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Marquês. O dia em que Sócrates falou da Venezuela e das 'luvas' do Grupo Lena

Marquês. O dia em que Sócrates falou da Venezuela e das 'luvas' do Grupo Lena

Mafalda Gomes Carlos Diogo Santos 31/10/2019 10:27

Ex-primeiro-ministro criticou as declarações que o procurador Rosário Teixeira fez na terça-feira, dizendo que revelam “uma certa motivação pessoal”.

Ao terceiro dia de interrogatório, José Sócrates voltou a estar mais de cinco horas dentro do Tribunal Central de Instrução Criminal (TCIC). Na tarde de ontem, o juiz Ivo Rosa questionou o ex-primeiro-ministro sobre as alegadas influências exercidas sobre Hugo Chavez e que terão beneficiado empresas nacionais, como o Grupo Lena, e ainda sobre o dinheiro que estava nas contas de Santos Silva e que o MP acredita ser de Sócrates.

Segundo o i apurou, José Sócrates manteve a versão já apresentada de que nada sabe sobre o dinheiro do amigo, garantindo que os seis milhões que entraram nas contas de Santos Silva provenientes do Grupo Lena não se tratava de uma contrapartida por qualquer influência junto das autoridades venezuelanas. Além disso, terá ainda negado perante o juiz e o procurador Rosário Teixeira que o Regime Excecional de Regularização Tributária (RERT) lançado pelo seu segundo governo, em 2010, tenha tido o objetivo de proporcionar que Santos Silva trouxesse para Portugal o dinheiro que estava na Suíça, com um perdão fiscal e sem ter de justificar as origens do mesmo.

Segundo o CM na sessão de ontem, Sócrates acusou a direita de ter criado factos para o prejudicar, referindo mesmo o nome de Pedro Passos Coelho. O jornal referiu ainda que Sócrates terá usado uma postura de vitimização durante o interrogatório: “Fui insultado pelo MP três anos”. Já sobre o amigo terá afirmado: “Santos Silva é honestíssimo”.

A sessão voltou a estar fechada aos assistentes por determinação do juiz Ivo Rosa. Mesmo no que toca à jornalista Felícia Cabrita, que ganhou na Relação um recurso em que se determina que o juiz tem de a deixar assistir, tal não aconteceu. O magistrado considerou que como a decisão ainda não transitou em julgado o interrogatório de Sócrates teria de lhe ser vedado.

O ataque de Sócrates e a resposta de Rosário Teixeira Ontem à chegada ao tribunal, José Sócrates decidiu atacar o procurador Rosário Teixeira, referindo que pensava que os procuradores tinham apenas o propósito de defender a “Justiça e a legalidade democrática”. Esta reação surgiu depois de na terça-feira Rosário Teixeira ter respondido aos jornalistas que não dava relevância aos ataques feitos por Sócrates à acusação no primeiro dia de interrogatório: “O senhor engenheiro diz o que quiser. E, no fim, a gente faz contas”.

Ontem, apesar de não falar sobre a operação Marquês, José Sócrates aproveitou a presença das televisões no TCIC para mandar um recado a Rosário Teixeira, afirmando que a declaração do magistrado foi “infeliz e imprópria”. E acrescentou que tais palavras são “reveladoras do que esteve na base deste processo: uma certa motivação pessoal”.

Poucos minutos depois, quando Rosário Teixeira chegou ao tribunal e foi confrontado pelos jornalistas com o ataque de Sócrates disparou: “Ouviram o que eu disse e não tem nada a ver com ajuste de contas. É uma expressão comum”. O procurador do Departamento Central de Investigação e Ação Penal acrescentou ainda que o “Ministério Público tem de sustentar a acusação nesta fase” de instrução, até porque “é o que está na lei”. Reforçou igualmente que “os processos tem as suas fases e no fim é que as coisas são apreciadas”, deixando claro que era a isso que se referia quando disse que “no fim a gente faz contas”.

Recorde-se que nas sessões presididas pelo juiz Ivo Rosa, que começaram na segunda-feira, José Sócrates tem dito que a acusação de Rosário Teixeira é “alucinante” e mentirosa.

O que disse Sócrates na terça-feira No segundo dia de interrogatório, José Sócrates terá garantido que não só não nomeou Armando Vara para a administração da Caixa Geral de Depósitos, como ainda mostrou relutância à decisão de Teixeira dos Santos – uma versão que já tinha sido dada por este último.

Sobre Joaquim Barroca terá afastado a ideia de ser uma pessoa conhecida, algo que a defesa deste ex-administrador do Grupo Lena considerou ter sido mais um passo na demonstração de inocência do seu cliente.

Caso Marquês O Ministério Público, através do departamento que investiga a criminalidade mais complexa – o DCIAP –, acusou 28 arguidos, 19 pessoas singulares e nove pessoas coletivas, no âmbito da designada Operação Marquês, em 2017. José Sócrates está acusado de crimes de corrupção passiva de titular de cargo político (três crimes), branqueamento de capitais (16 crimes), falsificação de documento (nove crimes) e fraude fiscal qualificada (três crimes).

 

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