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Mário Ramires 23/10/2019
Mário Ramires

opiniao@newsplex.pt

A democracia não chega à direita?

É ridículo que o CDS, em 2019, 45 anos depois do 25 de Abril, não tolere o incómodo de os seus deputados terem de ceder passagem ao deputado eleito pelo Chega para que este possa tomar o seu assento parlamentar. 

Nos anos da revolução, o CDS reuniu-se pela primeira vez em congresso no Palácio de Cristal, no Porto, ficando marcado pelo histórico cerco levado a cabo por militantes de extrema-esquerda. Foi há quase 45 anos (em janeiro de 1975), mas ainda há no partido destacados militantes que podem testemunhar as muitas horas de tensão que se viveram na altura. Chegou mesmo a haver troca de tiros entre os congressistas no interior e os esquerdistas no exterior. E as coisas só não descambaram mais porque o COPCON interveio e acabou com o cerco. O CDS, à época, era liderado por Diogo Freitas do Amaral – recentemente falecido e homenageado na sede do Largo do Caldas, mas de cujas paredes a fotografia chegou a ser retirada (e enviada para o Largo do Rato) quando, num “desvio de esquerda”, aceitou integrar o Governo do PS de José Sócrates.

Serve a evocação destes episódios para lembrar aos atuais dirigentes e deputados do CDS que a história do partido, apesar de já vários terem caído na tentação de procurarem reescrevê-la, não se apaga. E naqueles anos quentes da revolução, o CDS era para as forças radicais de esquerda um partido fascista e de extrema-direita. Foi por isso com naturalidade que, na sequência das primeiras eleições legislativas pós-25 de Abril (para a Assembleia Constituinte), os deputados do CDS ocuparam a ala mais à direita do hemiciclo. No outro extremo, por sinal, ficaria o único deputado eleito pela UDP, Acácio Barreiros. Que foi sentar-se ao lado da bem mais numerosa bancada do PCP, pela qual tinha de passar, entrando todos para o hemiciclo pela mesma porta. E se havia guerra ideológica e ódio assumido (à pedrada) era entre camaradas maoistas e leninistas.

Ora, que se saiba, nem Cunhal nem ninguém do comité central ou da bancada comunista ousou pretender impedir o camarada Acácio de circular à vontade pela Casa da Democracia (e era um esquerdista tão radical que acabou sentado na direção da bancada... do PS). É, também por isso, ridículo que o CDS, em 2019, 45 anos depois do 25 de Abril, não tolere o incómodo de os seus deputados terem de ceder passagem ao deputado eleito pelo Chega para que este possa tomar o seu assento parlamentar. André Ventura, que até há muito pouco tempo militava no PSD, foi membro da comissão política dos sociais-democratas e candidato deste partido a uma das mais populosas autarquias do país. Passou de repente a ser um radical populista de extrema-direita? E a intolerância e a proscrição serão a melhor forma de combater os populismos extremistas? Ou a democracia acaba onde começa a direita e o centro do CDS é o limite? E à esquerda, não há? Tolerem-se, senhores, e enxerguem-se!

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