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Eritreia. A “Coreia do Norte do Corno de África” não recebeu Nobel

Eritreia. A “Coreia do Norte do Corno de África” não recebeu Nobel

AFP João Campos Rodrigues 06/11/2019 21:40

Os abusos durante o serviço militar obrigatório obrigaram centenas de milhares de eritreus a fugir, muitos para a Europa.

Quando a fronteira entre a Etiópia e a Eritreia foi reaberta, o ano passado, graças ao acordo de paz entre os dois países, foi uma explosão de alegria para milhares de famílias, separadas há décadas pelo conflito. “Não tenho palavras para expressar a minha felicidade”, contou ao Conselho de Refugiados Norueguês Haregu, uma doméstica eritreia, que reencontrou os três filhos. “Abracei-os e beijei-os uma e outra vez, chorei tanto”, descreveu. Mais de 10 mil pessoas cruzaram a fronteira só no primeiro mês. Os eritreus terão ficado chocados com o desenvolvimento etíope, enquanto a Eritreia continua a ser “um ‘Estado caserna’, altamente autoritário, com partido único, musculado, sem oposição ou média independentes”, explica Alexandra Magnólia Dias, investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI) da Universidade Nova de Lisboa. O regime eritreu é liderado por Isaias Afwerki – que não recebeu um Nobel da Paz pelo acordo com a Etiópia – e visto “como a Coreia do Norte do Corno de África”, explica o antropólogo Manuel João Ramos, do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE.

A guerra com a Etiópia, que tem 100 milhões de habitantes, levou a Eritreia – que tem menos de cinco milhões – a recorrer ao serviço militar obrigatório, para homens e mulheres, que passa pela temida academia militar de Sawa. “Há imensas histórias de abusos a jovens, em particular a mulheres”, conta Alexandra Magnólia Dias. A Human Rights Watch descreve Sawa como uma “grande prisão”, rodeada de guardas e arame farpado.

Algo que se mantém após o acordo de paz e o principal motivo que levou 500 mil eritreus a fugir do país, segundo a ONU. Muitos arriscaram a perigosa travessia do deserto do Sinai e, depois, do mar Mediterrâneo, para tentar chegar à Europa. Boa parte acabam nas mãos de traficantes humanos, arriscando a morte, violação e tortura. “Uma história de horrores. E não mudou nada para a Eritreia”, resume Alexandra Magnólia Dias. E apesar das promessas, continua a haver constrangimentos na fronteira com a Etiópia. “O interesse do regime eritreu num descongelamento completo de relações é limitado”, explica Manuel João Ramos, notando que o regresso da diáspora eritreia pode fragilizar o regime.

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