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Que Sophia não morra às mãos da unanimidade

Que Sophia não morra às mãos da unanimidade

Diogo Vaz Pinto 06/11/2019 13:56

No dia em que se assinalam os cem anos do nascimento de Sophia de Mello Breyner, recordamos a poeta.

A persistência do fascínio que envolve Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) tem decerto muitas causas, mas prende-se decisivamente à força de convocação da sua obra, a um resgate do divino entre a trama dos sinais aos quais a pulsação da vida mortal se ata. Assim, os leitores desta poeta sabem-na reservada a horas serenas de embravecimento, e o convite para «o seu reino claro e inacessível» vive do próprio ritmo cercante do «coração crescente da distância». No ano do seu centenário, se o reconhecimento do seu génio assume uma aura de beatitude, esta unanimidade – que costuma ser um efeito embaraçante e embaraçoso – sinaliza, afinal, a opção desta poeta por uma estética exemplar. Na sua enganadora limpidez ou simplicidade, esta poesia fez um longo caminho, preferindo o rigor à extravagância no modo como chama a si o pulso de antiquíssimos ecos. Há nela uma pregnância do mundo quando este se vê sustentado pelas aspirações humanas, pelo sonho. Sophia fala como quem guardasse no mais íntimo de si as lembranças de ter atravessado o paraíso. Assumindo a sua admiração pela «visão engrandecida» que preclude qualquer dos seus versos, Herberto Helder diz-se tocado pois «tamanho sonho, tão sobranceiramente natural, sonho irredutível, é a prova do próprio mundo». Fica claro, por isto, o efeito de congratulação entre os leitores de Sophia, pois até na denúncia, e mesmo quando a sua poesia «procura emergir de um mundo que apodrece», o seu assunto é, como vinca Herberto, «a dignidade do mundo». E isto, no terrível século que passou, como nas duas primeiras décadas deste, é o que parece cada vez mais estar em causa, em risco. Nesse aspeto, o testemunho desta autora é uma fé que não brutaliza, que na sua expressão contém a incapacidade de ceder, de aceitar ou comprometer-se de algum modo com as formas de terror. Hoje, essa é um modo de resistência heroica diante de orientações que procuram corroer os laços solidários, impor-se na esfera pública pela saturação, entrando em tenebrosas negociações. No sentido oposto, se há nesta obra «a estoica conformidade com a essência efémera da vida», como diz Eduardo Lourenço, ela busca o ânimo com que o Homem se projeta para a imortalidade, «uma identificação imemorial com o coração do mundo», e o que espera do seu leitor é que não ceda, não desista. Esta intensidade só se alcança de forma premeditada, e Joaquim Manuel Magalhães notou que «Sophia Andresen ao falar de justiça, de liberdade, de plenitude, está simultaneamente a falar de ritmos; está a excluir léxico; está incluir organizações de tecidos vocabulares por onde o pano do discurso se desfralda em tela de prodígios».

A excelência é, hoje, mesmo na arte, um sentido perante o qual, por pudor, até os artistas mais ambiciosos recuam. Herberto diz-nos que, em Sophia, o «poema existe por si, é uma forma impessoal que as mãos limpas arrancam à desordem para apresentar como ordem objetiva no meio das corrupções, inclusive as corrupções da nomeação». Mas o cinismo, a hipocrisia, de tal modo oleiam nos nossos dias os mecanismos sociais que tantos se convencem de que estão inscritos na própria natureza humana. O desespero tornou-se uma convicção. Ora, a alegria com que se celebra o centenário desta autora é a de acolher um renascimento, a de uma musa de si mesma e que, por efeito de arrasto, através do seu canto, encoraja, contagia. Eduardo Lourenço falou da amiga como «a amorosa das coisas e dos gestos que o nome justo e a visão clara subtraem à perpétua evanescência para que fiquem na nossa memória como anjos em perpétua e fulgurante vigília». E até no plano da identificação com este país, Lourenço nota que «Sophia restitui a túnica dilacerada do imaginário português, a sua fragmentação sem remédio, na sua poesia unificante».

