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Uns pés descalços, um par de velas, um fantasma e esta mulher: Vitalina Varela

Uns pés descalços, um par de velas, um fantasma e esta mulher: Vitalina Varela

DR Cláudia Sobral 31/10/2019 19:38

Depois de Cavalo Dinheiro, chega esta quinta-feira às salas o sétimo filme de Pedro Costa: Vitalina Varela. Aquele que em Locarno deu por fim um Leopardo de Ouro ao que era já o inquestionável maior realizador português da atualidade.

É de noite. Não aquele “quase de noite ou quase de dia” que marca o início do inaugural O Sangue, de 1989, na descrição de João Bénard da Costa, mas um ponto da noite que só as personagens que o ocupam definirão. É de noite, isto é o aeroporto. Hão de estar geladas as escadas metálicas para estes pés descalços que as descem. Uns pés negros descalços e desfeitos em água (ou em lágrimas), esperados na pista pelas personagens possíveis para a receção a uma mulher que, depois de uma vida de espera em Cabo Verde, sente pela primeira vez o frio que se sente em Lisboa: o grupo das funcionárias da limpeza que, ao verem-na descer, vestida de preto, terão a certeza de que é ela. Vitalina Varela.

“Vitalina, os meus sentimentos. Chegaste atrasada. O teu marido está enterrado vai para três dias. Esta não é a tua casa. Volta para a tua terra”. A terra é Figueira das Naus, em Cabo Verde, lugar onde conheceu e se casou com Joaquim, e onde Joaquim a deixou para emigrar para Portugal. Lugar aonde nos há de levar Pedro Costa, para que saibamos como era – talvez para nos dar a certeza de que Vitalina fala a verdade quando confronta o espírito do marido que morreu sem que dele tivesse mais do que uma visita, um par de cartas e um telefonema a prometer um bilhete de avião para Portugal que em 40 anos nunca chegou, sem que pudesse voltar a vê-lo, sequer a enterrá-lo, perguntando-lhe porque veio, porque a deixou. “Um dia fugiste para Portugal e nem um adeus me disseste. Correste os becos de Lisboa atrás dessas mulheres de rua como um borrego que sai do curral”. E se, para ser nada, por que ficou.

As palavras que a recebem serão o menos comparadas com o que está ainda por vir. Mas Vitalina resiste. Cabo Verde era lugar de espera, e a espera acabou. Agora, a vida é aqui, na Cova da Moura e no que desta casa ("um trabalho muito mal feito") que Joaquim lhe deixou num bairro onde não se faz já uma missa. “Não há missa. Já não vem ninguém, nem para rezar um terço”, diz-lhe o padre (interpretado por Ventura, protagonista de Cavalo Dinheiro) que ainda assim lhes continua a pagar contas - e caixões. O padre que, depois de a resgatar das memórias de há muitos anos em Cabo Verde, lhe repete: “Aqui não há nada para ti”.

Vitalina e Ventura cruzavam-se já em Cavalo Dinheiro (2014), o filme que antecede Vitalina Varela, que esta quinta-feira chega às salas portuguesas (esta sexta-feira, o realizador está presente na sessão do Cinema Ideal, em Lisboa), depois de uma estreia em Locarno em que Pedro Costa venceu o Leopardo de Ouro (Melhor Filme) e Vitalina um Leopardo de Prata de Melhor Atriz. Foi durante a preparação desse filme, em 2013, quando Pedro Costa bateu à porta da casa que tinha sido do seu marido, Joaquim, à procura de um lugar para fazer uma das cenas desse filme ao passo (e em torno) de Ventura, personagem que o acompanha desde Juventude em Marcha, que o realizador conheceu Vitalina. 

É nessa continuidade guiada pelas personagens (Ossos, filme de transição, foi o último a contar com atores profissionais) com as quais Pedro Costa se vai cruzando, que o cinema de Pedro Costa se vai construindo. E seguindo. Desde Vanda, personagem inaugural na que passou a ser a sua forma de filmar (e não só filmar): “Também podemos fazer filmes assim: indo filmar todos os dias como se fôssemos pedir esmola, sem saber o que nos vai ser dado”, dizia em 2008 numa entrevista a Cyril Neyrat, editada pela Midas Filmes no livro que acompanha o DVD de No Quarto da Vanda.

O princípio foram as cartas que na rodagem de Casa de Lava (1994), a sua segunda longa-metragem, em Cabo Verde, lhe pediram que entregasse nas Fontainhas, bairro dos subúrbios de Lisboa, e que acabaram por o levar ao que foi Ossos, o primeiro da trilogia que ficou com esse nome: Cartas das Fontainhas. Foi em Ossos que conheceu Vanda Duarte para depois, com ela, embarcar num novo modo de filmar – mais longe do cinema do que antes, mas mais perto do que procurava retratar do que nunca, nesse lugar a que tão poucos conseguiram chegar – inaugurado na viragem do milénio, com No Quarto da Vanda (2000). Ela que faria ainda parte de Juventude em Marcha (2006), o último dos filmes daquelas Fontainhas em demolição onde se cruzava já com Ventura, que depois protagonizaria Cavalo Dinheiro. Desse filme, fez já parte Vitalina, que trabalhava como empregada de limpezas, acabada de chegar a Portugal, depois da morte do seu marido.

Como a de Vanda, a história de Vitalina é real, tão real que parecerá irremediavelmente ficção. Como Vanda, Vitalina é uma dessas personagens às quais Pedro Costa vai entregando o que hão de ser os seus filmes. Entre as Fontainhas e a Cova da Moura, que vistas do centro de Lisboa, ou de qualquer parte do mundo por onde Vitalina Varela tem sido apresentado, parecerão um mesmo lugar. Naquela mesma entrevista, Neyrat perguntava a Pedro Costa se o que o incomodava no centro da cidade era a realidade que ela impunha, e ele respondia: “Tenho o sonho de autoproduzir filmes fora dos centros de poder. [...] Também tinha de descobrir que sou feito para filmar as portas, os corredores, mesmo que estejam ao ar livre. O bairro oferecia-me um espaço magnífico para pensar. E pensar um espaço é uma das bases do cinema. Em Vanda – e já acontecia o mesmo no Ossos –, nunca sabemos realmente se estamos na casa de alguém, numa casa comum, ou se esta sala, este quarto, não será antes uma praça, uma ágora, um lugar onde as pessoas passam para dizer umas coisas ou apenas para se esconder”.

É nessa ágora que, mais do que na igreja desolada de Ventura ("não há nada mais triste do que um padre neste lugar"), se transforma também a casa de Vitalina. E por aí se torna claro que Vitalina Varela é muito mais do que uma das maiores histórias de amor eterno que o cinema foi capaz de contar. E esse amor está todo nela. Esse amor, e os fantasmas, carrega-os Vitalina entre o negro do qual, depois de O Sangue, ainda a preto-e-branco, e de volta ao mesmo texto de Bénard da Costa (“O Negro é uma Cor ou O Cinema de Pedro Costa”, que abre o livro Cem Mil Cigarros, editado pela Orfeu Negro em 2009), Pedro Costa consegue fazer emergir a cor. Aqui, entre o luto, a amargura e a dor de Vitalina Varela.

 

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