anos tornou tangível a cortina que dividiu o mundo na Guerra Fria. Na comemoração dos 30 anos de um dos acontecimentos que mais marcaram a História do século XX, às salas de cinema regressa Adeus Lenine!, de Wolfgang Becker. Sobre esses tempos muitos outros haverá a rever. Não podendo enumerá-los a todos, escolhemos nove, como pede a data.

 

1981. Os Filhos da Droga, de Uli Edel

Uli Edel é um desses nomes incontornáveis no cinema alemão. Em 1989, o ano depois do qual o mundo não seria mais o mesmo, estreou Last Exit to Brooklyn, adaptado da obra homónima de Hubert Selby Jr. Entre a sua filmografia contam-se também o thriller erótico Body of Evidence (1993) e O Grupo Baader Meinhof (de 2008, nomeado para Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, sobre a organização de guerrilha de extrema-esquerda que operou na República Federal Alemã a partir de 1970 e a que valerá também a pena regressar por estes dias). Mas recuemos a um tempo anterior a todos estes filmes, até 1981, o ano em que estreou Os Filhos da Droga – título bem menos sugestivo do que o original Christiane F. – Wir Kinder vom Bahnhof Zoo (nós, os filhos da Bahnhof Zoo). Bahnhof Zoo é a estação de comboio do Jardim Zoológico de Berlim, zona a partir da qual Uli Edel retrata o mundo da toxicodependência na Berlim Ocidental do início da década. Com David Bowie como ele próprio – e como compositor da banda sonora.

 

1987. As Asas do Desejo, de Wim Wenders

Mais clássico do que o clássico moderno em que se transformou já Adeus Lenine!, um dos mais incontornáveis filmes do realizador de Paris, Texas – e também da carreira do ator que o protagonizou, Bruno Ganz, a que se torna quase obrigatório regressar a cada data redonda que se completa sobre 9 de novembro de 1989. No filme estreado em 1987 Bruno Ganz é Damiel, Otto Sander é Cassiel, dois anjos que precediam a existência da humanidade que, com outros anjos imortais e invisíveis, vagueiam pela Berlim Ocidental, auscultando os pensamentos dos que foram afastados daqueles que amam. Até que Damiel abdica da sua imortalidade, movido pela vontade (necessidade) de poder sentir os prazeres humanos. Só assim poderá viver o amor que sente por Marion (Solveig Dommartin), a trapezista solitária por quem se apaixona.

 

1989. Coming Out, de Heiner Karow

O título é tão autodescritivo quanto parece. O filme? Um marco para o cinema da República Democrática Alemã, e um dos sinais visíveis das mudanças que Alexander de Adeus Lenine! procurava manter à distância da sua mãe debilitada. Foi mesmo a 9 de novembro de 1989 que estrou, na Berlim Oriental, Coming Out, de Heiner Karow. Nem mais nem menos do que o primeiro filme produzido na RDA centrado nas questões LGBT, e por isso (embora não só) transformado em filme de culto. Através da história de um professor da Berlim Oriental que inicia uma relação secreta com um jovem, Coming Out oferece um retrato sobre o secretismo em que era obrigada a mover-se a comunidade queer de uma cidade não só por um muro, também culturalmente dividida.

 

2003. Adeus Lenine!, de Wolfgang Becker

“Então nada mudou”; “O que é que poderia ter mudado?”. Em certos momentos da História, não é preciso muito para que tudo mude. E tudo mudou, na verdade nos meses que se seguiram ao dia 9 de novembro de 1989 para os que viviam do lado da RDA. As palavras do narrador são mais do que conhecidas: “O meu nome é Alexander Kerner, cresci na República Democrática Alemã. A minha mãe ficou em coma, o muro caiu, e isso não deveria ser um problema mas... a minha mãe esteve a dormir durante todas as mudanças. Tudo aquilo em que acreditava desfez-se em poucos meses. E agora ela acordou”. A Alexander, o médico dá a notícia de que a um novo ataque cardíaco a sua mãe não sobreviverá. A partir daí, a sua missão transforma-se em manter a ideia na mãe, já em casa, mas ainda acamada, de que o mundo continua como ela o conhecia. Adeus Lenine! regressa a partir de hoje ao Cinema Villa de Cascais e ao Teatro do Campo Alegre, no Porto, e conta ainda com três sessões no Nimas, em Lisboa: no sábado, com apresentação de Francisco Louçã, dia 11 com Helena Ferro de Gouveia, e ainda dia 13.

