15/12/19
 
 
José António Moreira 06/11/2019
José António Moreira

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Dias de inverno

Há dias assim.

“Para a próxima aula vão preparar o caso 4.16, do livro. É imprescindível que o façam. Tenham um bom resto de dia.” Com isso, dei por terminada a sessão. Debrucei-me sobre a secretária e comecei a ordenador os papéis sobre ela espalhados, para os colocar na pasta. O aluno abeirou-se, pigarreou para chamar a minha atenção, e disse ao que vinha: “Professor, posso usar o seu livro para tirar uma foto ao caso que recomendou?” O telemóvel na mão deixava entender que esperava uma resposta positiva da minha parte, autor do livro. Olhei-o nos olhos e sorri: “Sabe, fotografar ou fotocopiar livros sem autorização do editor é um crime. É roubo de propriedade intelectual. Portanto, eu não lhe cedo o meu exemplar com tal propósito. Se quiser fazer a foto vai ter de arranjar quem lho empreste. Por exemplo, vá à biblioteca.” Ele pediu desculpa, retirando-se.

“Se ainda não viram o ‘Joker’, devem fazê-lo. É um filme muito bom. Vale a pena.”Reunidos à volta da pequena mesa, no decurso do almoço frugal que separa a manhã da tarde letiva, os restantes convivas levantaram os olhos, curiosos. Contribui para a conversa: “Dever ser mesmo. Já fui três vezes ao “shopping” para assistir ao filme e em todas elas deparei com a lotação esgotada.” Ela pegou na deixa: “Vi-o em casa”, acrescentou com um grande sorriso. “O meu filho sacou-o da ‘net’. Não percebo como o faz, mas ele tem muita habilidade para esta coisa das novas tecnologias. É claro que me gasta rapidamente o “plafond” de dados, mas eu sou compreensiva quanto a tal consumo. É preferível os miúdos entreterem-se na ‘net’ do que andarem por aí a fazer asneiras”. O sorriso que espelhava na face esmoreceu quando, abruptamente, a sequência da conversa foi cortada por um dos convivas: “Não acham que estes filetes já tiveram melhores dias?”

O telefone tocou, estridente. No visor estava estampado o nome de quem me telefonava, um colega de profissão, e amigo, de uma outra instituição de ensino. Os cumprimentos habituais, duas ou três promessas mútuas de tudo fazer para concretizar um próximo encontro, destinado a “colocar a conversa em dia”. A razão do telefonema chegou, depois deste pequeno preâmbulo. “Estou a telefonar-te porque estou com um problema e julgo que me podes ajudar. Tenho um orientando que vai elaborar uma dissertação na tua área de investigação. Necessita dos dados estatísticos. Aqui a minha instituição deixou de subscrever a licença da base de dados, já há dois ou três anos. Como sei que vocês a subscrevem, ligo-te para ver se me podes arranjar os dados de que necessitamos. Se quiseres, o meu orientando vai aí sacá-los.”Dado o nosso relacionamento, não foi fácil dizer que não. “Vais desculpar, mas não te posso ajudar neste assunto. A minha instituição tem uma política muito estrita de respeito pelos direitos proprietários das bases de dados. Salvo se existir um docente da casa envolvido na investigação, proíbe expressamente a disponibilização de dados a pessoas externas à instituição.” O silêncio do outro lado mostrou-me, se dúvidas eu tivesse, que não era essa a resposta esperada. Ajuntei: “Por que não pedis diretamente à empresa proprietário dos dados a disponibilização da informação de que necessitais? Sei de um caso em que acederam a um pedido desse género, dando-nos autorização para permitirmos a recolha. O que fizemos.” As despedidas foram pouco efusivas, a reiterada promessa de um breve encontro soou ainda mais falsa.

Há dias assim. Chego a casa muito cansado. A mudança da hora, o escuro da noite que aparece mais cedo, a maior pressão do trânsito da hora de ponta. Contributos, adicionais, para que surjam estes “dias de inverno”, como lhes chamo.

 

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