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Carlos Zorrinho 31/10/2019
Carlos Zorrinho
opiniao

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O mundo a ferver

 Um pouco por todo o mundo, a quebra de confiança nas elites governantes ou a asfixia da expressão democrática estão a conduzir à revolta.

A emergência climática e as desigualdades tornaram-se as duas grandes pragas decorrentes da globalização desregulada, num contexto de aceleração geométrica da capacidade científica e tecnológica e do seu uso potencial ao serviço da humanidade ou daqueles que controlam, de forma cada vez menos democrática e transparente, os seus destinos.

Por causa delas, e também pela contaminação fácil proporcionada pela comunicação instantânea e em rede, o mundo está a ferver.

A pobreza, a fome, as condições de trabalho desumanas que atingem partes significativas da população mundial, associadas ao controlo da liberdade de expressão, à destruição da paisagem e ao sentimento generalizado de frustração e indignação face à injustiça, que se apoderou de muitos mais, têm vindo a irromper por todos os continentes, traduzindo-se em manifestações cada vez mais numerosas, cruzando motivações diversificadas, mas confluentes na recusa do afunilamento totalitário triunfante.

Espoletadas por circunstâncias diferentes, essas manifestações têm algumas características comuns. Começam por ser pacíficas, trazem para a rua gente de todas as idades, revelam lideranças fortes da nova geração e, na maioria dos casos, sofrem tentativas de instrumentalização por agitadores locais e globais a quem a violência serve para imporem as suas visões radicais ou para desmotivarem a contestação ao statu quo.

De Santiago do Chile a Barcelona,de Quito a Hong Kong, de La Paz a Beirute e um pouco por todo o mundo, a quebra de confiança na capacidade das elites governantes para assegurarem um contexto de vida decente para as maiorias ou a asfixia da expressão democrática estão a conduzir à revolta. Em fervura mais fina, a moda ideológica do iliberalismo, inspirada nos autoritarismos sufragados de forma mais ou menos democrática, vai também perdendo terreno para uma nebulosa que ainda não é certo que seja o retorno da democracia ou, pelo menos, a democracia como a conhecemos antes da globalização tecnológica e da proliferação das novas redes transnacionais de poder e controlo.

O mundo ferve. Ferve de várias e diferentes maneiras. É preciso agir antes que se atinja um ponto de não retorno nas condições climáticas em si mesmas, mas também no clima político, económico e social. Agir globalmente com a consciência de que toda a ação, ainda que local, é hoje projetada como parte de dinâmicas mais vastas e ter a coragem de inovar na forma de mobilização e de participação cidadã no desabrochar do futuro.

Regressemos àquilo que parece ser o processo dominante de erupção das manifestações: o início pacífico, a participação jovem acrescida e a instrumentalização por radicais de múltiplas proveniências e motivações várias.

Mais do que colocar água fria, por vezes literalmente, na fervura, as sociedades abertas têm de desenvolver defesas contra a instrumentalização de dinâmicas que, se enquadradas num plano institucional transparente, podem constituir as alavancas de que o mundo precisa para combater as raízes da doença, ou seja, a exploração desmedida e descuidada dos recursos, as desigualdades brutais e a asfixia do sentido e do anseio de viver em comunidades saudáveis. Transformar a ameaça em oportunidade é urgente, antes que a ebulição torne tudo demasiado volátil para poder ser gerido com sensatez e racionalidade.

 

Eurodeputado

 


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