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Amianto. A roleta-russa da saúde

Amianto. A roleta-russa da saúde

Rita Pereira Carvalho 27/10/2019 09:56

Mesotelioma, cancro do pulmão ou asbestose – estas são as doenças associadas à exposição ao amianto. Em Portugal há quem esteja exposto e não saiba. O diagnóstico precoce ainda não é feito, alerta a Quercus.

Imagine-se o jogo da roleta-russa: há uma arma e uma bala. O revólver é o amianto, o cartucho é uma doença – que pode ser cancro do pulmão, por exemplo. E quem joga são todas as pessoas expostas a este químico que até há bem pouco tempo era elevado ao patamar de ouro branco. Neste jogo da saúde todos participam enquanto o amianto não for completamente eliminado. 

Que o amianto faz mal à saúde, já se sabe. Mas é preciso conhecer as histórias de quem foi apanhado pelas fibras de amianto para perceber a dimensão de um químico cujos efeitos para a saúde são capazes de se manifestar até 20 anos após a exposição. E as consequências vão até ao limite – cancro do pulmão, mesotelioma ou asbestose. 

A Lisnave tem os dias contados, mas os 38 anos de trabalho não desaparecem da memória de Carlos Guerreiro. Por acaso, em 2003 fez exames médicos a pedido da seguradora, e no dia em que chegaram os resultados – já tinha deixado o trabalho como mecânico na Lisnave há três anos – foi-lhe diagnosticada asbestose, uma patologia pulmonar desenvolvida pela exposição ao amianto. “Nunca fumei na vida e foi a minha salvação”, disse o antigo trabalhador da Lisnave ao i, acrescentando que, na altura, os médicos relacionaram logo a patologia ao facto de ter trabalhado durante mais de três décadas na Lisnave, em contacto com materiais que continham amianto. Hoje tem sempre consigo uma bomba que usa quando tem dificuldades em respirar e faz uma tomografia computadorizada (TAC) todos os anos, “por prevenção, porque, felizmente, está controlado”, acrescentou. No mesmo hospital onde Carlos Guerreiro é acompanhado está também um colega seu que trabalhou na mesma empresa, “que já foi operado, e o caso é mais complicado”. 

“Antigamente, os navios tinham muito amianto, todos os tubos de água quente eram isolados com uma manta que era feita de amianto, porque aguentavam mais a passagem de água quente pelos tubos”, explicou Carlos Guerreiro, de 74 anos. Na altura, o tema do amianto era desconhecido e, quando eram reparados os tubos e canos, não se utilizavam máscaras para proteção. 

Os primeiros sintomas de asbestose surgem quando há dificuldade em respirar, pois as fibras de amianto vão-se instalando como farpas nos pulmões, o que provoca o aparecimento de cicatrizes e enrijecimento dos pulmões. Aliás, o nome asbestose está diretamente relacionado com o amianto, já que este material também é designado por asbesto. 

Depois de se conhecer a história de Carlos Guerreiro surgem várias dúvidas, sendo uma delas a razão pela qual se apostou tanto no amianto. Mas a resposta é simples. Este material tem imensas qualidades, tanto físicas como químicas: é resistente a altas temperaturas, é muito barato comparativamente com as alternativas, pode ser trabalhado como um tecido devido às fibras que o compõem, é resistente ao ataque de ácidos e de bactérias, é flexível, tem uma boa qualidade isolante e dura anos, anos e anos. São muitas qualidades, de facto, e é por isso, por exemplo, que as coberturas de amianto estão nas escolas há 30 ou 40 anos e ainda não estão danificadas – porque o material é bom. A questão é que a carteira nunca se pode sobrepor à saúde. 

As falhas

O trabalhador da Lisnave serve de exemplo para uma das falhas identificadas pela Quercus. “Em Portugal não se estudou nem os antigos trabalhadores das fábricas de amianto nem dos estaleiros navais, onde se utilizou amianto diariamente e com uma grande incidência”, referiu ao i Cármen Lima, coordenadora da SOS-Amianto e do Centro de Informação de Resíduos da Quercus. Além disso, não existe nenhum programa de apoio à realização de um diagnóstico precoce aos trabalhadores para que as doenças sejam identificadas a tempo de serem tratadas. 