 

2003. Herr Lehmann, de Leander Haußmann

A partir do romance homónimo do músico e escritor alemão Sven Regener, Herr Lehmann (Senhor Lehmann, na tradução em português) acompanha Frank Lehmann (interpretado por Christian Ulmen), um bartender de Kreuzberg, bairro da noite da Berlim Ocidental nas semanas que antecedem a queda do muro. Estamos pois em outubro de 1989 e Frank prestes a fazer tantos anos quantos se completam agora desde que caiu por terra o grande símbolo da Guerra Fria. Entre os amigos que, nas vésperas do 30.º aniversário, insistem em começar a tratá-lo por “senhor Lehmann”, a relação com a sua namorada, que trabalha como cozinheira no mesmo bairro, um amigo às portas da loucura e uma visita inesperada dos pais, Herr Lehmann, de Leander Haußmann, que de estreou no cinema com Sonnenalle, faz mais do que jus ao título em inglês: um Berlin Blues, do lado de cá do muro.

 

2006. A Vida dos Outros, de Florian Henckel von Donnersmarck

O ano é o de 1984. Na Berlim Oriental, Gerd Wiesler um agente da Stasi, a polícia política da República Democrática Alemã (interpretado por Ulrich Mühe), que, ao liderar uma investigação acaba por dar por si envolvido nas vidas dos alvos da sua operação de escuta: um escritor Georg Dreyman (Sebastian Koch) e a sua companheira, a atriz Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck). Escrito e realizado por Florian Henckel von Donnersmarck, A Vida dos Outros, retrato tanto sobre a repressão exercida pelo regime da RDA a partir de ambos os lados estreou em 2006 e venceu, no ano seguinte, o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro.

 

2009. Królik po Berlinsku, de Bartosz Konopka

Um filme sobre coelhos. Mas vamos lá explicá-lo, e a estes coelhos que o reconhecido realizador da nova geração de cineastas polacos Bartosz Konopka fez protagonistas do filme que estreou nos 20 anos da queda do Muro de Berlim. Recorrendo a imagens de arquivo da Guerra Fria, Konopka procurou olhar o muro (e o mundo) a partir de um ponto de vista mais abstrato do que aquele a que a História e a realidade nos habituaram a vê-lo. Ou vejamos o trailer, porque, à falta do resto, até esse fragmento deste documentário de 51 minutos merecerá atenção : “Milhares de coelhos e um espaço livre. Até ao dia em que algo inesperado acontece”. Inesperado, para os coelhos, claro: esse muro que os há de dividir ao longo de 28 anos. 28 anos em que, ironiza, “são felizes”. Królik po Berlinsku (coelhos à Berlim) é, de facto, um filme único sobre os acontecimentos que marcaram Berlim e o mundo durante a Guerra Fria, com a queda de um regime totalitário e a destruição da barreira que dividia as duas Alemanhas vista aos olhos dos animais que ali viviam.

 

2009. Geniale Dilletanten - No Wave, de Christoph Dreye

Genialer Dilletanten. O termo foi pela primeira vez usado para anunciar um concerto no Tempodrom de Berlim, em 1981. Com uma gralha deliberada, a expressão começou a partir daí a ser utilizada como sinónimo do movimento de contracultura que germinava em Berlim na viragem da década de 1970 para a de 80, e que a partir daí acabaria por alastrara a outras cidades alemãs. Era o tempo em que proliferavam fanzines, filmes-provocação em Super-8, em que também a música se transformava, num gesto coletivo à procura de revolucionar o conceito do que era até então tido como o bom gosto. É a essa cena artística underground emergente que regressa Christoph Dreyer em Geniale Dilletanten – No Wave, de 2009. Um documentário em que vai de encontro a figuras como Blixa Bargeld, dos Einstuerzende Neubauten e Nick Cave and the Bad Seeds (ambas as bandas com concertos marcados para Portugal no próximo ano), Malaria! ou, no cinema, o realizador Jim Jarmusch.

 

2015. B Movie: Lust & Sound in West Berlin, de Klaus Maeck, Heiko Lange, Jörg A. Hoppe e Miriam Dehne

Exibido pela primeira vez em Portugal no IndieLisboa de 2015, B-Movie: Lust & Sound in West-Berlin, assinado por Heiko Lange, Jörg A. Hoppe e Klaus Maeck, transporta-nos a uma Berlim Ocidental em estado de emergência perante a constante ameaça de guerra no tempo em que se dividia em duas, pelo muro. Foi também o tempo em que a sua fervilhante cena pop, musical e artística atraía artistas vindos de todas as partes da Europa. Foi afinal determinante a cidade nas carreiras de músicos como (o já citado, a propósito de Uli Edel) David Bowie, Nick Cave e bandas como Joy Division, New Order, ou a música eletrónica europeia. A esse tempo regressa este documentário através das memórias do produtor inglês Mark Reeder, também ele feito berlinense.

 

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