 

Palavras aladas

Do tanto que a História nos fez tombar, e os nossos próprios dirigentes e a elite se aplicaram em atraiçoar-nos, humilhar qualquer sentido de honra ou grandeza, de tal modo que, como o poeta João Miguel Fernandes Jorge escreveu, este tornou-se um «país de restos de palavras». É difícil erguer-se porque nem pelas palavras chega a criar um sentido de inteireza. Temos, hoje, dificuldade em conceber-nos como um centro irradiador de uma cultura humanística ardente, e daí que Sophia venha há décadas em nosso socorro com as suas «palavras aladas». Afinal, na sua «inaudita leitura de Homero», ela surge-nos como uma amante tardia de um cadáver demasiado belo e sempre fresco. O estado avançado da sua decomposição espalha um perfume suavíssimo, influenciando tudo. E Sophia desperta ao deitar-se com ele, confrontando o apelo imortal deste rei fundador com o seu tumulto mortal. Há na obra da poeta portuguesa o deslumbre diante do transcorrer das eras, e uma paixão que se dedica a fazer com que o instante conte. Assim, bate-se para que nós, seres que se reconhecem feitos para a impermanência, nos sirvamos disso como ímpeto para habitar poeticamente o mundo. De resto, para Sophia a poesia é o único verdadeiro ponto de vista sobre o real: «Onde a poesia não estiver nada de real pode ser fundado», escreveu ela.

Além do empenho posto na celebração dos cem anos do seu nascimento, que se cumpre apenas a 6 de novembro, e que, entre tantas iniciativas, contou esta semana com um colóquio internacional de dois dias na Gulbenkian, há uma edição que acaba de sair e merece algum destaque. Falamos da primeira biografia dedicada à única mulher escritora no Panteão. Trata-se de um trabalho da jornalista Isabel Nery que chegou agora às livrarias com o selo da Esfera dos Livros.

´Tem havido nos últimos meses sinais do nosso um tanto anémico meio editorial para contrariar o vazio no que toca a biografias de figuras ligadas à cultura, e é certo que a lembrança pode bem ser a nossa melhor arma face a um tempo em que a atenção se vê assediada de todos os lados por uma série de encenações de conflitos estéreis, debates que se reciclam sucessivamente, num efeito de zombificação, em que nada está vivo, embora tudo se recuse a morrer. É um ciclo vicioso em que o espaço público fica capturado pelas narrativas e fórmulas do entretenimento, do espectáculo, que, através dos novos meios de comunicação, excitam uma fome desligada de necessidades reais, e que nos converte em seres imersos numa ansiedade constante.

Lançar luz sobre a vida pública e privada dos grandes vultos é sempre uma promessa de que não nos rendemos a modos de difusão cultural que procuram valorizar a novidade, servir sob a capa da originalidade algo que muitas vezes não passa de um recuo face ao que já foi conquistado antes, mas sobre o qual um público que é mantido na ignorância não tem qualquer perspetiva. Acontece que uma biografia como aquela que nos traz a antiga jornalista da Visão, se é bastante competente ao estruturar uma narrativa cativante, como pressentiu António Guerreiro tendo apenas folheado o livro, e lido as primeiras páginas, «estão lá os factos da vida de Sophia, mas não encontramos lá nenhuma Sophia». O crítico literário lembra ainda que «escrever uma biografia não é o mesmo que fazer a reportagem de uma vida». Dito isto, o trabalho de Isabel Nery consegue ser um eficaz trabalho preparatório para uma biografia que venha a ser feita sobre Sophia.