Além da asbestose existe o mesotelioma, que é o único cancro que é comprovadamente provocado pela exposição ao amianto. Só à Quercus já foram reportados cerca de dez casos de mesotelioma. “Mas existem cancros que também são provocados pela exposição ao amianto, como o cancro do pulmão, o cancro da laringe, o cancro dos ovários, os gastrointestinais, que as pessoas normalmente não nos denunciam porque desconhecem que seja essa a causa”, referiu Cármen Lima. “Se houver uma pessoa que seja fumadora e desenvolva cancro do pulmão, mas que a origem seja o amianto, nem o médico nem ela vão associar que aquele cancro foi provocado pelo amianto”, acrescentou.

“Há pessoas que estão expostas e não desenvolvem nada e há outras pessoas que desenvolvem doenças – isto é quase uma roleta-russa e não se sabe qual a probabilidade de a pessoa vir a adoecer ou não”, esclareceu a coordenadora da SOSAmianto, a plataforma criada pela Quercus onde é possível denunciar os casos de doença devido à exposição ao amianto e perceber onde o amianto pode ser encontrado. 

Segundo esta plataforma, o amianto está presente em mais de 3500 tipos diferentes de materiais. Por exemplo, as luvas que Carlos Guerreiro utilizava quando trabalhava na Lisnave, para manusear os equipamentos, continham amianto. Fitas de estores, lápis de cera importados de países onde o amianto não é proibido, pavimentos em vinil, tetos falsos, papéis de parede, eletrodomésticos fabricados antes de 2005, aventais, revestimentos de tábuas de passar a ferro – estes são só alguns exemplos de materiais que podem conter amianto. 

Em 2005, a União Europeia proibiu a utilização de todas as fibras de amianto. No entanto, apesar de ser proibido, as estruturas que continham este tipo de material continuaram com ele e, em grande parte do país, ainda não foram retiradas. Exemplo disso são as escolas e os hospitais. 

Onde está? Não se sabe bem

Até serem identificados todos os locais e materiais onde o amianto está presente é impossível fazer com que este químico desapareça. Um dos grandes problemas é que, além dos edifícios públicos, o levantamento de amianto em edifícios privados ainda não está concluído. “Portanto, no presente, nós não sabemos quem está exposto”, explicou Cármen Lima, acrescentando que há trabalhadores que estão em contacto com amianto e nem sequer sabem. 

Segundo a Quercus, se uma pessoa trabalha num edifício cujo teto falso contém amianto, por exemplo, deverá estar descrita nos cuidados de saúde ocupacional a exposição ao amianto e deverá ser feito um diagnóstico precoce através da realização de uma TAC. “Como nada disto está identificado – não estão identificadas nos edifícios quem são as pessoas que estão expostas – não é feito este diagnóstico precoce, portanto não há um pedido de classificação para esses profissionais”, referiu a coordenadora da SOSAmianto. 

Como mais vale prevenir do que remediar, o segredo é a prevenção. E é mais barato “retirar e proteger as pessoas da exposição ao amianto do que deixar as pessoas adoecerem e tratar um cancro”, disse Cármen Lima. 

Pelas contas divulgadas pela plataforma da Quercus, retirar a cobertura de amianto de uma escola é 50 vezes mais barato do que tratar o cancro da pleura do pulmão provocado pela exposição à substância. A Organização Mundial da Saúde refere que para tirar 500 metros quadrados de amianto são necessários cerca de cinco mil euros, mas tratar um doente com um mesotelioma custa ao Serviço Nacional de Saúde mais de 260 mil euros. 

Além dos números, há um aspeto impossível de contabilizar, diz a Quercus: “O sofrimento das pessoas e dos seus familiares”.

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