17/11/19
 
 
Carlos Zorrinho 07/11/2019
Carlos Zorrinho
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Os próximos 100 dias

Há 100 dias, muitos dos acontecimentos políticos, sociais e económicos que hoje ocupam a atualidade não eram previsíveis. Prever o que vai marcar os próximos 100 dias é também um exercício de alto risco.

Em 2009, George Friedman publicou um dos mais interessantes e desafiantes livros de prospetiva estratégica do novo milénio, intitulado na sua edição em português Os Próximos 100 anos – Uma previsão para o século XXI (D. Quixote, 2010).

Para fundamentar a estrutura da sua aventura literária, o autor acentua que nada do que passara nos 100 anos anteriores poderia ter sido previsto à escala de uma década, ou seja, a perceção no início de cada década sobre aquilo que viria a ser a realidade no seu final falhou sempre de forma flagrante.

Com este padrão retroativo justificou Friedman a razão por que as suas previsões para o futuro divergiam também do senso comum à data em que foram feitas. Naquilo que já podemos saber, ou seja, a década que já passou, nem o senso comum nem Friedman acertaram nos prognósticos. A década de 2020 está a chegar substancialmente diferente do que a poderíamos imaginar em 2010. Os exercícios que vamos fazendo para 2030, mesmo apoiados em agendas internacionais, europeias e nacionais plenas de compromissos, metas, roteiros e indicadores, serão sobretudo úteis para definir um sentido e ir aquilatando da adequação da escolha de acordo com os critérios que escolhermos para avaliar.

Numa outra escala, há 100 dias, muitos dos acontecimentos políticos, sociais e económicos que hoje ocupam a atualidade não eram previsíveis. Prever o que vai marcar os próximos 100 dias é também um exercício de alto risco. Em cada dez dias ou menos, a perspetiva para os 100 dias seguintes pode sofrer alterações disruptivas com impacto em cadeia nas várias dinâmicas.

Ilustro esta ideia com dez exemplos, entre muitos outros, de bifurcações com impacto sistémico; avançará ou não o Facebook com a sua criptomoeda? Percorrerá a Google a última milha para a generalização da computação quântica? Será o Reino Unido capaz de desatar o nó da sua saída ou manutenção na União Europeia? Haverá um novo equilíbrio no Médio Oriente que reduza o risco de uma deflagração violenta em larga escala? Conseguirá a Comissão Europeia constituir-se e aprovar um programa credível? Haverá luz ao fundo do túnel para o desenho de um Quadro de Financiamento Plurianual da União Europeia à altura das suas ambições e das suas obrigações geoestratégicas? A desagregação política e social em grandes zonas da América Latina será contida? O impeachment de Trump ganhará condições para ter vencimento? A Espanha conseguirá finalmente um Governo estável e uma solução de diálogo construtivo entre as suas regiões, incluindo a Catalunha? Quantas questões chave terão um desfecho estrutural e, no entanto, não ainda sequer possível de identificar neste momento?

Mais do que nunca, com a aceleração científica e tecnológica que esmaga o tempo e o espaço, 100 dias são um sopro na velocidade com que se esvaem e um furacão no impacto que podem ter. Talvez por isso se tornou hoje popular anunciar programas com impacto estrutural para 100 dias.

Cem dias talvez não cheguem para mudar o mundo, mas podem tornar irreversíveis conquistas e fracassos que se repercutirão por muitos anos. Os próximos 100 dias são sempre os mais importantes.

 

Eurodeputado

 

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