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Os retratos de Henri Cartier-Bresson. Uma biografia do século XX

Os retratos de Henri Cartier-Bresson. Uma biografia do século XX

Jornal i 31/10/2019 22:53

A exposição Henri Cartier-Bresson: Retratos abre esta quinta-feira portas na Alfândega do Porto, trazendo 121 trabalhos de um dos icónicos fundadores da Magnum Photos.

Em 1955, Henri Cartier-Bresson esteve no Porto e fotografou a cidade. As imagens tornaram-se, de certa forma, uma radiografia dos recantos da Invicta daquela época e permaneceram no imaginário coletivo. Não são essas fotografias, contudo, as estrelas da exposição que abre esta quinta-feira portas no Edifício da Alfândega do Porto. Henri Cartier-Bresson: Retratos traz 121 trabalhos do fotógrafo francês, alguns de gente desconhecida, muitos outros de algumas das mais marcantes figuras do século passado. Marilyn Monroe, Coco Chanel, Pablo Picasso, Simone de Beauvoir, Robert Kennedy, Edith Piaf ou Martin Luther King contam-se entre os retratados pela “eterna” Leica de Henri Cartier-Bresson (1908-2004). Uma autêntica biografia do século XX, pensada a partir do livro Tête à Tête (1998), aqui produzida pela empresa portuguesa Art For You, em parceria com a Fundação Henri Cartier-Bresson.

As primeiras imagens de Tête à Tête foram captadas na década de 1930, “período durante o qual Henri Cartier-Bresson [também conhecido como HCB] viaja pela Europa com o amigo André Pieyre de Mandiargues”, nota a organização em comunicado. “Os últimos retratos foram tirados no final do percurso fotográfico quando HCB decide abandonar a fotografia para dedicar-se à sua paixão primária: o desenho”.

As fotografias escolhidas para a mostra, que conta com a curadoria de Aude Raimbault, espraiam-se durante esse leque temporal de 70 anos e mostram um lado íntimo dos retratados. “O fotógrafo francês conseguia capturar no espaço de um segundo a eternidade de uma expressão, o silêncio íntimo da alma, a força de um caráter”, sintetiza Ana Cristina Baptista, da Art For You, sustentando que “os fotografados mantiveram com Henri Cartier-Bresson um encontro único, direto, pessoal”.

Um encontro que Cartier-Bresson aproveitava como ninguém para cristalizar a essência daqueles que se expunham ao escrutínio da sua lente. O fotógrafo dizia que “o retrato era uma visita de cortesia que durava quinze ou vinte minutos”, lembra Ana Cristina Baptista no mesmo comunicado. “Ora, é essa genialidade sem precedentes que poderemos observar sem filtros nesta exposição (...). Uma oportunidade única de conhecer de perto o trabalho desta figura incontornável do mundo das artes que, paradoxalmente, detestava deixar-se fotografar”.

Este caráter esquivo indicia uma certa timidez e é certo que Cartier-Bresson não gostava da sacralização criada à sua volta. Mas olhando para o leque de personalidades que conseguiu persuadir a deixar-se fotografar, é difícil não olhar para HCB como um sedutor. Um sedutor a quem interessava mais do que qualquer outro apanágio a história dentro de cada um dos retratados: capturou a imagem de gente tão díspar como Che Guevara, William Faulkner, Albert Camus, Jean-Paul Sartre, Truman Capote e Samuel Beckett, Henri Matisse ou Igor Stravinsky. Uma galeria de ilustres que não se finda nestes nomes.

Para lá da fotografia - à qual começa a dedicar-se em 1931, depois de ver uma foto do húngaro Martin Munkácsi na revista Arts et Métiers Graphiques, que o leva a comprar a primeira Leica e a viajar pela Europa -, Cartier-Bresson foi também realizador, pintor e documentarista. A sua primeira exposição de fotografia dá-se dois anos depois da tal viagem pela Europa, na Julien Levy Gallery, em Nova Iorque. A mostra foi bem recebida pela crítica e, a partir daí, começa o seu fulgurante percurso, começando por documentar a Europa de Leste e o México. De seguida, realiza três documentários sobre a guerra civil espanhola. Durante a segunda guerra mundial, foi capturado e enviado para um campo de concentração alemão, do qual escapou três anos depois - costuma dizer-se, sem grande estranheza, que há um HCB antes e um HBC depois da guerra. Em 1947 fundou, juntamente com Robert Capa, David Seymour, George Rodger e William Vandivert, a agência fotográfica Magnum Photos. Em 1952, publica o seu primeiro livro, Images à la Sauvette [O momento decisivo] e torna-se o primeiro fotógrafo estrangeiro admitido na União Soviética desde o início da Guerra Fria. A partir de 1974 dedica-se ao desenho e até morrer, em 2004, fotografou essencialmente a nudez do corpo feminino.

 

Os mesmos recantos, um novo olhar

A passagem de HCB pelo Porto não é o enfoque da exposição, mas o momento não foi esquecido na mostra. Para tal, a Art For You convidou os fotógrafos Luís Nobre, Pedro Mesquita, André Boto e Diogo Borges a expor o seu olhar sobre a cidade e revisitar os recantos que a lente de Cartier-Bresson captou há mais de seis décadas. Daí resultaram 12 imagens, reunidas sob o título Retratos - Porto: Um Olhar Contemporâneo. O valor das vendas destes trabalhos será entregue na totalidade à Associação O Joãozinho, que luta para obter financiamento para a nova Ala Pediátrica do Centro Hospitalar de São João. As duas mostras vão permanecer na Alfândega do Porto até 12 de abril de 2020.

 

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