 

O corrimão da objetividade

Apesar do patusco arranque que Guerreiro cita, e que nos leva a temer que Isabel Nery, sentindo a atração do seu objeto, possa ter sido tentada a servir-nos um retrato atravancado de pastiches manhosos, enlevos que escorregam para a literatice e um longo desfile de lugares comuns, a jornalista teve o bom senso de não largar o corrimão da chamada ‘objetividade’. Ou seja, essas guias que mantêm o jornalista focado em factos apurados e testemunhos recolhidos de familiares e amigos próximos. Assim, esta biografia não-autorizada – Nery adiantou ao Público que não quis submeter o seu trabalho à censura ou aprovação da família, preferindo assumir total autonomia sobre o resultado final –, passa com distinção, pelo menos, num aspeto decisivo: não nos maça. E mesmo se é muito deficiente nas aproximações que vai fazendo à obra, seja poética, seja ficcional de Sophia, consegue não dizer disparates, ainda que reforce noções um tanto limitadas. Onde a biografada talvez pudesse ter queixas é, sobretudo, numa certa falta de apuro na linguagem, na distância a que este relato da ‘vida civil’ fica da forma soberana como a autora sempre mostrava no seu discurso uma propriedade radiante, isto por meio daquela sua «divina e opaca linguagem» (Eduardo Lourenço).

O que se perde nesta escorreita leitura é um vislumbre da influência de Sophia que pudesse conduzir sem inebriar a escrita de Nery. Se Lourenço a vê «como quem canta ou dança para si mesmo no meio do mundo», é uma sorte que, mesmo que nos ativéssemos apenas aos factos biográficos, esse seria ainda um caminho para reconhecer a exemplaridade ética na conduta desta mulher.

É curioso que aquilo que mais frágil nos parece no retrato que Isabel Nery é, ao mesmo tempo, a garantia de que, na busca de ser fiel à biografada, não resvalou para o outro lado. Por vezes uma escrita apenas funcional, e aqui e ali um tanto tosca, salva-nos desses requebros dos biógrafos que cedem de tal modo na sua admiração que perdem o caminho, enveredando por um discurso da exaltação que estoira a luz e não deixa discernir nada do que foi a vida do biografado nos seus aspectos mais prosaicos. E valendo-se da sua experiência como jornalista, Nery mostra uma desenvoltura na forma como sabe organizar a informação em capítulos equilibrados, com o livro submetido a uma estrutura que não larga o leitor da mão. E esta generosidade traça também uma distinção na abordagem da jornalista, e que pode ser instrutiva num país que, sem uma tradição neste género, pretende agora preencher essa lacuna virando-se para romancistas. Foi essa a opção da editora Contraponto, que logo confirmou que não há pior para um biografado do que ter à perna um biógrafo ansioso por sair debaixo do seu objecto, seja tentando ombrear ou colar-se-lhe.

 

A jovem que nem sequer teve notas muito boas

Sophia de Mello Breyner Andresen – título que não podia ser mais directo – começa a montar o puzzle descendo a genealogia da autora, aproveitando-se da importância que os lugares tiveram no imaginário e na obra da poeta para não se ficar pelo sentido temporal, mas dando alguma espessura ao lado espacial, visitando os lugares, informando-nos sobre o que restou e se perdeu. Assim, não só acompanhamos a jornalista nas tantas viagens, como apreciamos o modo, ao mesmo tempo resoluto e desembaraçado, como contraria a ideia de que o principal seria o trabalha de sapa, a tentar reconstituir o rasto de Sophia a partir do que se acumulou nos arquivos. E não é que falte disso aqui, simplesmente, a experiência de Nery, que tem já publicado livros como As Prisioneiras – Mães Atrás das Grades (2012) ou Chorei de Véspera – Ensaio sobre a Morte, por Amor à Vida (2016), leva-a a ter alguma cautela para não sobrecarregar o leitor de informação inútil apenas para provar que fez o trabalho de casa ou para engordar o volume. Não há aqui páginas dessas que se confundem com relatórios morbidamente detalhados. O atractivo é mesmo a forma como a jornalista reconstitui episódios e períodos da vida de Sophia a partir dos seus achados.

