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José Cabrita Saraiva 29/10/2019
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@newsplex.pt

Já que fala em “repor a verdade"...

"Já que está numa onda de “repor a verdade”, Sócrates podia também esclarecer por que andou a gastar à tripa forra em Paris depois de ter deixado o país de pantanas".

Ao chegar ontem ao Tribunal Central de Instrução Criminal para o primeiro de quatro dias de interrogatório sobre a Operação Marquês, José Sócrates disse aos jornalistas que estava ali para “repor a verdade”.

Acontece que, noutras ocasiões que teve ao seu dispor para dizer a verdade, o antigo primeiro-ministro omitiu factos da maior importância. Por exemplo, em março de 2013, em entrevista a Vítor Gonçalves e Paulo Ferreira na RTP, limitou-se a dizer que só tinha uma conta bancária, a mesma há 25 anos, e que ao deixar o cargo de primeiro-ministro tinha solicitado um empréstimo bancário à CGD para poder custear um ano em Paris sem trabalhar, uma vez que não dispunha de poupanças.

Na ocasião esqueceu-se de referir, entre outras coisas, que até podia ter dispensado o empréstimo da CGD, uma vez que pelos vistos dispunha de crédito ilimitado junto de um amigo de infância que tinha uma conta na Suíça recheada com milhões e milhões – um “pormenor” só revelado mais tarde, quando o antigo primeiro-ministro foi confrontado com alguns factos incómodos da investigação e se viu obrigado a justificar-se.

Já que está numa onda de “repor a verdade”, Sócrates podia também esclarecer por que andou a gastar à tripa forra em Paris depois de ter deixado o país de pantanas; por que recebia dinheiro vivo dentro de envelopes, e não por transferência bancária, como seria de esperar se se tratasse de empréstimos legítimos; e, já agora, por que falava numa linguagem codificada com as pessoas do seu círculo de confiança.

Por mais que Sócrates se indigne e diga o contrário, estes comportamentos, ainda para mais num antigo primeiro-ministro, se não são censuráveis, pelo menos justificam todas as suspeitas. Enquanto estas contradições não forem explicadas – e bem explicadas – será difícil alguém acreditar que a verdade que Sócrates diz querer “repor” tem alguma correspondência com os factos.

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