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Etiópia-Eritreia. Por trás do acordo de paz que valeu um prémio Nobel

Etiópia-Eritreia. Por trás do acordo de paz que valeu um prémio Nobel

AFP João Campos Rodrigues 06/11/2019 21:18

Embora o fim do conflito entre Etiópia e Eritreia tenha sido celebrado pela comunidade internacional, muitos lembram que ele teve a mão da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, que cobiçam os portos da região. 

Quando o primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, visitou o Presidente eritreu, Isaias Afwerki, em 2018, foi recebido em Asmara por multidões que cantaram e dançaram de alegria. O abraço entre os dois líderes selou o fim de uma espécie de guerra fria regional que destabilizava o Corno de África há quase 20 anos. As relações económicas e diplomáticas entre os dois países vizinhos foram reatadas; a fronteira, reaberta. Um ano depois, a aproximação valeu ao primeiro-ministro etíope um prémio Nobel da paz, mas não ao Presidente eritreu – um dos mais autoritários ditadores africanos. E muitos analistas lembram que por trás do acordo existe uma complexa disputa geopolítica em que os Emirados Árabes Unidos (EAU) e a Arábia Saudita têm um papel destacado. “Ambos têm uma visão de longo prazo para a região que passa por assegurar o controlo dos portos”, explicou ao i Alexandra Magnólia Dias, especialista no Corno de África e investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI) da Universidade Nova de Lisboa.

Embora a Etiópia seja a principal potência regional, com forte tradição diplomática – e o único país africano a conseguir resistir ao colonialismo –, há muito que o Corno de África é palco de conflitos por procuração. Já o era quando o Império Português e o Império Otomano disputaram o mar Vermelho. Os portugueses armaram o Império Etíope – o lendário reino cristão de Prestes João – contra os muçulmanos somalis, apoiados pelos otomanos. “Se alguma vez apanhar um táxi em Adis Abeba e mencionar que é português, a primeira coisa que lhe vão dizer é que os portugueses, nos séculos xvi e xvii, vieram à Etiópia e ofereceram armas e ajudaram contra as invasões muçulmanas”, conta Alexandra Magnólia Dias, que vê nessa memória tão presente sinal das divisões que ainda marcam o país.


Os tempos e as potências envolvidas mudam, mas o prémio é o mesmo: o controlo sobre as águas do mar Vermelho e do estreito de Áden, uma das rotas comerciais mais importantes do globo. E um dos grandes estragos que o conflito com a Eritreia causou na Etiópia foi a perda desse acesso marítimo. Aliás, antes do acordo de paz, cerca de 95% das exportações etíopes passavam pelos portos de Djibuti, um país com menos de um milhão de habitantes que também teve conflitos com a Eritreia e conta com grande presença chinesa (ver infografia). 

 

É o acesso ao mar que torna a Eritreia uma peça fundamental do puzzle para os Emirados Árabes Unidos – que controlam os portos eritreus de Assab e Massaua. Apesar das recorrentes violações dos direitos humanos na Eritreia, era prioritário para as monarquias do Golfo acabar com as sanções sobre o regime – impostas sobretudo por pressão da diplomacia etíope. Foi esse um dos grandes motivos para os EAU e a Arábia Saudita apoiarem o acordo de paz entre Asmara e Adis Abeba – que acabou por ser assinado em Riade. “Estes atores não estão preocupados com a natureza dos regimes, com as condições da população, com as secas que afetam a região de forma cíclica, mas sim com a localização geoestratégica da região, nada mais”, salienta Alexandra Magnólia Dias.

Do outro lado do mar Embora os EAU disponham do porto de Berbera, na Somalilândia – que declarou unilateralmente a independência da Somália –, os portos de Massaua e Assab ganharam relevância com a guerra civil no Iémen. O conflito causou um dos piores desastres humanitários do século, com dezenas de milhares de mortos por desnutrição – algo para que contribui o bloqueio do porto iemenita de Hodeida: cerca de 80% dos alimentos, medicamentos e combustível do país passam por ali.

Ao longo do conflito, este porto estratégico trocou várias vezes de mãos, entre os rebeldes houthis, apoiados pelo Irão, e a coligação liderada pela Arábia Saudita e os EAU – que lançou os seus ataques contra Hodeida a partir dos portos eritreus, em 2018.

Hoje, apesar do cessar-fogo mediado pela ONU, as alianças ainda são mais incertas do que eram na altura da aproximação entre a Eritreia e a Etiópia. Entretanto, o eixo Arábia Saudita/Emirados viu-se em campos opostos na guerra do Iémen, divididos entre os separatistas do sul do Iémen, com apoio dos EAU, e o Governo iemenita, com apoio saudita.

Apesar do percalço, ambos os países mantêm uma estratégia comum a longo prazo na região. E não vêm nada com bons olhos a crescente influência dos seus rivais turcos, aliados do Catar, junto do frágil Governo somali, extremamente dependente de apoio militar internacional contra os extremistas islâmicos da Al-Shabaab – boa parte do qual é prestado pela Etiópia. “As elites etíopes têm uma capacidade negocial que mantém em equilíbrio turcos, egípcios, investimento do Golfo, chinês, norte-americano, canadiano, japonês e europeu”, salienta Manuel João Ramos, investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE.

“Inimigo do meu inimigo” O acordo de paz assinado por Abiy e Afwerki foi um alívio para os EUA, para quem o espoletar da guerra entre a Etiópia e a Eritreia, em 1998, foi um sério revés. “Toda a diplomacia de Washington para a região assentava no pilar Etiópia-Eritreia, para combater os islamitas”, relembra Alexandra Magnólia Dias. Na altura, nos finais dos anos 90, a Al-Qaeda tinha uma forte presença na África oriental. Muitos elementos do grupo terrorista, incluindo o próprio Osama bin Laden, passaram pela Somália e pelo Sudão, onde mantinham campos de treino e até negócios, perante a passividade do ditador sudanês, Omar al-Bashir. “E quem os combatia? A Etiópia e a Eritreia. Com a guerra, foi tudo revertido”, explica a investigadora.

A situação mudou de tal forma que a Eritreia viria a ser acusada de apoiar os terroristas da Al-Shabaab para destabilizar a Etiópia e os seus aliados somalis. “O inimigo do meu inimigo meu amigo é”, sumariza Alexandra Magnólia Dias. E Adis Abeba aproveitou logo para pressionar os EUA – que costumavam ter uma base militar em Asmara – para colocarem a Eritreia na sua lista negra, restringindo o seu uso do dólar e dificultando transações internacionais – algo agravado pelas sanções da ONU à Eritreia, de 2009, que só foram levantadas o ano passado, após o acordo de paz com a Etiópia. O acordo, apesar de ter tido como mediador visível a Arábia Saudita, terá envolvido pressão indireta dos Estados Unidos, suspeita Alexandra Magnólia Dias. “Riade está alinhada com Washington no que toca às orientações para a região”, lembra. 

Contudo, independentemente de todos os interesses envolvidos no Corno de África, tanto Alexandra Magnólia Dias como Manuel João Ramos se mostram seguros de que a Etiópia manterá o seu papel decisor na região. Ao contrário do que consideram muitos analistas, Abiy Ahmed “não é uma marioneta dos Estados Unidos e das monarquias do Golfo”, assegura a investigadora, que vê no acordo de paz com a Eritreia “uma vitória da diplomacia etíope”. Já Ramos relembra que o primeiro-ministro etíope é um homem do partido governante que simplesmente “gere os novos tempos” com algumas reformas. 

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