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Joana Mortágua 31/10/2019
Joana Mortágua
Cronista

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Outra Escola

É o nome de uma série documental de 13 episódios que começou a ser transmitida esta semana na RTP2. Com autoria de Filipa Reis, João Miller Guerra e Maria Gil, Outra Escola vai imergir em diversos projetos educativos para tentar trazer à tona a resposta à pergunta mais difícil: como se aprende?

Uma das boas inovações deste documentário é permitir ouvir, além dos habituais especialistas, a voz dos alunos sobre os processos de aprendizagem a que estão sujeitos. Esta prática, pouco utilizada pelos ministérios da Educação, põe a um canto (e com orelhas de burro) aqueles que acham que o sistema de ensino é unidirecional e reduzem a interação com o corpo estudantil a questões disciplinares.

Por razões de atualidade, faço aqui um parênteses para denunciar o logro das respostas rápidas e fáceis para os problemas de indisciplina ou conflitos no espaço escolar. A tentativa de nos convencer de que a solução passa pela criminalização precoce de determinados jovens, bem ao jeito conservador, só serve o elitismo de quem nunca se conformou com a entrada de pobres nas mesmas escolas dos ricos.

Mas voltando ao documentário, o primeiro episódio termina com um grupo de alunos numa sala de aula da Escola Secundária de Camões a lançar algumas perguntas:

“Porque temos um programa tão extenso para o tempo de aulas?

Porque avaliam o decorar e não o saber?

Porque duram as aulas tanto tempo?

Porque tem cada turma tantos alunos?

Porque é que só as notas contam para entrar para a universidade?

Porque são as minhas avaliações só à base de testes?

Porque é que os professores não sabem pôr-se no lugar dos alunos?

Porque estão as férias tão mal distribuídas?”

É verdade que estas questões não esgotam a visão caleidoscópica a que se propõe a reflexão sobre como se aprende em Portugal. Ainda assim, é muito difícil não reconhecer nelas alguns dos temas que têm motivado maior debate na comunidade educativa, alguns deles provocados até por entidades externas, como a OCDE.

Qualquer pessoa que acompanhe a área reconhece a pertinência daquelas perguntas. E é por isso que quando olhamos para o programa de Governo apresentado pelo PS é irresistível ir à procura das respostas. Só que, lamentando ser spoiler de um debate que ainda não terminou, deixem-me adiantar que elas não estão lá.

É verdade que o programa refere uma maior capacidade de intervenção precoce em numeracia e literacia. Mas sobre a inclusão da primeira infância no sistema educativo, nada diz. Continua a ver as creches como resposta social e promete um “cheque-creche” a partir do segundo filho, que assim passa a ter mais direitos do que o primeiro (só para nos entendermos sobre a importância do princípio da universalidade).

Sim, é verdade que o programa de Governo prevê um reforço no combate ao insucesso na Matemática. Mas sobre os programas demasiado longos e deliberadamente construídos para serem inacessíveis, sobre os currículos ultrapassados, a duração das aulas, os métodos de ensino, o modelo de avaliação obsoleto, o modelo de acesso ao ensino superior, nada diz.

No entanto, ninguém acredita que o Governo não tenha a sua opinião sobre a maioria destas perguntas. Preocupante é o contraste entre o silêncio sobre esta e outras questões e o ruído provocado por uma ligação perigosa: o pretenso reforço da autonomia, referido mas muito mal explicado, associado a uma obsessão pela municipalização da escola pública. Tudo indica que qualquer reforma curricular ou do modelo de gestão será engolida por esse arrastão. Sobre isso não há riscos de spoiling, é mesmo mau sinal.

 

Deputada do Bloco de Esquerda

 

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