17/11/19
 
 
Maria Helena Magalhães 07/11/2019
Maria Helena Magalhães

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O Alentejo ameaçado? (2)

Poder-se-á dizer que a obsolescência biológica é mais perniciosa do que a obsolescência programada – a que os fabricantes, particularmente de electrodomésticos e equipamentos electrónicos, usam para garantir uma rotação elevada de vendas. 

Esta inscreve-se nos ditames da sociedade de consumo, não sendo isenta de custos ambientais, mas porventura não compromete tão rápida e assustadoramente a nossa sobrevivência. A primeira, dadas as agressões que impõe à natureza, contribui aceleradamente para a degradação do meio ambiente e faz perigar a nossa própria subsistência enquanto espécie. Não é alarmismo. A emergência climática está aí para nos chamar à razão.

Dito isto, acode-nos o atentado ambiental que pode estar a ocorrer em vastas parcelas dos solos alentejanos. Nomeadamente, em boa parte do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, onde um mar de estufas se esconde atrás de um nunca mais acabar de sebes vivas. Sabemos que as estufas agrícolas – no caso, hortícolas e frutícolas – favorecem os ciclos de produção, que não a biodiversidade, mas consomem muita energia – nem toda alternativa – e água, com a consequente sobreexploração de aquíferos. E quanto ao uso de fitossanitários químicos, estamos resguardados? Será que a costa alentejana foi eleita por tantos investidores estrangeiros – os nomes nas placas à entrada das estufas não enganam – para a prática de agricultura biológica?! Dúvida persistente.

Descendo pela costa, de Sines a Odemira, o deslumbre da paisagem que se nos mete olhos adentro apaga, e até faz esquecer, o embaciamento provocado pelos túneis de plástico atravancados um pouco mais para o interior. Um pouco a sul de Porto Covo, a bela vila donde se avista a Ilha do Pessegueiro, faz-se paragem na praia do Malhão. A zona costeira está devidamente revitalizada e arrumada; aqui não há construções, nem cafés, nem restaurantes, nem rebuliço de gentes, no outono ainda ensolarado e amenamente quente; há passadiços, de madeira, muitos! Por sobre imponentes falésias xistosas, ou sobre dunas consolidadas, onde intensa vegetação brota das areias, vai-se, o vento a afagar-nos o corpo e a limpar-nos a mente. Só o silêncio entrecortado pelo marulhar das águas que se agitam docemente. Sob o azul-celeste a perder de vista, o azul-marinho avança em direcção à praia e, ao chegar, enfeitado de grossas pinceladas de verde-esmeraldino, lambe langorosamente as areias com rendilhados brancos de espuma. Lá em baixo estendem-se ora extensos areais, ora pequenas praias encastradas no sopé das arribas, que nem conchas de vieiras! A algumas acede-se descendo íngremes e estreitas escadas agarradas às rochas; a outras, nem isso. E pode-se continuar pelos intermináveis carreiros de passadiços enquanto houver pernas e vontade de descobrir!

Ou então retomar as estradas de saibro e parar na povoação seguinte. Encontra-se sempre mais uma vila, ou uma aldeia, e o casario branco debruado a cor nas portas e janelas, maioritariamente de andares térreos e grandes chaminés, onde não faltam os vasos de flores na entrada das casas.

É este Alentejo encantado, onde o cante molda o povo e o exprime, sem alarido nem armanço, que urge preservar. Com a dignidade e a qualidade de vida que lhe são devidas.

 

(Nota: o texto não segue o AO de 1990)

 

 

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