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Lyon-Benfica. Hoje é dia de o Dâmocles entrar em campo

Lyon-Benfica. Hoje é dia de o Dâmocles entrar em campo

AFP Afonso De Melo 05/11/2019 13:47

Por tudo o que fez na sua história, a águia tinha obrigação de se sentir em casa na Europa. Hoje tem um jogo absolutamente decisivo.

Dâmocles até podia, aqui para nós que ninguém nos ouve, ser nome de jogador brasileiro, vindo lá de Mogi Mirim ou de outra daquelas terriolas que fornecem o futebol em Portugal tanto de craques autênticos como de verdadeiros pernas--de-pau. Mas o Dâmocles que aqui trago à colação é mesmo o Dâmocles, o de Siracusa, do qual Cícero contou a história que ainda hoje serve de aviso, neste caso de aviso sério ao Benfica que, em Lyon, logo pelas oito horas da noite, joga o seu futuro nesta edição da Liga dos Campeões, competição que o seu treinador não parece ter levado muito a sério, pondo-se a jeito para já somar duas derrotas em três jogos, ainda por cima frente a adversários que o bom senso manda dizer não serem significativamente superiores ao atual campeão nacional e líder isolado do campeonato.

Toda a gente conhece a história do Dâmocles, mas eu resumo aqui num instante para os que já não se lembram. Dâmocles era um rapaz siciliano sem grandes qualidades humanas, basicamente um puxa-saco dos antigos, e antigo cai aqui que nem ginjas, já que o episódio vem de uns 300 anos antes de Cristo. Sabujo, passava os dias a fazer rapapés ao soberano de Siracusa, um tal Dionísio, dizendo que ele, Dionísio, era um afortunado, o mais feliz dos homens à face da terra, o mais inteligente dos sábios, o mais sabedor dos multiscientes. Um bocado farto de tanta babugem, Dionísio propôs-lhe que assumisse o trono por um dia e gozasse das honrarias que parecia invejar com tanto fervor. Em contrapartida, quando o sentou no cadeirão do poder, rodeado de criados, de iguarias e das mais formidáveis mulheres, pendurou-lhe sobre a cabeça uma espada apenas presa por uma crina de cavalo. Dâmaso apanhou tal medo que não tirou proveito nem de um segundo do poder de Dionísio. Meteu o rabo entre as pernas e foi para casa estudar a lição que lhe fora dada.

A espada Pois bem. A seguir à vitória caseira frente ao Lyon, também podem pensar os benfiquistas que voltaram a ficar de cadeirinha na luta pelos lugares que dão acesso à fase a eliminar da Liga dos Campeões. Afinal, neste momento, estão a um escasso ponto de Lyon e de Zenit de Sampetersburgo e a três do líder, Red Bull Leipzig. Com nove pontos em liça, tudo pode ainda acontecer, é bem verdade. Mas a espada está lá, balouçante, presa apenas por uma fina crina de cavalo. Uma derrota em França retira praticamente o Benfica da corrida pelos dois primeiros postos e até deixa a Liga Europa quase em fase de miragem.

Aceitemos, por isso, que só uma vitória poderá devolver às águias a altivez que costumavam exibir nas suas pelejas europeias. E estão aí sete finais da Taça dos Campeões, três da Taça UEFA/Liga Europa e ainda duas da Taça Latina – prova que me recuso, como acontece levianamente com alguns cronistas que raiam a necedade, a desqualificar ou a desprezar só porque é mais antiga do que a memória da maior parte de todos nós – para provar que a Europa é uma casa na qual o Benfica tem de se sentir à vontade, deitando para trás das costas, definitiva e perentoriamente, quaisquer complexos de inferioridade.

Parece, pelos últimos jogos que vimos, que Bruno Lage assentou numa base da equipa que garante, para já, uma capacidade de pressão alta sobre os adversários, de tal forma que, frente ao Rio Ave, só faltou jogar no espaço atrás da baliza do adversário. Chega para a Liga dos Campeões? Seria o primeiro a soltar um “Não!” se estivéssemos a falar dos grandes da Inglaterra, Espanha ou Alemanha. Mas estamos a falar do Olympique de Lyon, enfermado numa crise evidente, que mostrou na Luz muito poucos argumentos, excetuando um poder físico assinalável na frente de ataque, embora desligado e escassamente talentoso. Com Chiquinho e Vinicius, parecem os encarnados ter descoberto a solução para os problemas de falta de criatividade e de força junto aos centrais adversários. Cada um com o seu estilo mas, inequivocamente, os melhores que o clube possui neste momento da época. É verdade que falta Rafa e que poderia tornar-se fundamental num encontro com as características do de hoje. Mas há soluções, desde que Lage não volte a repetir equívocos como os que o levaram a teimar num sistema e nuns intérpretes que, decididamente, não funcionavam.

Ele gosta de mudar a equipa todos os jogos – a época passada não foi assim, mas enfim... – e temos de contar com mudanças. Desde que entenda que a espada está presa por um fio...

 

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