Um efeito particularmente bem conseguido por esta biografia é como a jornalista, sem macular aquela elegância com algo de etéreo que leva os leitores a indentificarem Sophia «como uma sílfide com a vida silenciosa e as metamorfoses dos elementos mais fluidos do universo» (Eduardo Lourenço), consegue torná-la real, mostrar-nos a jovem que não foi além do primeiro ano do curso de Filologia Clássica, e que nem sequer teve notas muito boas. Se detestava desde os tempos do colégio ter de se levantar cedo, muito jovem Sophia dá já sinais de uma força de caráter invulgar, investida de uma crença nas suas capacidades intelectuais, de tal modo que se serviu do ambiente de privilégio em que cresceu para se libertar, servindo-se dele contra ele. Se é encantador vê-la como mãe a criar para deleite dos filhos os mapas de um tesouro interminável, rejeitando as narrativas 'apatetadas' que eram dirigidas aos mais novos e, assim, tornando-se a nossa mais célebre autora a abrir capitanias bem dentro do país da infância, a descrição das sessões em que, a cavalo da sua aristocracia, que lhe concedia cuidados especiais da parte do regime, e empunhando a lança da sua ironia para derrubar os agentes da PIDE, traz-nos uma satisfação particular. Não deixa, por outro lado, de ser perverso como foram sobretudo aqueles que tinham as costas quentes, devido a privilégios de classe, os que puderam comover-se com a heroicidade das suas actividades oposicionistas face a um regime que tinha, na verdade, dois pesos e duas medidas. Neste capítulo, é engraçado ver como Sophia e o marido, Francisco Sousa Tavares, têm condições para o romantismo quando uma das detenções coincidiu com o aniversário do casal. «Querido Francisco, /Faz hoje 20 anos do nosso casamento! É inacreditável que tenha passado tanto tempo, sem que nada tenha envelhecido [...]. Amanhã volto a vê-lo por detrás do vidro. Ao fim de 20 anos de casamento voltamos ao namoro de janela», escreve Sophia numa carta.

 

O exemplo de Ulisses

Mas a própria tensão entre Sophia e as suas origens, as condições que, no fundo, tornaram mais consciente e profunda a sua revolta, leem-se na sua poesia, cada vez mais marcada pelo confronto e o combate. E há versos políticos seus que, com o tempo, se vêem investidos hoje de um inquestionável vigor: «Nestes últimos tempos é certo a esquerda muita vez/ Desfigurou as linhas do seu rosto//Mas que diremos da meticulosa eficaz expedita/ Degradação da vida que a direita pratica?».

É neste sentido que, de algum modo, se esta biografia não acrescenta grande coisa ao mito literário de Sophia, vem reforçar a dimensão pública da sua intervenção. E isto lembra-nos que a grandeza desta obra se fez da forma como nela «o íntimo ascende sempre a tornar-se um valor», sendo a sua «uma escrita partilhável e declamável que se conjuga com a cidade», como nos diz Joaquim Manuel Magalhães. Isabel Nery tem assim um contributo importante para nos lembrar que a Sophia que todos aclamam deixou claro quais eras as suas causas e contra o quê e quem era preciso lutar. E a maior traição que se lhe faz é fingir que, com toda a clareza de uma poesia que se quis pública, e que o fez pela impessoalização de modo a tornar mais transparente a sua intenção ética, porventura, talvez não tenha sido clara o suficiente. Neste ponto é que deve exigir-se rigor e lealdade na representação do génio de Sophia, para que não cresça em sua volta um inane culto empenhado em entregá-la àquela unanimidade burra, esvaziando e neutralizando a sua obra, por meio de inúteis homenagens póstumas ou monumentos, «transformando-a em ferro e deitando esse ferro sobre os ombros das gerações futuras». Exaltar Sophia é, por isso, repudiar «esta civilização em que estamos [que] é tão errada que/ Nela o pensamento se desligou da mão». E agora, vem a cultura grega arcaica e clássica, que não é um snobismo, mas a prova de que a cultura, na verdade, nunca foi animada por outra coisa que não «o rumor insistente e partilhável em busca de uma justiça acreditada, de uma viabilização da utopia pressentida» (JMM). Assim, eis o exemplo de Ulisses rei de Ítaca, homem que «carpinteirou seu barco/ E gabava-se também de saber conduzir/ Num campo a direito o sulco do arado».

 

[artigo originalmente publicado no SOL a 19 de maio de 2019]

 

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